A exclusão digital invisível

Mai 29, 2026 - 08:00
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A exclusão digital invisível

Progresso ou exclusão? Na era da inteligência artificial, os idosos esquecidos pela transformação digital de hoje podem antecipar os analfabetos digitais de amanhã.

Há uma frase que circula nas redes sociais que merece reflexão profunda: “Uma sociedade que obriga uma pessoa de noventa anos a usar um smartphone para acessar seus próprios direitos não é moderna: é uma sociedade que decidiu se livrar de seus idosos.” A afirmação pode soar exagerada à primeira vista, mas revela uma inquietante realidade que cresce silenciosamente no Brasil: a digitalização acelerada dos serviços essenciais vem produzindo, ao mesmo tempo, inclusão e exclusão.

Nunca se falou tanto sobre inovação, inteligência artificial, aplicativos, automação e transformação digital. Bancos migraram para plataformas online, órgãos públicos digitalizaram atendimentos, consultas médicas passaram a ocorrer por telemedicina, e até relações afetivas e familiares encontraram espaço nas telas dos celulares. A tecnologia tornou-se indispensável. O problema é que, em meio a esse avanço vertiginoso, uma parcela significativa da população vem sendo silenciosamente deixada para trás: justamente os idosos, aqueles que, de forma direta ou indireta, ajudaram a construir a sociedade, as instituições, a economia e as condições que nos trouxeram até aqui.

É preciso reconhecer, desde logo, que a tecnologia trouxe ganhos reais e importantes à população idosa. Não há honestidade intelectual em negar isso. Para aqueles que tiveram acesso a treinamento, suporte familiar ou programas de inclusão digital, os benefícios são evidentes. A internet aproximou avós de netos distantes, reduziu a solidão, ampliou o acesso à informação e proporcionou mais autonomia. Hoje, um idoso pode agendar uma consulta, falar com um médico, acessar sua conta corrente e saldo, pagar boletos, solicitar transporte, realizar pagamentos e até frequentar cursos sem sair de casa.

Pesquisas recentes demonstram essa transformação. Segundo levantamento da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do SPC Brasil, o percentual de idosos conectados à internet saltou de 68%, em 2018, para 97%, em 2021, sendo o smartphone o principal instrumento de acesso. Além disso, estudos apontam que o aprendizado tecnológico estimula funções cognitivas, fortalece a memória, reduz o isolamento social e amplia a independência funcional do envelhecimento.

Mas há outro lado dessa história — e talvez seja o mais preocupante. A narrativa da modernização frequentemente ignora uma pergunta essencial: modernização para quem?

A tecnologia, quando não vem acompanhada de acessibilidade e educação, transforma-se em barreira. Um idoso que não domina aplicativos, autenticações bancárias, QR codes, biometria facial, portais digitais e sistemas eletrônicos passa a depender de terceiros para acessar direitos elementares. Isso significa dependência para marcar consultas, emitir documentos, pagar contas, solicitar benefícios previdenciários ou mesmo acessar dinheiro da própria conta bancária.

Basta visitar uma agência bancária para perceber essa realidade. O modelo tradicional de atendimento humano foi gradativamente substituído por caixas eletrônicos, totens digitais e aplicativos de internet banking. O problema não está na tecnologia em si, mas na ausência de uma transição minimamente humanizada.

É comum a cena de idosos diante de telas, visivelmente inseguros, tentando compreender sistemas que mudam constantemente, enquanto filas se formam atrás deles. O olhar impaciente de terceiros, a dificuldade para memorizar comandos e senhas e o receio de errar geram algo ainda mais grave do que desconforto operacional, produzem constrangimento e sentimento de não pertencimento.

Não raramente, o idoso sai do banco com a sensação de que já não faz parte daquele ambiente.

Pesquisas conduzidas pelo Sesc São Paulo e pela Fundação Perseu Abramo identificaram precisamente esse sentimento de exclusão entre idosos, especialmente aqueles que apresentam dificuldades no aprendizado digital. Muitos relatam preconceito, impaciência social e a sensação de serem vistos como incapazes ou ultrapassados.

A situação tornou-se ainda mais intensa após a pandemia de COVID-19. A migração abrupta dos serviços presenciais para plataformas digitais aconteceu sem tempo de adaptação. O que antes era uma alternativa tecnológica tornou-se, em muitos casos, obrigação. Quem não se adaptou rapidamente ficou isolado — administrativamente, financeiramente e socialmente.

Há aqui um paradoxo perverso: justamente a geração que ajudou a construir o país, que trabalhou em tempos de escassez, que edificou instituições e sustentou famílias, hoje encontra dificuldades para exercer direitos básicos porque não compreende a linguagem tecnológica do século XXI.

É como se, de uma hora para outra, fossem considerados analfabetos dentro de um mundo que não fala mais sua língua. E isso vai muito além de uma simples questão de conforto. Trata-se de dignidade, de inclusão social efetiva e da necessidade de um enfrentamento racional e humanizado de uma realidade que, em nome da modernização, não pode transformar vulnerabilidade em invisibilidade.

A Constituição Federal assegura proteção integral ao idoso. O Estatuto do Idoso (Lei nº 10.741/2003) estabelece o dever do Estado, da sociedade e da família de garantir sua participação na comunidade, preservando dignidade, autonomia e bem-estar. Contudo, é preciso reconhecer que a exclusão digital já se tornou uma nova forma de vulnerabilidade social.

Não basta dizer que “o aplicativo é simples”. Simples para quem nasceu em ambiente digital talvez seja incompreensível para quem passou décadas vivendo sem computadores, smartphones ou autenticações e assinaturas eletrônicas.

Os estudos sobre envelhecimento e inclusão digital são categóricos ao demonstrar que o chamado letramento digital é determinante para que a tecnologia seja ferramenta de emancipação, e não de exclusão. O desafio não está apenas no acesso ao dispositivo, mas na capacidade de compreender, interpretar e utilizar adequadamente os ambientes digitais. Persistem obstáculos como dificuldades de navegação, interfaces pouco intuitivas, letras pequenas, excesso de etapas de autenticação, custos elevados e medo de golpes financeiros — problema crescente entre idosos.

A pergunta que deveria orientar o debate público é simples: qual política pública o Brasil está construindo para preparar seus idosos para essa realidade e para as futuras?

Porque digitalizar serviços sem promover treinamento é apenas transferir o problema para quem menos consegue resolvê-lo.

É urgente que municípios, estados e União invistam em programas permanentes de alfabetização digital para idosos. Bibliotecas públicas, escolas, universidades, centros comunitários, CRAS, igrejas e instituições do Sistema S poderiam funcionar como polos de capacitação tecnológica. Bancos e órgãos públicos, por sua vez, deveriam manter atendimento humano mínimo e efetivo, especialmente para grupos vulneráveis.

A solução não está em rejeitar a tecnologia. Seria um erro romântico imaginar retorno ao passado analógico. O futuro é digital e isso é irreversível. Porém há ainda uma reflexão pouco feita, mas absolutamente necessária.

As tecnologias que hoje parecem intuitivas, indispensáveis e confortáveis provavelmente serão consideradas rudimentares em um espaço relativamente curto de tempo. A ascensão da inteligência artificial, com sua velocidade de transformação e potencial praticamente ilimitado, tende a remodelar radicalmente a forma como trabalhamos, nos comunicamos e acessamos serviços.

Quem hoje navega com segurança pelos aplicativos, sistemas bancários e plataformas digitais — e, por isso, olha com impaciência ou incompreensão para os idosos excluídos digitalmente — pode, em poucos anos, experimentar condição semelhante. O indivíduo plenamente adaptado às tecnologias atuais poderá descobrir-se, subitamente, um “analfabeto digital” diante de ferramentas que sequer conseguirá compreender.

Talvez esse seja o melhor argumento para que a sociedade trate o tema com menos arrogância e mais solidariedade, porque a exclusão tecnológica de hoje pode ser a vulnerabilidade de amanhã e o progresso verdadeiro não pode significar abandono.

Tecnologia que emancipa é civilizatória. Tecnologia que exclui é apenas conveniência travestida de inovação. Uma sociedade madura não mede seu avanço apenas pela velocidade da internet, pela sofisticação dos aplicativos ou pela automatização dos serviços. Mede-se, sobretudo, pela forma como trata aqueles que vieram antes.

Se um idoso precisa sentir vergonha para sacar seu dinheiro, medo para marcar uma consulta ou dependência para acessar um direito, então talvez o problema não esteja nele.

Talvez esteja no modelo de modernidade que escolhemos construir.

 

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