Repressão a protestos no Irã supera 2.500 mortos, segundo HRANA; Trump fala em “ajuda a caminho”, China rejeita uso da força e Merz prevê fim próximo do regime

Jan 14, 2026 - 09:00
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Repressão a protestos no Irã supera 2.500 mortos, segundo HRANA; Trump fala em “ajuda a caminho”, China rejeita uso da força e Merz prevê fim próximo do regime

A repressão aos protestos no Irã já deixou 2.571 mortos, segundo balanço divulgado nesta quarta-feira (14/01/2026) pela organização de direitos humanos HRANA, sediada nos Estados Unidos. De acordo com a entidade, o total inclui 2.403 manifestantes, 147 pessoas ligadas ao governo, além de 12 crianças e nove civis que não participavam das mobilizações. Em paralelo, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, estimulou a continuidade dos atos e afirmou que “a ajuda está a caminho”, sem detalhar quais medidas estariam em avaliação.

O governo iraniano, que não publicou um número oficial consolidado de mortos, sustenta que há interferência estrangeira e atribui parte da violência a grupos que classifica como “terroristas”. Autoridades iranianas também acusaram Washington de buscar um pretexto para intervenção militar, enquanto diplomatas e fontes regionais passaram a relatar medidas preventivas relacionadas a bases americanas no Golfo, em meio a alertas de Teerã sobre possível retaliação.

A crise ganhou novos contornos com reações internacionais simultâneas. A China, por meio da porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Mao Ning, declarou que Pequim se opõe firmemente ao uso da força ou à ameaça de seu emprego nas relações internacionais e rejeita “interferência em assuntos internos” sob qualquer pretexto, em resposta a advertências de Trump sobre ação militar. Na Europa, o chanceler alemão Friedrich Merz afirmou esperar uma mudança iminente na liderança iraniana, descrevendo o momento como possivelmente “os últimos dias e semanas” do regime, e relatou articulações diplomáticas entre países ocidentais para uma transição pacífica.

O balanço de mortos e a disputa de versões

A divergência entre números divulgados por organizações de direitos humanos e estimativas citadas por fontes oficiais é um elemento central da crise. Enquanto a HRANA aponta mais de 2,5 mil mortos, autoridades e veículos estatais citam números diferentes e insistem na tese de que a violência é alimentada por sabotagem externa. A ausência de um dado oficial verificável e a dificuldade de checagem independente ampliam a incerteza sobre a dimensão real das vítimas.

Também circulam estimativas muito superiores às já publicadas, com referências a investigações de centros de documentação de direitos humanos que sugerem um total potencialmente na casa de milhares a dezenas de milhares. Esse tipo de projeção, no entanto, enfrenta um obstáculo recorrente: a confirmação em campo fica limitada por censura, restrições de comunicação e ausência de acesso livre a informações hospitalares e registros civis.

O perfil do movimento, segundo relatos de jornalistas e observadores, aponta uma evolução em relação a ondas anteriores. Protestos que, no passado recente, tiveram gatilhos como custo de vida, combustível e episódios específicos de repressão moral-religiosa, agora apresentam maior radicalização política, com slogans diretamente voltados contra o regime e menções ao retorno da monarquia e à dinastia Pahlavi. Há ainda registro de participação expressiva de pequenas localidades, inclusive regiões pobres e pouco expostas internacionalmente.

Apagão informacional e bloqueio de internet

O ambiente interno segue marcado por apagão quase total de internet e forte controle sobre circulação de informações. Esse fator, além de prejudicar a verificação de números, afeta a organização dos protestos, a capacidade de comunicação entre cidades e o acompanhamento de prisões e julgamentos.

Relatos apontam que, mesmo com bloqueios, evidências e registros continuam emergindo por vias alternativas, incluindo redes privadas, mensagens em aplicativos e vídeos publicados com atraso. Nesse tipo de cenário, o fluxo de informação costuma se tornar desigual: áreas centrais e grandes cidades aparecem mais, enquanto localidades menores podem ficar subrepresentadas.

A combinação entre repressão, bloqueios e denúncias de violência de Estado tende a produzir um efeito duplo: de um lado, sufoca mobilizações; de outro, aumenta a indignação e intensifica a pressão externa, especialmente quando imagens e relatos conseguem romper o cerco informacional.

Prisões em massa, julgamentos “rápidos” e temor de execuções

A escalada institucional mais sensível, segundo organizações de direitos humanos, é o avanço rumo a julgamentos sumários e possível ampliação de pena de morte contra detidos. O chefe do Judiciário iraniano, Gholamhossein Mohseni Ejei, declarou que suspeitos presos nos protestos — descritos por autoridades como “tumultos” — devem enfrentar processos “rápidos” e “públicos”.

O tema das execuções entrou no centro da crise após declarações de Trump, que prometeu agir “com muita firmeza” caso manifestantes sejam executados. O caso citado com mais frequência é o de Erfan Soltani, de 26 anos, apontado por organizações de direitos humanos como alguém sob risco de execução iminente, em meio a um quadro mais amplo de prisões em larga escala.

Além do aspecto jurídico interno, a ameaça de execuções tem uma função política clara: elevar o custo pessoal da participação nos protestos e quebrar a continuidade do movimento. Ao mesmo tempo, esse tipo de medida tende a ampliar a pressão diplomática e a consolidar críticas internacionais sobre violações de direitos fundamentais.

Trump eleva a pressão e sinaliza opções; Teerã reage com alerta regional

A estratégia de Trump tem se apoiado em mensagens públicas de alto impacto e ambiguidade operacional. Ao dizer que “a ajuda está a caminho” sem especificar o conteúdo, Washington cria incerteza sobre se está falando de pressão política, medidas tecnológicas, sanções, apoio logístico indireto ou ação militar.

Em paralelo, Trump anunciou tarifa de 25% sobre produtos de qualquer país que faça negócios com o Irã, buscando aumentar o isolamento econômico por meio de custo indireto a parceiros comerciais. A medida afeta especialmente o entorno asiático e regional, e ganha relevância porque o Irã exporta parcela expressiva de petróleo para a China, além de manter comércio com Turquia, Iraque, Emirados Árabes Unidos e Índia.

Teerã, por sua vez, acusou os EUA de buscar um “pretexto” para intervenção e alertou vizinhos sobre possível retaliação a bases americanas. O recado produz tensão imediata em países que abrigam estruturas militares dos EUA e têm interesse prioritário em evitar a escalada, por risco direto à segurança e ao fluxo energético.

Base de Al Udeid e sinais de “mudança de postura”

No Golfo, diplomatas relataram que parte do pessoal ligado à Base Aérea de Al Udeid, no Catar, foi aconselhada a sair do local em caráter preventivo, descrevendo a medida como mudança de postura, e não evacuação ordenada. Al Udeid é uma das estruturas militares mais relevantes dos EUA na região e já esteve no radar em episódios recentes de retaliação.

A leitura regional é pragmática: mesmo sem decisão formal anunciada, o simples aumento do risco de conflito costuma disparar movimentos preventivos para reduzir vulnerabilidades. Esse tipo de ajuste, porém, também pode ser interpretado por Teerã como preparação para ação, elevando o risco de mal-entendidos.

China rejeita uso da força e pede “esforços concretos” pela paz regional

A entrada da China no debate público reforça o caráter multipolar da crise. A porta-voz Mao Ning afirmou que Pequim não apoia o uso da força nem a ameaça de empregá-la, rejeita interferência em assuntos internos e declarou confiança na capacidade do governo e do povo iraniano de preservar a estabilidade. Também pediu que “todas as partes” contribuam com esforços concretos em favor da paz no Oriente Médio.

O posicionamento chinês responde a um interesse estrutural: estabilidade regional e previsibilidade de energia, além de proteção de rotas comerciais. Em um momento em que Washington eleva pressão comercial e política, Pequim procura sinalizar contenção e, ao mesmo tempo, defender o princípio de não intervenção como eixo de sua diplomacia.

Merz prevê fim próximo do regime e descreve coordenação ocidental

Na Europa, as declarações de Friedrich Merz adicionaram pressão política ao regime iraniano. O chanceler afirmou que, se um governo depende da violência para sobreviver, estaria “na prática, acabado”, e disse acreditar que o mundo pode estar vendo “os últimos dias e semanas” da liderança islâmica.

Merz também afirmou que ministros das Relações Exteriores de Alemanha, Estados Unidos, Reino Unido e França mantêm contato estreito para garantir uma possível transição pacífica para um governo democraticamente legitimado. Teerã reagiu com críticas, e o chanceler foi acusado de interferência e de adotar padrões duplos, especialmente no contexto de conflitos recentes no Oriente Médio.

Por que o Irã é central para a política internacional

A crise interna do Irã tem peso global por três razões principais. A primeira é geográfica: o país está próximo do Estreito de Ormuz, uma das rotas mais estratégicas para o transporte de energia. A segunda é material: o Irã possui grandes reservas de petróleo e gás, o que o torna peça-chave em qualquer rearranjo de oferta, preços e alianças energéticas.

A terceira é estratégica: o Irã é ator relevante no tabuleiro regional e mantém relações próximas com Rússia e China, além de influenciar redes e grupos alinhados ao que se convencionou chamar de “Eixo da Resistência”. A pressão combinada de sanções, degradação econômica, tensões militares e protestos internos cria um cenário em que qualquer movimento brusco pode repercutir em mercados, diplomacia e segurança regional.

O risco da ambiguidade e a armadilha da “ajuda” indefinida

O que torna esta crise particularmente perigosa é a mistura de repressão interna, bloqueio informacional e mensagens externas ambíguas. Quando um presidente dos EUA afirma que “a ajuda está a caminho” sem indicar forma, limite e objetivo, abre-se espaço para expectativa nas ruas e paranoia no Estado. Expectativa frustrada pode desmobilizar; paranoia pode radicalizar a repressão. Em ambos os casos, o custo humano tende a subir.

A entrada de China e Alemanha, cada qual por motivo distinto, evidencia que o Irã não é um assunto “local”. Pequim defende a não intervenção e tenta conter a escalada; Berlim pressiona politicamente e sinaliza articulação ocidental. O resultado provável é uma disputa narrativa internacional, em que cada potência busca moldar o desfecho sem assumir plenamente os riscos de uma intervenção direta.

Há, por fim, uma tensão estrutural raramente explicitada: regimes autoritários podem sobreviver por muito tempo sem estabilidade real. A elite de segurança pode permanecer coesa mesmo com protestos massivos, mas isso não resolve a erosão de legitimidade, o colapso econômico e a fragmentação social. O cenário mais preocupante não é apenas “queda” ou “sobrevivência” do regime; é a possibilidade de um prolongado período de violência com alto número de presos, julgamentos sumários e execução como ferramenta política.

*Com informações das Agências Reuters, RFI, DW e Sputnik.

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