Irã nunca esteve tão isolado, mas queda do regime ainda é improvável

Após sucessivas derrotas geopolíticas e militares dentro do Oriente Médio, a República Islâmica do Irã vive seu pior momento desde a guerra contra o Iraque nos anos 1980; entretanto, a força da Guarda Revolucionária ainda dá sobrevida ao regime anacrônico dos aiatolás
Poucos são os países do mundo com uma história, cultura e composição étnica tão fascinantes quanto o Irã. Sua posição singular entre Oriente e Ocidente, com desertos, mares e montanhas transformaram a civilização persa e seus arredores em um dos berços das mais grandiosas invenções. Até mesmo dentro do mundo muçulmano, o xiismo seguido por mais de 90% dos iranianos, também se torna elemento de particularidades únicas, colocando-os também em evidência em relação aos seus vizinhos.
Após um golpe de estado orquestrado pela CIA e o MI6 para remover o premiê nacionalista Mohammad Mosaddegh em 1953 e quase 15 anos de uma monarquia impopular, os clérigos xiitas impulsionados pelo conservadorismo dormente na sociedade, fizeram uma revolução e fundaram uma teocracia em 1979. O grande segredo para a manutenção do poder nas mãos dos aiatolás foi criar uma força militar adjacente ao exército para proteger os princípios da revolução de agentes externos e da própria população se necessário.
A Guarda Revolucionária Islâmica, conhecida em farsi como Sepah, possui enorme poder político e econômico, controlando empresas, infraestrutura crítica, canais de mídia e com influência direta no governo. São eles também os responsáveis pelo financiamento e treinamento de grupos terroristas pelo mundo como o Hezbollah no Líbano, o Hamas em Gaza e os Houthis no Iêmen. A sua presença nas ruas durante períodos de protestos é garantia de repressão e violência desmedida para utilizar as mortes de civis como exemplo futuro a possíveis manifestações. A lealdade irrestrita da Guarda Revolucionária dedicada ao líder supremo, Ali Khamenei, é um dos pilares fundamentais que mantiveram a República Islâmica em pé apesar dos terremotos externos e internos ao longo dos últimos 47 anos. A forma como foram idealizados e doutrinados como corpo militar ao longo de quase cinco décadas é o fator que melhor explica a manutenção de um sistema de governo anacrônico até os dias atuais.
A conjuntura internacional, sobretudo no Oriente Médio, é extremamente multifacetada. A antiga ordem regional que separava claramente dois blocos antagônicos não é mais tão equilibrada. Apenas nos últimos 3 anos, as perdas de aliados de primeiro escalão causaram ainda mais tremores no centro do poder em Teerã. A família Assad, que governou a Síria por mais de 50 anos, foi deposta; Bashar vive exilado na Rússia e um antigo jihadista aliado aos Estados Unidos comanda Damasco. O grupo paramilitar mais poderoso do Levante, o Hezbollah libanês, viu sua liderança ser decapitada em poucos meses após um enfrentamento direto com Israel. O grupo terrorista Hamas, que governou a Faixa de Gaza sob rígida aplicação da Sharia por mais de 16 anos, está em vias de entregar o poder para uma entidade tecnocrata palestina. Os Houthis iemenitas, por mais que continuem militarmente ativos, sofrem perdas diárias em combates com facções ligadas aos emiradenses e aos sauditas. Por fim, o maior aliado não islâmico, a Rússia, mergulhada em seus próprios problemas militares e geopolíticos não tem cacife suficiente para dar qualquer garantia aos clérigos xiitas. Resumidamente, o cenário é o mais desfavorável para a República Islâmica desde a sua fundação em 1979.
As capacidades militares iranianas não são negligenciáveis, mas certamente também não são intransponíveis, visto a operação militar israelo-americana no Irã em 2025. Muitos analistas apontam para um cenário de degradação gradual com solavancos cada vez mais fortes até que a erosão ocorra de forma completa. Todavia, a resiliência da Guarda Revolucionária e a ideologia que os motiva para agir sem misericórdia contra a própria população, se mostram elementos ainda muito vívidos para cravar categoricamente o falecimento de um regime tirânico. O povo iraniano cada vez mais empobrecido pelas crises econômicas e desprovidos de recursos bélicos para responder ao monopólio da força pelo estado, acaba por se sentir vencido mais uma vez. É extremamente difícil projetar um desfecho em um cenário tão nebuloso, mas o caminho para uma quebra de paradigma está traçado. Ainda faltam algumas mudanças no tabuleiro antes do fim.
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