Onde os Vivos Sonham os Mortos: O Universo Ameríndio de Jorge Galeano
Há, na pintura de Jorge Galeano, uma recusa silenciosa, porém radical, do mundo tal como o entendemos. Não se trata apenas de um afastamento da representação realista, algo já banal na tradição moderna; trata-se, antes, da dissolução de uma confiança ontológica: a ideia de que o visível corresponde ao real. Nas telas de Galeano, o visível é sempre suspeito. Ou melhor: é sempre já sonho.Essa dimensão onírica não se manifesta como fuga, mas como regime de existência. As figuras que povoam suas composições, humanas, vegetais, híbridas, não parecem sonhar: parecem ser sonhadas. Habitantes de uma realidade em que a identidade é fluida, em que os contornos não fixam, mas tremulam. Nesse sentido, a pintura de Galeano aproxima-se de uma tradição antiga, anterior à própria ideia de subjetividade moderna: a do sonho como linguagem dos deuses.Na Ilíada, Zeus envia a Agamêmnon um sonho enganador, não como ilusão banal, mas como instrumento de intervenção no curso da história. O sonho, ali, não é o oposto do real; é uma de suas formas de manifestação. Já em Eneida, Eneias retorna do mundo dos mortos pela enigmática porta de marfim, a porta eburnea, reservada aos sonhos falsos. A cena, como se sabe, desconcerta: por que fazer passar por uma via de ilusão aquele que acaba de receber a revelação mais alta? A resposta talvez resida menos na teologia do que na ontologia: porque o mundo dos vivos, ele próprio, já participa da ordem do sonho.É precisamente nesse ponto que a pintura de Galeano se torna intelectualmente provocadora. Suas imagens não representam um mundo onírico como exceção, elas instauram o onírico como regra. Não há, em suas telas, um “despertar” possível. Tudo vibra numa mesma frequência ambígua, onde memória, percepção e imaginação se confundem.À primeira vista, poder-se-ia aproximar esse universo da tradição do realismo mágico, evocando o nome de Gabriel García Márquez. Mas a analogia, embora sugestiva, é insuficiente. Em García Márquez, o insólito irrompe no cotidiano; em Galeano, não há cotidiano que o contenha. O mundo já nasce transfigurado.Mais fecunda é a aproximação com as cosmologias ameríndias. Não como citação erudita, mas como estrutura sensível. A centralidade das formas vegetais, a equivalência entre humano e não humano, a ausência de hierarquias fixas entre os seres tudo isso aponta para uma visão de mundo em que a natureza não é cenário, mas sujeito. As árvores não enquadram a cena: participam dela como entidades. As figuras humanas não se afirmam como indivíduos, mas como presenças arquetípicas, quase totêmicas.É nesse horizonte que surge a tentação interpretativa de ler Galeano à luz do Xibalba, o mundo subterrâneo dos maias. espaço de provação, travessia e metamorfose. E, de fato, há algo, em suas telas, que sugere um “mundo de baixo”: a saturação cromática, a densidade atmosférica, a sensação de que tudo se passa num interior, não geográfico, mas ontológico.No entanto, a analogia encontra seu limite precisamente onde deveria encontrar sua força. O Xibalba é um reino estruturado pela negatividade: lugar de provas, de perigos, de confrontos com forças hostis. Em Galeano, ao contrário, não há violência estruturante, nem julgamento, nem hierarquia entre vivos e mortos. O que há é coexistência.Talvez seja mais exato dizer que suas pinturas não representam o submundo, mas a perda da superfície. Não descemos: deixamos de saber onde está o “acima”. O mundo torna-se permeável, atravessado por fluxos invisíveis, onde os planos, o dos vivos, o dos mortos, o dos sonhos, deixam de ser compartimentos estanques para se tornarem dimensões simultâneas de uma mesma experiência. Nesse sentido, a pintura de Galeano realiza algo raro: não ilustra uma mitologia, mas reinscreve, no campo sensível, uma forma de pensamento mítico. Ela não narra, ele convoca. Não descreve, reencanta.E talvez seja esse o seu gesto mais radical: num tempo em que o real se pretende transparente, Galeano restitui ao mundo a sua opacidade essencial. Como se, ao atravessarmos com Virgílio a porta de marfim, descobríssemos, tarde demais, que nunca mais deixamos de sonhar....
Qual é a sua reação?
Como
0
Não gosto
0
Amor
0
Engraçado
0
Nervoso
0
Triste
0
Uau
0