Fomos ao Líbano e vimos de perto a realidade brutal da vida sob ocupação de Israel

Da varanda do prédio da defesa civil em Nabatieh, sul do Líbano, o som das explosões parecia cada vez mais alto. A cerca de 8 km dali está a zona ocupada ilegalmente por Israel, onde os bombardeios são intensos e constantes. “É longe, não se preocupe”, disse o paramédico que acompanhava a equipe do Intercept Brasil nos últimos dias de abril. “Durante a guerra, as explosões eram bem aqui”, completou, apontando para a rua à nossa frente.
O profissional de saúde, que preferiu o anonimato, referia-se ao período prévio a 17 de abril, quando entrou em vigor o cessar-fogo temporário mediado pelos Estados Unidos. O acordo começou a ser violado por Israel logo nas primeiras horas de sua vigência. Nos primeiros dias, os ataques aconteciam principalmente na área ocupada. No entanto, em seguida, voltaram a se generalizar no sul do Líbano – incluindo o centro de Nabatieh, onde aconteceu aquela conversa – e chegaram à capital na última quarta-feira, dia 6 de maio.
Desde 30 de abril, Israel matou ao menos 200 pessoas no Líbano. Os ataques, concentrados em áreas civis do sul do país, têm atingido famílias dentro de suas casas. Segundo o governo libanês, Israel já matou mais de 2.700 pessoas no Líbano desde 2 de março, quando os ataques se intensificaram – incluindo mais de 180 crianças, cerca de 100 profissionais de saúde e nove jornalistas. O número de feridos ultrapassa 8 mil, e o total de deslocados chega a 1,2 milhão, o que representa cerca de 20% da população do país.
Desde 2023, 29 profissionais de imprensa foram mortos por ataques israelenses no Líbano, incluindo a jornalista Amal Khalil, no último dia 22 de abril. Segundo a Repórteres Sem Fronteiras e a Federação Internacional de Jornalistas, Khalil foi alvo de um ataque deliberado – uma execução que as entidades e o governo Libanês classificam como crime de guerra.

Ocupação e deslocamento forçado
Até o momento, mais de 130 cidades e vilarejos no sul do Líbano estão formalmente ocupados ou sob ameaça direta de Israel. São 55 localidades na zona de ocupação – chamada por Israel de linha amarela – e ao menos 84 locais sob ordens de deslocamento forçado. Famílias que moram e trabalham nessas áreas foram expulsas de suas casas e estão impedidas de retornar, sob ameaças de ataque.
A criação da linha amarela no Líbano foi anunciada por Israel imediatamente após o começo do cessar-fogo. Seguindo o modelo utilizado no cerco à Faixa de Gaza, na Palestina, Israel delimitou arbitrariamente o que chamou de uma zona tampão, não negociada no acordo e não prevista em resoluções internacionais para a região. Mais uma vez, avança em seu expansionismo colonial alegando autodefesa, como faz historicamente na Palestina.
Israel reivindica o total controle militar da área e se autoconcedeu o direito de atacar quem cruzar a linha imaginária. Essa faixa, com cerca de 10km de largura, estende-se das águas territoriais libanesas – onde há uma reserva de gás – até a fronteira leste com a Síria.
A ocupação está se expandindo justamente pelas áreas que receberam ordens de deslocamento forçado, anunciadas pelo exército israelense em rede social como “alertas de evacuação”. Israel alega que seus alvos são instalações do Hezbollah, grupo paramilitar e partido político xiita libanês, e afirma que quem permanecer nas áreas sob alerta pode ser atacado a qualquer momento.
Apesar do cessar-fogo, os bombardeios ao sul do Líbano persistem e atingem inclusive localidades que não receberam avisos prévios, provocando constantes ondas de deslocamento forçado da população civil.
“Nós retornaremos”
No centro de Nabatieh, o comerciante Abbas Haji Ali varre os escombros em sua floricultura. Sob o frágil cessar-fogo, ele tenta reconstruir o negócio, atingido em março por um bombardeio israelense em uma das principais avenidas da cidade. No mesmo quarteirão, um prédio residencial e uma loja de artigos infantis foram reduzidos a ruínas. A floricultura permanece de pé, mas teve seu interior devastado: as paredes foram abaladas e o teto desabou parcialmente.
Vasos e arranjos de flores estão espalhados pelo chão da loja. “Este vai ser o lugar das flores novamente”, disse o comerciante libanês ao Intercept. “Fomos atacados em 2024. Reconstruímos tudo, e agora, pela segunda vez, retornaremos”, afirmou – lembrando da destruição causada pela agressão de Israel ao Líbano há menos de dois anos, que matou mais de 4 mil pessoas.
“Este vai ser o lugar das flores novamente”, disse o comerciante libanês ao Intercept.
Ele expressa um sentimento muito presente no sul do Líbano. Em meio à destruição, é comum ouvir moradores relembrando ataques anteriores e reafirmando a certeza de mais um recomeço.
Conhecida como “a joia do sul”, Nabatieh é um polo regional marcado por seus mercados tradicionais, um comércio efervescente e pelo cultivo de oliveiras, romãs e uvas. A cidade ensaiava sua reconstrução após os ataques de 2024 – que já haviam devastado sítios históricos e residências –, quando foi atingida novamente.
“É claro que fico triste, porque esse é meu sustento e o esforço de toda uma vida. Mas isso passa. Dinheiro pode ser recuperado, vidas não. Quando olhamos para os mártires que se foram, percebemos que isso não é nada. Nós já recomeçamos do zero e faremos de novo”, declarou Abbas.

É a mesma ideia de pertencimento relatada por trabalhadores de saúde, que se tornaram alvos deliberados dos ataques israelenses no Líbano, mas continuam a operar em campo. Ambulâncias têm sido constantemente alvejadas, sob a alegação – nunca verificada por fontes independentes – de que transportariam armas e munições para o Hezbollah. Tornaram-se cada vez mais comuns os ataques sequenciais: após um bombardeio inicial, o mesmo local volta a ser atingido por duas ou até quatro ondas consecutivas de ataques, vitimando paramédicos durante o trajeto ou em pleno atendimento aos feridos.
“Apenas no nosso time da Cruz Vermelha [há outras equipes de paramédicos voluntários atuando em todo o Líbano], tivemos dois mártires. Foram mortos em serviço, dentro de ambulâncias identificadas, ao se deslocarem para socorrer feridos. Muitos outros foram feridos”, contou ao Intercept Abbas Ghandour, coordenador de ambulâncias da Cruz Vermelha Libanesa.
Ghandour recordou, ainda, um atendimento realizado dias antes, após um bombardeio israelense contra edifícios governamentais ter vitimado 13 funcionários do Serviço de Segurança Nacional em Nabatieh. “Todas as pessoas que estavam no prédio atacado morreram”, relatou. No local do ataque, o Intercept encontrou pastas de documentos, mesas e cadeiras de escritório espalhadas entre os destroços. O cenário evidencia que ali não funcionava um posto militar, mas um prédio estatal ocupado por servidores públicos em pleno expediente.
Sob ataques sucessivos, o êxodo do sul do país é incessante desde março. Em Beirute, os deslocados se espalham por abrigos improvisados em escolas e universidades, ou sobrevivem em barracas nas ruas da capital. Em um desses acampamentos, a reportagem conversou com Shuma Aktar, deslocada de Nabatieh.
Natural de Bangladesh, Shuma trabalhava como doméstica sob o regime de kafala – sistema denunciado por organizações internacionais como análogo à escravidão, que nega direitos básicos e proteção social a trabalhadoras imigrantes.
Após os bombardeios em Nabatieh, Shuma fugiu sozinha para Beirute com sua filha, uma bebê que ainda não completou um ano. Seu marido morreu logo após o nascimento da criança. “Não foi apenas um. Foram três ataques, e tivemos que fugir”, contou.
Ela buscou abrigo no Dahieh, um subúrbio ao sul de Beirute conhecido como um dos principais redutos da base social do Hezbollah, e começou a trabalhar como diarista em algumas casas na região. A estabilidade durou pouco: logo os bombardeios atingiram o local. Sem renda e novamente sob ameaças de bombas, Shuma foi para as ruas da capital. Hoje, ela e a filha dormem em uma barraca ao lado de outras imigrantes de Bangladesh, sobrevivendo de doações enquanto aguardam um socorro prometido pela embaixada do país natal.

Limpeza étnica e destruição de moradias
O mar azul de Tiro, a segunda maior cidade do sul do Líbano, contrasta com o cenário de destruição. No centro da cidade histórica, que tem mais de 4.700 anos, um quarteirão inteiro foi demolido por bombardeios israelenses. A uma quadra da praia, seis prédios residenciais viraram entulho em um ataque ocorrido minutos antes do início do cessar-fogo. A ofensiva matou 27 pessoas e feriu outras dezenas. Uma pessoa ainda estava desaparecida nos escombros, segundo relatos de moradores à reportagem.
Antes mesmo de entrar na cidade, a destruição deliberada de infraestrutura civil é evidente: a ponte Qasmiyeh – sobre o rio Litani, vital para conectar o sul com o restante do país – foi sistematicamente bombardeada por Israel e segue danificada.
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Esse padrão de ataques a áreas residenciais e a demolição de vilarejos inteiros têm sido classificados por especialistas das Nações Unidas como “domicídio”: a destruição deliberada de moradia. Em carta divulgada em abril, relatores especiais da ONU afirmaram que a prática reproduz os métodos usados por Israel em Gaza.
“A emissão de ordens de evacuação em massa, combinada com a destruição de habitações urbanas e rurais para as quais os deslocados retornariam, é consistente com o padrão de domicídio iniciado durante o genocídio em Gaza”, diz o documento. Os especialistas ainda dizem que a prática funciona como “arma de guerra e uma forma de punição coletiva, particularmente em áreas xiitas no sul rural do país”, que também indica limpeza étnica, configurando crimes contra a humanidade.
As autoridades locais corroboram a denúncia. No final de abril, o município de Bint Jbeil divulgou uma carta, publicada pela imprensa local, detalhando a destruição e afirmando que Israel comete “ecocídio, urbicídio e domicídio” – a destruição em massa do meio ambiente, de cidades e casas –, atacando deliberadamente estruturas civis fundamentais à vida da população local.
Segundo as autoridades do município, centenas de unidades habitacionais foram demolidas depois do cessar-fogo. Uma investigação da Al-Jazeera com imagens de satélites confirmou, na última semana, a destruição completa da cidade de Bint Jbeil, que fica dentro da zona ocupada pelos israelenses.
“[Israel] segue sua política de destruição urbana em várias aldeias, particularmente na cidade de Bint Jbeil, onde deliberadamente obliterou bairros residenciais inteiros e destruiu infraestrutura e marcos históricos. Isso levou ao apagamento da identidade patrimonial da cidade e à destruição da Grande Mesquita, que data de mais de 400 anos”, lê-se em um trecho do documento, que descreve também a destruição ambiental e cita a queima de terras agrícolas, florestas e bosques com bombas de fósforo branco.
Parte do mesmo processo, o ecocídio praticado por Israel no sul do Líbano tem sido sistematicamente denunciado pelo governo libanês e observadores internacionais desde 2023. O despejo de substâncias tóxicas em áreas verdes, plantações e residências rurais foi documentado por observadores internacionais e causou a destruição de ao menos 5 mil hectares de florestas e áreas cultiváveis.
Em um relatório recém-lançado, o ministério do Meio Ambiente do Líbano compilou dados sobre a destruição ambiental decorrente da invasão de Israel ao Líbano em 2024 – sem considerar, portanto, os novos dados agora aprofundados.
Segundo Tamara el Zein, ministra do Meio Ambiente, “a agressão de 2024 deixou um legado que vai além da destruição visível de infraestruturas e casas; ela marcou profundamente o nosso meio ambiente. A escala e a intencionalidade dos danos causados às florestas, terras agrícolas, ecossistemas marinhos, recursos hídricos e qualidade atmosférica constituem o que deve ser reconhecido como um ato de ecocídio, com consequências que se estendem muito além da destruição imediata”, afirmou na apresentação do documento.
Entre crimes de guerra que se multiplicam e o silêncio de governos cúmplices do genocídio – respaldados por grande parte da imprensa ocidental, que cria as condições para a reprodução sistemática das violações e assassinatos de Israell no Líbano –, o povo libanês tenta resistir.
Em um dos locais bombardeados por Israel em Tiro, uma cena ilustra a dura realidade libanesa. Há um prédio dividido ao meio: com uma parte reduzida a escombros e a outra ainda de pé. O ataque ocorreu em março, ainda durante o Ramadã, o mês sagrado dos muçulmanos. Segundo relatos da vizinhança à reportagem, o bombardeio aconteceu bem na hora do iftar – a quebra do jejum –, momento em que as famílias se reúnem para a primeira refeição do dia. Uma pessoa morreu.
Da janela da parte remanescente do edifício, uma senhora acenou à equipe do Intercept. Continua vivendo ali com sua família, tentando encontrar dignidade em meio às bombas que não param de cair.
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