Flávio Bolsonaro faria melhor se tivesse captado seguindo o modelo da Lei Rouanet

Mai 14, 2026 - 23:00
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Flávio Bolsonaro faria melhor se tivesse captado seguindo o modelo da Lei Rouanet

Em 2026, o treze de maio deu ensejo a mais do que os usuais debates sobre a abolição da escravatura. Num furo de reportagem do Intercept (mais um), brasileiros tiveram conhecimento  de um áudio enviado por Flávio Bolsonaro, do PL do Rio de Janeiro, pré-candidato à Presidência da República, a Daniel Vorcaro, ex-CEO do Banco Master – liquidado pelo Banco Central –, e hoje preso sob acusações de gestão fraudulenta e corrupção.

No áudio, Flávio cobrava de Vorcaro o repasse de valores milionários para financiar o filme “Dark Horse”, filme biográfico  do ex-presidente e pai de Flávio, Jair Bolsonaro – atualmente em prisão domiciliar após condenação por tentativa de golpe de estado.

Segundo a apuração do Intercept, Vorcaro teria se comprometido a apoiar o filme com R$ 134 milhões, dos quais R$ 61 milhões foram efetivamente liberados. O valor inicialmente prometido é igual ou maior que o orçamento de 15 dos 20 últimos vencedores do Oscar e mais de quatro vezes o valor estimado na produção de “O Agente Secreto,” indicado ao Oscar em 2026

Horas antes, o repórter Thalys Alcântara havia confrontado Flávio sobre o papel de Vorcaro no financiamento do longa. Recebeu como resposta um categórico: “é mentira, de onde você tirou essa informação? Militante!”. Antes disso, diante das revelações de que Daniel Vorcaro, via Fabiano Campos Zettel, doou milhões para as  campanhas de Jair Bolsonaro e de Tarcísio de Freitas, do Republicanos de São Paulo, Flávio já afirmara  jamais ter tido “contato pessoal” com o ex-banqueiro.

Mudança de tom

Depois da divulgação do áudio e, da avalanche de cobranças públicas que se seguiu, o senador mudou o tom. Em nota, afirmou que o financiamento do filme provinha exclusivamente de fontes privadas, com “zero de Lei Rouanet”. E defendeu uma “CPI do Master já”.

A tentativa de caracterizar os recursos como “privados” é falaciosa. O dinheiro do Master vinha, entre outros canais, de 18 fundos de previdência estaduais – 17 deles ligados a governos de direita. Sim, estamos falando de dinheiro de aposentadoria de servidores públicos.

Ao longo do dia, a emenda ficou ainda pior que o soneto. Tanto a produtora do filme, ironicamente chamada de Goup Entertainment, quanto o produtor-executivo, o deputado Mário Frias, do PL de São Paulo, divulgaram notas afirmando que o longa não recebeu qualquer recurso do Banco Master. 

A Goup ainda disse fazer esse esclarecimento para “afastar especulações infundadas,” mas que a identidade dos verdadeiros apoiadores do filme está resguardada por “acordos de confidencialidade”. Ou seja, pessoas ou empresas aportaram milhões em uma obra com caráter político, em cuja viabilização um pré-candidato presidencial se mostrou diretamente envolvido, mas não podemos saber quem são.

Onde foi parar o dinheiro?

Ficou no ar a pergunta óbvia: se Flávio negociou R$ 134 milhões em apoio ao filme, dos quais R$ 61 milhões teriam sido liberados, mas os próprios responsáveis pela produção afirmam não ter recebido nada, onde foi parar o dinheiro?

Olhando a confusão que criou, Flávio talvez venha a se arrepender não apenas da nota, mas também das escolhas políticas que fez ao longo dos últimos anos. Porque, se tivesse buscado dinheiro para o filme seguindo o modelo da Lei Rouanet, que a extrema direita resolveu transformar em espantalho ideológico, teria de fato captado dinheiro privado, dentro de regras públicas. E, melhor ainda: a captação, os contratos e a execução dos recursos estariam submetidos a mecanismos mínimos de transparência e prestação de contas.

No fim, a ironia é difícil de ignorar. Depois de anos demonizando artistas, cultura e a própria Lei Rouanet como símbolos da corrupção nacional, o bolsonarismo termina atolado justamente no tipo de relação opaca entre poder político, dinheiro e favorecimento privado que dizia combater.

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