Na Minas colonial, a mulher que venceu a escravidão, mas não a Igreja
Há 17 anos mergulhado em estudos e atento aos documentos para traçar os passos de Luzia Pinta, o historiador mineiro Douglas Lima defendeu sua dissertação de mestrado, em 2014, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e, quatro anos depois, lançou o livro “Libertos, patronos e tabeliães: a escrita da escravidão e da liberdade em alforrias notariais”, que inclui a personagem pela qual nutre grande admiração. Passadas quase duas décadas do seu interesse inicial, ele já tem material suficiente, com descobertas e fontes inéditas, para lançar nova obra sobre a africana.
“Fui o primeiro pesquisador a localizar registros documentais de Luzia Pinta no Brasil, hoje preservados na Casa Borba Gato, em Sabará, e no Arquivo Público Mineiro, em Belo Horizonte. Embora também tenha estudado o processo inquisitorial e ele tenha sido importante para minhas conclusões, meu interesse maior é conhecer Luzia Pinta para além do ‘calundu’”, conta Douglas. Na tarde de uma segunda-feira, no arquivo histórico do Museu do Ouro (Casa Borba Gato), no Centro de Sabará, ele mostrou a carta de alforria que descobriu em 2012. “O arquivo guarda mais de 2 mil cartas de alforria do século 18. No auge da exploração do ouro, era muito comum que mulheres conseguissem a alforria”.
A palavra “calundu” é a senha para se contar parte importante da história de Luzia Pinta, que chegou a Sabará entre as décadas de 1700 e 1710, no início da exploração aurífera, vinda de Salvador (BA), onde foi vendida. Durante alguns anos, acumulou recursos até conseguir pagar, em 1718, um alto valor (300 oitavas de ouro, correspondente hoje a 1,076 kg) por sua alforria. Depois disso, viveu décadas na região de Sabará. “Como forra, ela se tornou senhora de alguns escravos e dona de um sítio próximo à Igreja Nossa Senhora da Soledade. Foi nesse local que realizou, por anos a fio, o ritual chamado ‘calundu’, ao que tudo indica um termo derivado de ‘quilundo’. Luzia recriou e possivelmente reformulou rituais que havia aprendido em Angola”, explica Douglas. A atuação dela como “calunduzeira” era conhecida da comunidade e suas habilidades envolviam também adivinhação e curas de doenças.
FRUTOS DE PESQUISA
A história de Luzia Pinta é longa, atribulada, e os estudos existentes sobre ela geram frutos que servem de base a novos livros, causam encantamento à juventude e até “caem no samba”. O sabarense Argemiro Ramos pesquisou durante três anos até concluir “Luzia Pinta – A mulher que enfrentou a Inquisição no Brasil” (Editora Caravana), que teve lançamento em Buenos Aires, Argentina. Com ele como guia, a equipe de reportagem do Estado de Minas visitou localidades em que a personagem histórica viveu em Sabará, especialmente o alto do Morro da Soledade. Satisfeito com o resultado, Argemiro adiantou que uma escola de samba do Rio de Janeiro terá Luzia Pinta no seu samba-enredo de 2027.
As artes também se agitam em Sabará com a inauguração de um espaço dedicado à memória da africana, no Centro Cultural Casa Amarela (Rua Dom Pedro II, nº 132), na área central da tricentenária cidade da Grande BH. Com um restaurante, o estabelecimento inaugurou a Galeria Luzia Pinta, para exposições, encontros e apresentação de coletivos.
Como não há registros sobre a aparência de Luzia Pinta, artistas expõem quadros com a idealização da negra nativa de Luanda. Certos de que jogar luz sobre a existência de Luzia significa uma reparação histórica, os responsáveis pelo espaço vão fazer uma campanha para inauguração de uma estátua na cidade, para homenagear a personagem que viveu na antiga vila.
CAMINHOS TRILHADOS EM TRÊS CONTINENTES
Sabará guarda preciosidades barrocas e tem entre seus tesouros a Matriz Nossa Senhora da Conceição, considerada uma das mais antigas de Minas. Na década de 1720, Luzia Pinta viveu nas proximidades do templo, e é possível que tenha frequentado a igreja. Outra possibilidade é que tenha sobrevivido como “escrava de ganho”, o escravizado urbano que exercia um trabalho, repassando parte dos ganhos a seus donos e guardando para si o excedente.
“Escravas de ganho desempenhavam sua função geralmente vendendo alimentos, bebidas, frutas e pequenos animais nas ruas da vila”, diz Argemiro Ramos. Para ele, essa africana que passou por três continentes – África, América e Europa – representa, hoje, não só a valorização da ancestralidade como também um símbolo contra o racismo. “Não há registro de que tenha tido filhos ou deixado descendentes”, observa Argemiro, que conheceu a personagem, pela qual se encantou, a partir da dissertação de mestrado (2014) do mineiro Douglas Lima, e da publicação “Luzia da Soledade – Vítima da Inquisição em Sabará”, de Eduardo de Paula (2012).
Diante da matriz, bate a curiosidade de saber o porquê de Luzia frequentar uma igreja. Em suas pesquisas, Douglas Lima registrou que Luzia foi batizada católica ainda na infância. “Ela conhecia todo o credo cristão”, atesta. Mas isso não significou rompimento com a religiosidade que seu povo professava, paralelamente ao cristianismo. Assim, participou ou recebeu informações de rituais que envolviam possessões por espíritos chamados “quilundos”. “Ela não teve muito tempo para viver plenamente essa experiência e refinar seu conhecimento, pois foi vendida na juventude e desterrada para Salvador, provavelmente no início do século 18”, acrescenta Douglas.
SOLEDADE
Depois do Centro de Sabará, e tendo Argemiro como guia, a equipe do EM vai até um mirante, o alto do Morro da Soledade, de onde é possível avistar Belo Horizonte, com a muralha de prédios, além de outros municípios da região metropolitana, a cadeia de montanhas e muitas áreas verdes. Até o topo, saindo do Centro da tricentenária cidade, são seis quilômetros divididos em trechos de asfalto, calçamento e terra.
No caminho, que vale cada metro percorrido, a menção a Luzia Pinta é permanente. “Fiquei fascinado pela trajetória dela e resolvi pesquisar mais. Meu livro reúne fatos históricos e ficção. Os processos da Inquisição não registram o fim de vida. Aí, resolvi criar um desfecho, com a volta dela para a África”, conta Argemiro, portador da notícia que a escola de samba Em cima da hora, do Rio de Janeiro, escolheu como enredo para o próximo carnaval “Luzia Pinta – Da calunga grande aos calundus de cura”.
Em seguida, Argemiro lê um trecho do seu livro, na parte “imaginada” de retorno de Luzia ao torrão natal: “Ao pisar na terra africana, Luzia sentiu uma conexão profunda com suas raízes. A sensação de pertencimento era palpável, como se a terra a acolhesse de braços abertos. ‘Aqui estou. Kieza, a filha da terra, e nada poderá apagar isso. Luzia Pinta morreu na travessia do mar' – refletia, ao observar o horizonte, onde o céu se encontrava com o mar em um espetáculo de cores”.
Ao chegar ao topo da montanha e subir os degraus que levam à Igreja Nossa Senhora da Soledade, o sabarense chama a atenção para a mata localizada à esquerda de quem olha para o templo do século 18. Pulando das páginas do livro para a paisagem, ele aponta a vastidão, coberta de árvores, onde teria existido o sítio de Luzia Pinta. No local, ela realizou durante mais de duas décadas o “calundu”, ritual mesclando “religiosidade e cura”, destaca.
Conhecida na região como “calunduzeira” e com muita gente presente aos rituais, incluindo pessoas da elite, ela chegou a atender inclusive o ouvidor da Comarca do Rio das Velhas, Baltazar de Moraes Sarmento, um dos homens mais poderosos da Capitania de Minas, conforme consta da pesquisa do professor Douglas Lima.
A QUEDA
Mas, devido a suas atividades, Luzia foi denunciada à Igreja, ainda em 1727, mas sem maiores consequências. “Embora sua religiosidade atentasse contra o catolicismo hegemônico, por muitos anos ela viveu em relativa segurança. Penso que isso mudou devido a um forte abalo sofrido em sua rede de proteção, formada por indivíduos poderosos. Não por acaso, sua queda em desgraça ocorreu pouco depois que o tal ouvidor retornou a Portugal. Assim, a partir de 1741, ela foi presa e enviada para Lisboa”, ressalta Douglas Lima.
Em Lisboa, a africana foi processada, torturada e condenada pela Inquisição. Perdeu seus bens, foi proibida de retornar a Sabará. Cumpriu a pena de degredo em um local chamado Castro Marim, no Sul de Portugal. “Não se sabe quando morreu, mas há indícios documentais de que, mesmo depois de tudo o que passou, Luzia Pinta continuou a exercer o calundu, de forma mais sigilosa, em Portugal”, diz Douglas.
A história de Luzia Pinta é muito importante por uma série de motivos, diz o doutor em história. “Ela nos possibilita acessar parte do contexto histórico daquele período, com suas hierarquias e seus preconceitos, mas também com formas de adaptação e de mudança da realidade desenvolvidas por indivíduos que viveram a escravidão. A partir da trajetória de Luzia, temos uma visão da complexa constituição das religiosidades de matriz africana no Brasil, incluindo suas relações ao mesmo tempo conflituosas e conciliadoras com o catolicismo. Essa reflexão, sem dúvida, reforça a importância de defender a pluralidade religiosa nos dias atuais.”
LINHA DO TEMPO
África
Fim do século 17
Luzia Pinta nasce na região de Luanda, na África
Início do século 18
É vendida e enviada possivelmente para Salvador, na Bahia
Décadas de 1700 a 1710
Vendida e enviada para Minas Gerais
Brasil
1718
Luzia Pinta alcança sua alforria em Sabará, em Minas Gerais
1721
Registro da carta de alforria de Luzia Pinta em um cartório de Sabará
1721
Fixa residência no Largo da Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição, em Sabará
1727
Primeira denúncia contra as atividades religiosas de Luzia Pinta
1738
Segunda denúncia contra as atividades religiosas de Luzia Pinta
1739
Terceira denúncia contra as atividades religiosas de Luzia Pinta
1741
Início do processo inquisitorial
Portugal
1742
Luzia Pinta é presa e enviada para Lisboa
1744
Condenação ao Auto de Fé em Lisboa e ao degredo em
Castro Marim, em Portugal
1744-1748
Nova denúncia contra Luzia Pinta, em Castro Marim, entretanto sem informações sobre desdobramentos.
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