Contagem regressiva para Copa: Seattle quer apresentar outra face dos EUA ao mundo

Faltam poucos meses para a Copa do Mundo de 2026 e, muito além do futebol, uma disputa paralela já começou dentro dos Estados Unidos: a de qual cidade conseguirá transformar o torneio em legado econômico, político e cultural. Seattle decidiu entrar nesse jogo com ambição.
Durante um briefing oficial no Foreign Press Center, em Washington, a prefeita Katie Wilson detalhou o plano da cidade para receber partidas do Mundial. A apresentação não foi apenas administrativa. Foi quase uma carta de intenções. A prefeitura quer usar o evento como vitrine internacional num momento em que o país vive tensões políticas internas, debate migratório intenso e disputas diplomáticas frequentes.
A mensagem central foi clara: a Copa será usada como ferramenta de imagem.
“Garantir a segurança dos moradores e dos visitantes é nossa prioridade número um”, afirmou Wilson, destacando que a cidade trabalha há anos com órgãos estaduais, federais e com a FIFA em planos operacionais. Segundo ela, a organização já está “no caminho certo” e preparada para o volume de turistas.
E o volume será enorme. A prefeitura calcula que, durante os jogos, a população efetiva da região pode praticamente dobrar. O estádio terá cerca de 63 mil lugares, mas a cidade espera uma multidão muito maior espalhada por hotéis, bares, parques e áreas públicas. Para absorver essa massa, Seattle vai criar fan fests e transmissões públicas gratuitas, inclusive no Seattle Center, além de telões espalhados pela cidade.
A estratégia é simples: mesmo quem não conseguir ingresso precisa ficar — e gastar — na cidade.
A prefeita também confirmou que haverá zonas de torcedores e áreas culturais conectando o centro a bairros históricos, como Capitol Hill e o Central District. A iniciativa, chamada de “unity loop”, vai misturar arte pública, atrações turísticas e eventos comunitários.
Pós-pandemia
A Copa chega em um momento considerado crucial para o centro de Seattle. A região ainda tenta recuperar fluxo econômico após a pandemia e a saída de escritórios corporativos. Por isso, a prefeitura aposta que o Mundial funcionará como uma espécie de relançamento urbano.
Entre as obras, estão melhorias no waterfront recém-revitalizado, novos parques, ciclovias e intervenções urbanas no corredor entre o estádio e o Seattle Center, área onde ocorrerão grandes festas públicas. O objetivo declarado é que essas mudanças permaneçam depois do torneio.
Outro foco importante é o transporte. Diferentemente de outras sedes americanas dependentes de carros, Seattle aposta no transporte coletivo para evitar colapso urbano e também para vender uma imagem sustentável. O estádio fica ao lado do centro financeiro e conectado por metrô leve, ônibus, bonde, Amtrak e até balsas marítimas.
A cidade promete ampliar horários e criar linhas extras. A prefeita explicou que a melhor forma de chegar aos jogos será transporte público, tanto por questão ambiental quanto por necessidade prática. Dirigir, segundo ela, será “muito difícil” com a multidão prevista.
Imigração
A Copa também se cruza diretamente com um tema sensível nos Estados Unidos: imigração.
Questionada por jornalistas estrangeiros sobre possíveis receios de visitantes diante das políticas migratórias americanas e da atuação do ICE, Wilson reconheceu a preocupação. Disse que há “ansiedade em comunidades imigrantes” e que isso pode influenciar a decisão de alguns torcedores de viajar.
Como resposta, ela citou uma medida federal: um sistema prioritário de agendamento de vistos para quem tiver ingressos para as partidas. A cidade, por sua vez, promete manter sua política de “welcoming city”, uma declaração política importante num país dividido sobre imigração.
Há também preocupação com segurança internacional. Para partidas envolvendo seleções de países politicamente sensíveis, a prefeitura confirmou coordenação direta com autoridades estaduais, federais e com a FIFA. Protestos são esperados — e autorizados. Seattle pretende criar áreas específicas para manifestações a fim de preservar o clima festivo.
Além da segurança, a prefeitura aposta forte no impacto econômico. A estimativa oficial é de que quase 1 bilhão de dólares circulem na economia local durante o torneio. O desafio, segundo a prefeita, é evitar que o dinheiro fique concentrado apenas em hotéis e grandes empresas. A cidade quer direcionar turistas para bairros e pequenos negócios, muitos deles comandados por imigrantes.
Restaurantes, cafés e comércios locais fazem parte da estratégia. A ideia é transformar o visitante em explorador urbano, não apenas em espectador de estádio.
Outro ponto simbólico: Seattle sediará jogos durante o fim de semana do Pride e também perto do Juneteenth, feriado que celebra o fim da escravidão nos EUA. A prefeitura pretende usar a coincidência como mensagem política internacional sobre diversidade e direitos civis.
A prefeita resumiu a ambição do projeto ao falar sobre o momento global: em um mundo de conflitos e tensões, a Copa seria “uma competição amigável que reúne culturas”.
Há ainda ganhos indiretos esperados. O sistema de transporte passará a aceitar pagamento por aproximação com cartão — uma mudança aguardada há anos. A cidade também trabalha para expandir abrigos emergenciais e reduzir a população em situação de rua antes do início do torneio, tema sensível para a imagem internacional da região.
Seattle já se vê além de 2026. A prefeitura quer que a organização bem-sucedida abra caminho para novos megaeventos — inclusive uma futura Copa do Mundo feminina. No fundo, a cidade tenta algo maior do que sediar partidas. Quer usar o futebol para redefinir sua própria narrativa.
Em um país onde o Mundial ainda luta por espaço entre NFL, NBA e beisebol, Seattle aposta que a edição de 2026 será diferente. A prefeita admite: o futebol hoje é muito mais popular nos Estados Unidos do que em 1994, último Mundial no país.
Se der certo, a Copa não será apenas um torneio de verão. Para Seattle, será um projeto de reputação global. E talvez, também, um teste de como os Estados Unidos querem ser vistos pelo mundo nesta década.
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