Remédio pode adiar diabetes tipo 1 em crianças em até 2 anos

Mar 14, 2026 - 06:00
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Remédio pode adiar diabetes tipo 1 em crianças em até 2 anos

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A aprovação, pela Anvisa, de uma nova medicação para uso na fase pré-clínica do diabetes tipo 1 deve abrir uma nova etapa no atendimento a crianças com risco de desenvolver a doença no Brasil. Segundo a endocrinologista Iluska Medeiros, o medicamento poderá retardar, em média, por dois anos o surgimento do quadro clínico, mas só é indicado antes dos sintomas e exigirá a criação de critérios de triagem para localizar pacientes elegíveis.

“O que a gente teve essa semana foi a aprovação da Anvisa. Então, a partir de agora, essa droga vai poder ser comercializada”, afirmou a médica em entrevista à Jovem Pan News Natal, na sexta-feira 13. Ela explicou que a medicação ainda não está disponível para venda. “É uma medicação de alto custo. Ainda tem que ter a precificação, tem toda uma série de protocolos para ela poder começar a ser comercializada. Mas a Anvisa já deu o aval.”

De acordo com Iluska Medeiros, o remédio só pode ser usado na chamada fase 2 do diabetes tipo 1, quando a criança já apresenta autoanticorpos contra o pâncreas e alterações discretas da glicemia, mas ainda não tem sintomas. “Essa droga, ela só pode ser utilizada na fase pré-clínica”, disse. “A gente só entra com a medicação na fase 2, que é quando eu tenho o autoanticorpo e eu começo a ter disglicemias”.

endocrinologista explicou que o diabetes tipo 1 é uma doença autoimune e não é provocado pela alimentação. “O diabetes tipo 1 é uma doença autoimune. A criança nasce com a predisposição genética e, associada a algum fator ambiental, seja uma infecção viral, alguma exposição, esse sistema imunológico, ele fica maluco. E ele começa a produzir anticorpos que vão destruir as células beta-pancreáticas, que são as células que produzem insulina”.

Segundo ela, os sintomas costumam aparecer quando cerca de 80% dessas células já foram destruídas. Entre os sinais de alerta, estão aumento da sede, aumento do volume urinário e perda de peso. “Começa a beber muita água, a fazer muito xixi, a perder peso, mesmo comendo muito. E aí a gente começa a ter a clínica do diabetes”.

Iluska Medeiros relatou que muitos casos ainda demoram a ser reconhecidos. “A gente percebe o quanto esses pacientes demoram para serem diagnosticados. Tratam como parasitose, tratam como infecção intestinal. Eles pensam em qualquer outra coisa, mas não pensam em diabetes.” Para ela, a divulgação dos sintomas é necessária para reduzir a chegada de crianças aos serviços de saúde já em quadros graves, como a cetoacidose.

A médica afirmou que o diabetes tipo 1 pode surgir em várias fases da vida, inclusive em bebês. “A gente tem o que a gente chama de diabetes neonatal, que pode aparecer antes do sexto mês. E, após o sexto mês, a gente aumenta a frequência do diabetes tipo 1. A gente tem um pico de incidência por volta dos 5 anos. Depois, a gente aumenta na adolescência. Mas pode aparecer em qualquer fase da vida”.

Ela também disse que o controle em crianças pequenas exige maior cuidado. “As doses são muito baixas. Elas são muito sensíveis à insulina”. O diagnóstico, segundo a endocrinologista, é feito por exame de sangue, com os mesmos critérios usados em adultos, incluindo glicemia de jejum, teste oral de tolerância à glicose e hemoglobina glicada.

Para que a medicação seja usada, será necessário encontrar crianças ainda sem sintomas, mas com risco maior de desenvolver a doença. Segundo Iluska Medeiros, a triagem inicial deverá priorizar parentes de primeiro grau de pacientes com diabetes tipo 1, especialmente irmãos, e crianças acima de 8 anos.

“Hoje a gente vai ter que organizar nosso sistema para fazer screening”, afirmou. “Provavelmente, eu acho que a gente vai começar rastreando essa população de risco”. Ela lembrou que o estudo piloto usado para liberar a medicação foi feito com parentes de primeiro grau de pessoas com diabetes tipo 1.

A endocrinologista informou que a aplicação não começa apenas com a presença dos anticorpos. “Se tiver dois autoanticorpos, a gente vai acompanhar a glicemia de perto. Quando ele começar a ter alterações discretas, é a hora de iniciar a medicação.” Segundo ela, ter autoanticorpos positivos não significa, por si só, que a criança necessariamente desenvolverá a doença. “Eu posso ter o autoanticorpo e nunca desenvolver o diabetes”.

Ela também afirmou que a triagem ainda enfrenta barreiras no sistema público. “Os anticorpos a gente não tem acesso facilmente no SUS. Geralmente, quando a gente pede, as famílias pagam e não é barato”. Por isso, ela defendeu a definição de público-alvo para evitar gasto elevado e ampliar a efetividade da política de saúde.

Obesidade infantil amplia risco de diabetes tipo 2

Segundo Iluska Medeiros, o medicamento, chamado teplizumabe, é um anticorpo monoclonal anti-CD3 que atua na resposta inflamatória ligada ao processo autoimune. “Ele vai atuar na resposta inflamatória e retardar essa resposta inflamatória”. Ela explicou que o remédio não interrompe totalmente a autoimunidade, mas posterga a evolução do diabetes tipo 1.

“É tanto que a gente atrasa, em média, nos pacientes que usaram, dois anos o diagnóstico. Então são dois anos sem insulina, sem sensor, sem hipoglicemia, sem hiperglicemia”, disse. A médica acrescentou que há casos em que o adiamento foi maior. “Teve algumas crianças que retardaram em cinco, seis anos”.

A aplicação, segundo ela, é endovenosa e feita em regime hospitalar. “É uma aplicação única, mas é um ciclo de quatorze dias”. Entre os efeitos observados na literatura, citou queda discreta de leucócitos, rash cutâneo e sintomas semelhantes aos de gripe.

Para a endocrinologista, o adiamento pode ter impacto direto na rotina das famílias. “A gente sabe, inclusive, que diminui a frequência de cetoacidose, que é uma complicação grave. Vai reduzir internação em UTI, hospitalização, hipoglicemias”. Ela acrescentou que o intervalo também pode coincidir com novas mudanças no tratamento da doença. “O que a gente oferece hoje pro paciente com diabetes tipo 1 vai ser totalmente diferente daqui a dez anos”.

Iluska Medeiros afirmou que o diabetes tipo 1 não é raro no Brasil. “A gente tem em média 600 mil pacientes com DM1 no Brasil. Então realmente é uma população extensa, não é uma doença rara”. Por isso, ela defendeu maior preparo também nas portas de entrada da rede de saúde, como pronto-socorro e atenção básica.

“É muito importante a gente difundir essa informação para que esses pacientes tenham acesso mais para o especialista”, disse.

Ao comentar as diferenças entre os tipos 1 e 2, a endocrinologista afirmou que a manifestação na infância costuma exigir mais vigilância porque, no tipo 1, o organismo deixa de produzir insulina. “A tipo 1 a gente não consegue reverter, porque o tipo 1 é a destruição das células beta-pancreáticas, então aquele pâncreas não vai mais produzir insulina”.

A médica também chamou atenção para o aumento da obesidade entre crianças e adolescentes e para a relação com o crescimento do diabetes tipo 2 nessa faixa etária. “Hoje em dia a gente tem uma epidemia de obesidade, muito disso é resultado dos nossos hábitos”.

Segundo ela, o excesso de peso já tem levado especialistas a encontrar casos em que há dúvida entre diabetes tipo 1 e tipo 2. “Hoje em dia eles falam até diabetes 1,5. Que aí você tem o diabetes tipo 1, mas tem a obesidade, a resistência insulínica”.

A endocrinologista defendeu medidas de educação alimentar dentro e fora de casa e lembrou que a Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda adiar a exposição ao açúcar até depois dos 2 anos. “Ninguém precisa do açúcar em si, o açúcar não vai fazer bem”.

Ela também citou dados sobre a permanência da obesidade ao longo da vida. “Se a criança ficar com obesidade na adolescência, ela tem uma chance de 80% de ser um adulto obeso”.

Iluska Medeiros informou que o Hospital Infantil Varela Santiago mantém um núcleo multidisciplinar voltado ao tratamento da obesidade infantil, com atendimento para crianças de 4 a 10 anos. Segundo ela, a equipe reúne nutricionista, psicóloga, endocrinologista e parceria com a Educação Física da UFRN.

“É aberto à população. Se alguma família está precisando de auxílio, quer uma orientação, não tem nenhuma burocracia. É só procurar o hospital”, afirmou.

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