Dívidas para o ano novo
Não há dúvidas de que o Guará vem do período mais farto em investimentos de sua história. Nos últimos três anos, foram cerca de R$ 400 milhões em obras, algumas já concluídas e outras em andamento, como infraestrutura das quadras novas (QEs 48 a 58), duplicação da via ao Núcleo Bandeirante, recapeamento asfáltico de toda a via contorno, troca de quase toda a iluminação pública por LED, reforma do Teatro de Arena, recapeamento da via EPGu (Guará-Zoológico), reforma e melhoria do Hospital Regional do Guará (HRGu), e as construções da Creche Comunitária entre as QEs 17 e 19 (obra concluída), da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) e do Hospital Clínico Ortopédico (obras iniciadas). Mas nem tudo são flores. Velhos problemas estão sendo repassados ao ano novo, alguns sem prazo de solução.
A concessão do Complexo do Cave, a reforma do telhado da Feira Permanente e a solução para a ciclofaixa do Guará II entram 2026 como os maiores desafios do último ano da gestão Ibaneis no Guará. Aparentemente são gargalos nem tão difíceis de resolver, mas que esbarram na lentidão da burocracia pública ou na falta de vontade política dos governantes.
De todos esses “presentes de grego” para o ano novo, o maior deles é a concessão do Cave, que completa 12 anos desde quando foi anunciada ainda no Governo Agnelo, e quase quatro anos desde quando aconteceu a primeira tentativa de licitação, esbarrada na resistência – e intransigência – do segmento cultural do Guará e na morosidade do Tribunal de Contas do DF, que demora uma eternidade para julgar um simples processo. Soma-se a isso, a incompetência confessa do governo ao perceber que a concessão somente poderia acontecer depois que a área do Cave fosse parcelada e dividida em lotes de equipamentos públicos (sedes da Administração Regional, Feira do Guará, Fórum, Salão de Múltiplas Funções, Divisão de Obras, Casa da Cultura e Teatro de Arena) da parte esportiva (estádio, kartódromo, quadras poliesportivas) e instituições que funcionam há muitos anos no Cave, como Rotary Club e Clube dos Amigos.
Parece, entretanto, que essa última fase para a liberação da concessão está resolvida. Após dois anos de discussão com a comunidade e dentro do próprio governo, finalmente o parcelamento foi aprovado pela Câmara Legislativa em setembro, o que libera a Secretaria de Projetos Especiais (SEPE) para a conclusão do processo de concessão e a abertura do edital para a escolha do concessionário. Se não houver mais impedimentos, a expectativa é que a concessão seja lançada ainda neste primeiro semestre.
Como será a concessão
Chamada de “PP do Cave”, o projeto prevê a concessão à iniciativa privada de três dos 20 lotes em que foi dividida a área, onde estão o Clube Vizinhança, o Ginásio de Coberto, o Estádio Antônio Otoni Filho, as quadras poliesportivas e o campo ocupado por uma escolinha de futebol e uma arena de futevôlei.
A concessão busca transformar o Cave em um polo moderno de esportes, cultura e lazer, sem custo direto para os cofres públicos. Estão previstos equipamentos como piscinas, quadras esportivas, churrasqueiras, espaços para eventos, lojas, academia, praça de alimentação e um novo ginásio de esportes mais moderno e um novo estádio, além de escolinhas de esportes com destinação de 20% das vagas gratuitas para alunos da rede pública. A gestão caberá à concessionária, que deverá cumprir todas as condições previstas em contrato, incluindo as contrapartidas sociais.
Ciclofaixa do Guará II – Quatro anos de enrolação
Há mais de quatro anos do início da obra e há três anos anos e meio que foi interrompida após intensos protestos da comunidade, a parte da ciclofaixa do Guará II que foi concluída continua do mesmo jeito, apesar da promessa da Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação (Seduh) e do Detran de promover adequações para minorar as reclamações de motoristas e pedestres. E ninguém do governo tem falado mais no assunto. A impressão é que o silêncio é proposital até aguardar o esquecimento ou a aceitação pelos moradores. Em parte, a estratégia vem dando certo, porque os próprios moradores não lembram e nem criticam mais a obra. Raramente alguém cita o assunto nas redes sociais. A única informação nova, embora vaga, é do secretário de Desenvolvimento Urbano e Habitação, Marcelo Vaz, durante a audiência pública do Plano de Intervenção Urbana (PIU) do Guará, ao afirmar que o órgão continua aguardando uma posição do Detran sobre possíveis alterações que possam melhorar o acesso de veículos no gargalo até o semáforo em frente à estação do metrô e a avenida contorno. O Detran, por seu lado, garante que as sugestões já foram apresentadas à Seduh, ou seja, considera que já foi atendida a demanda.

e nada de solução, apesar das promessas
A única providência de fato até agora foi a interrupção do projeto na parte que previa interferências na via central até a QI 33, no final do Guará II. O trecho 1, que sofreu alteração, e que provocou acaloradas discussões entre governo e comunidade seis meses de iniciada a obra, continua do mesmo jeito, com o estreitamento da pista e a demarcação de estacionamento nas laterais.
Mesmo com a cobrança de uma posição da Seduh e do governo, o administrador regional Artur Nogueira afirma que não tem recebido respostas sobre as adequações prometidos no trecho pronto. “Há dois anos não recebo qualquer retorno da Seduh sobre a ciclofaixa”, afirma.
Tudo indica, mais uma vez, que o projeto da ciclofaixa vai passar mais um ano sem solução, até porque o governo não está conseguindo apresentar sugestões que possam concluir a obra e, ao mesmo tempo, agradar à comunidade, principalmente em ano eleitoral.
Feira do Guará – disputa de poder, entre goteiras
Considerada a mais charmosa feira permanente do Distrito Federal, frequentada por quem procura uma variada gastronomia, produtos artesanais, roupas, mercearias e peixarias, a Feira do Guará atravessa o ano com dois problemas diferentes, aparentemente fáceis de serem resolvidos, mas que demandam tolerância, bom senso e pulso firme no caso da briga entre duas associações pelo poder, e vontade política do governo para a recuperação do telhado, que provoca alagamentos e prejuízos a cada chuva forte.
Comecemos pelo imbróglio do poder. Há dois anos, duas associações de feirantes se degladiam nas esferas administrativa e judicial pelo direito de administrar o espaço que abriga quase 700 bancas. No meio da batalha, o governo, que tentou uma atabalhoadaa intervenção, com o objetivo de licitar as bancas sob alegação da necessidade de regularizar as concessões, enquanto estimulava a criação de uma segunda associação para substituir a antiga. Na outra ponta, a Justiça e o Tribunal de Contas do DF, que não conseguem mediar e resolver o problema e deixam um hiato que pode provocar o colapso na manutenção e o consequente fechamento da feira, porque os 25 trabalhadores que cuidam da limpeza e da segurança correm risco de não receber seus salários já a partir de fevereiro.

O governo considera como legal a Associação da Feira do Guará (Asfeg), portanto, a que está autorizada a receber a taxa de rateio para realizar a manutenção. Mas a Associação do Comércio Varejista dos Feirantes do Guará (Ascofeg), a mais antiga e que tem o apoio da maioria dos feirantes, contesta a interferência do governo e se considera a legítima representante dos feirantes. É na Ascofeg que estão registrados os 25 funcionários da manutenção, mas, como a entidade não pode receber as taxas de rateio por determinação do governo, não haverá como manter a folha de pagamento e os insumos se o imbróglio não for resolvido até o final de janeiro. Divididos entre as duas associações e sem saber a quem deve pagar, parte dos feirantes deixa de recolher a taxa de rateio, enquanto outra parte recolhe para a associação que julga no direito
Diante da indefinição, a Ascofeg acionou a Justiça, acusando o governo de “promover gestão paralela” na administração da feira por não reconhecê-la como a legítima representante dos feirantes e pede “Indenização por Danos Materiais decorrentes de omissão administrativa, responsabilizando diretamente o Governo do Distrito Federal (GDF) pelos prejuízos acumulados ao longo de mais de oito anos na gestão da Feira Permanente do Guará”. A ação aponta que a ausência deliberada de um gerente de feira, cargo previsto em lei, comprometeu o funcionamento regular do equipamento público e gerou um rombo financeiro superior a R$ 3,2 milhões”.
Já a reforma do telhado, reivindicada há três anos depois que a obra contratada pelo GDF por cerca de R$ 1,5 milhão para estancar as goteiras não resolveu o problema, teoricamente é bem mais fácil de resolver, porque depende apenas da vontade política do governo. Afinal, os R$ 4 milhões previstos para a obra representam apenas “troco de pinga” para os cerca de R$ 4 bilhões que o governo dispõe no orçamento anual somente para investimentos. A reforma do telhado já foi prometida duas vezes pelo próprio governador Ibaneis durante degustação dos famosos pastéis do Gaúcho.
Em ano de eleições, pelo menos esse segundo problema tem boas chances de ser resolvido em 2026.
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