A banalização da vida

Abr 1, 2026 - 07:00
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A banalização da vida

Dois vídeos que estão circulando nas redes sociais da cidade mostram jovens se agredindo e se divertindo com brigas nos últimos dias nas ruas do Guará, mesmo depois da morte de um jovem agredido e morto em Vicente Pires no início do ano por causa de um chiclete, e de outro em Sobradinho, agredido e morto com várias facadas por quatro jovens após uma simples discussão, há duas semanas.
Num dos vídeos, dois jovens, com luvas de boxe, mediados por um “juiz” que dava os comandos, se agridem com socos e luta corporal, ao som de gritos de incentivo de vários outros jovens, à noite, na área verde entre o Edifício Consei e a QE 19 do Guará II. A “luta” é filmada e narrada para ser publicada em redes sociais que estimulam esse tipo de briga, ou para ser difundido em grupos específicos de jovens da cidade que apreciam as disputas de território, de garotas ou por medição de força física.
Em outro vídeo, da semana passada, um jovem franzino é agredido por vários outros garotos maiores na porta do Centro Educacional 1, entre as QEs 34/36 do Guará II, por ter, supostamente, empurrado uma garota.

E não foram somente esses dois casos. Esses estão tendo maior repercussão porque foram filmados e difundidos na Internet. O risco, de acordo com especialistas em comportamento juvenil e segurança pública é que a exposição dessas agressões, combinadas ou não, estimulem mais violência, principalmente em portas de escolas, onde tem acontecido com maior frequência.
Outro vídeo que circula na Internet mostra uma briga generalizada entre jovens durante uma festa semana passada no Setor de Clubes Sul, que joga luz sobre a escalada da violência entre adolescentes e jovens adultos que ganham as ruas do DF para resolverem diferenças na porrada. Nas imagens, é possível ver oito jovens protagonizando uma briga com trocas de socos, chutes, golpes mata leão e agressões mútuas, para delírio de centenas de jovens em volta.
Em outro vídeo, um rapaz de 20 anos é agredido e esfaqueado por um grupo no Itapoã na madrugada de sábado passado. A vítima foi levada pelo Corpo de Bombeiros para o Hospital de Base, na Asa Sul, em estado grave. As imagens mostram o jovem caído no chão, enquanto era agredido pelo grupo. Um dos agressores esfaqueou a vítima. O jovem conseguiu levantar e tentou fugir, mas foi derrubado novamente e as agressões continuaram. A cena foi gravada e outros jovens presenciaram as agressões, mas não ajudaram a vítima a se defender.
Os casos de Rodrigo Castanheira, 16 anos, morto pelo piloto Pedro Turra em Vicente Pires, e Leonardo Ferreira da Silva, 19 anos, morto a facadas em Sobradinho, em menos de um mês, expõem uma sequência de episódios marcados por agressões, violência extrema e banalização da vida.
A gravidade do comportamento do agressor e a passividade observada em outros casos recentes — como o de uma adolescente que assistiu ao afogamento de uma criança sem prestar socorro e o dos adolescentes envolvidos na morte do cão Orelha em Praia Brava, em Florianópolis, — acendem um alerta vermelho para pais, educadores e especialistas em saúde mental sobre o processo de formação moral desses jovens.

Responsabilidade
dos pais
De acordo com a psicóloga clínica e jurídica Andreia Calçada, a formação do caráter e da empatia depende diretamente da mediação dos adultos. “Em uma fase onde o cérebro ainda está desenvolvendo a noção de consequência, a ausência de limites claros pode ser desastrosa. A falta de limites desde cedo é um dos principais fatores de risco. A criança precisa aprender que seus atos têm consequências e que machucar o outro não é aceitável. Esse aprendizado ocorre pelo exemplo e pela postura firme e afetiva dos pais”, explica a especialista. Segundo ela, quando não há mediação dos adultos, essas referências passam a vir do ambiente externo, muitas vezes violento e indiferente. “O resultado é uma geração que ri da violência ou não sente absolutamente nada diante dela”, afirma a especialista.
Outro ponto crítico abordado por especialistas é o monitoramento do ambiente digital. A exposição constante a conteúdos violentos e narcisistas nas redes sociais pode naturalizar a dor do outro. Vídeos de agressões circulam livremente, acumulando curtidas e comentários em tom de deboche, o que acaba por naturalizar o sofrimento. Para a psicologia, o acompanhamento do que o jovem consome na internet não é controle excessivo, mas sim cuidado fundamental para evitar que referências narcisistas e violentas substituam os valores familiares.

 

Para não se repetir o que aconteceu no Rogacionista

Uma briga entre adolescentes do Colégio Rogacionista, na QE 38 do Guará II, viralizou na Internet, em setembro do ano passado, e provocou indignação na comunidade guaraense. Um dos alunos levou um “mata-leão”, também chamada de “gravata”, desmaiou e ficou desacordado durante 7 minutos, até ser socorrido e encaminhado ao Hospital de Base. Ele passou por exames, por tomografia no crânio e perdeu um dente.


Vídeos feitos por colegas e pais de alunos que aguardavam o fim do expediente matutino em frente à escola mostram dois adolescentes encapuzados atacando estudantes uniformizados na saída da escola. Um deles segura a vítima, enquanto o outro desfere chutes e socos. Quando um colega tenta intervir, também é atingido e impedido de ajudar. A violência só cessou quando os agressores perceberam que o estudante havia perdido a consciência. Em seguida, os dois fugiram em direção à QE 38, mas foram contidos por um morador até a chegada de policiais militares e encaminhados à Delegacia da Criança e do Adolescente (DCA), onde foram ouvidos na presença dos pais.
Para a Polícia Militar, a agressão foi premeditada, porque os dois menores, de 15 e a 16 ano, que iniciaram a briga estavam utilizando balaclava, uma máscara que cobre toda a cabeça para dificultar o reconhecimento. Eles estavam também com as mãos cobertas por faixas de lutadores.
Nas imagens, é possível ver uma das vítimas sendo imobilizada por um dos suspeitos, enquanto o outro desfere socos e chutes. Eles partem para cima dos estudantes que usavam uniforme. Outro adolescente aparece e tenta dar um soco na cabeça do enforcador, mas é interceptado por um quarto garoto, que não usa máscara, mas tenta cobrir o rosto erguendo a própria camisa.

Educação e Segurança Pública firmam
parceria para cultura de paz nas escolas

A Secretaria de e a Secretaria de Segurança Pública no dia 13 de março uma parceria para ampliar ações de prevenção à violência e promoção da cultura de paz nas escolas públicas do DF.
Cerca de 400 estudantes do ensino médio da rede pública participaram da atividade, que, nesta etapa, contempla a Coordenação Regional de Ensino do Guará. As ações já vêm sendo desenvolvidas em outras regionais do DF. A parceria prevê a implementação, nas unidades escolares da rede pública, de dois programas voltados à formação cidadã dos estudantes: o Programa Turminha Mais Segura, direcionado aos alunos dos anos iniciais do ensino fundamental, e o Programa Formativo de Promotores de Segurança Cidadã, voltado aos estudantes do ensino médio.
As ações incluem palestras educativas, apresentações teatrais e atividades formativas que abordam temas como prevenção à violência, bullying, cidadania, direitos humanos e segurança no trânsito. A proposta é fortalecer o ambiente escolar como espaço de diálogo, respeito e convivência.

Programas de prevenção nas escolas
As ações do programa Turminha Mais Segura serão realizadas principalmente com estudantes dos anos iniciais do ensino fundamental, utilizando linguagem lúdica e atividades educativas para tratar temas relacionados à cidadania e à prevenção de acidentes e violências.
Já o Programa Formativo de Promotores de Segurança Cidadã terá foco em estudantes do ensino médio, com palestras e encontros formativos voltados à conscientização sobre segurança, prevenção e convivência. A proposta é que os jovens atuem como multiplicadores dessas práticas em suas comunidades escolares. A portaria estabelece que as ações serão realizadas de forma articulada entre as duas secretarias e as Coordenações Regionais de Ensino, com apresentações, encontros formativos e atividades educativas ao longo do calendário escolar.

Escolas do Guará tem programas específicos
A crescente onda de brigas e agressões dentro e fora das escolas públicas do Guará estimulou a criação de programas para ajudar a combater a violência entre os alunos. De acordo com a coordenadora Regional de Ensino do Guará, Karine Silva Pereira Rodrigues, um desses programas é o Vem Comigo, que promove mentoria aos professores para a conscientização dos alunos contra o estímulo à violência no âmbito escolar. O programa, segundo ela, começou no GG (CEM 1 – QI 7) e está sendo estendido para o CEF 1 (QI 4) e CEF 8 (EQ 13/15).
Em relação às violência na parte externa das escolas, a coordenadora garante que o assunto também preocupado a Regional de Ensino. “A nossa recomendação é que a direção das escolas identifiquem os “brigões” e chamem os pais para informá-los do que os seus filhos andam fazendo”, explica. Para Karine, essa violência juvenil tem sido estimulada pela Internet, que muitas vezes foge do controle dos pais. “A dinâmica familiar de hoje muitas vezes impede esse acompanhamento próximo. Por isso, a escola se torna um espaço ainda mais importante para observar mudanças no comportamento deles”.

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