A gente não quer só comida, a gente quer comida e body splash

E aí, DO NADA, o body splash virou uma espécie de namoradinho brasileiro – e também indicador econômico e social. Não é colônia, não é perfume, não aparece no PIB, não entra na cesta básica, não comove economista de terno. Mas está ali: é onipresente na prateleira da farmácia, no vídeo de TikTok com milhões de visualizações, no ônibus das seis da tarde que, contrariando o suor de um dia todo de trabalho, também cheira a morango do amor.
Há algo de bonito nisso: a ideia de uma vida melhor nem sempre começa com viagem internacional ou apartamento de três quartos. Às vezes – na verdade, quase sempre – começa com um perfume que cabe no Pix, uma comida melhor no prato, um sofá novo, uma casa arrumada. Se o conforto é conquista, o desejo também deve ser entendido como indicador de renda.
Eu, que passei a adolescência desejando uma mochila da Company e nunca tive uma, sei bem o que é isso. A aspiração não era exatamente a mochila, hoje eu entendo. Era sobre ser uma cidadã de verdade, ver minha mãe, que era camareira em um hotel, ganhar um salário decente e não ter que contar todos os meses os centavos para conseguir nos alimentar.

Meu coração ficava aos pedaços quando eu a via sair cedo deixando um pequeno prato de pescoço de galinha para fazermos uma sopa. Era muito barato e era o que dava para comprar com o salário mínimo que ela recebia, trabalhando em escala 6×1. Me lembraria disso ao ver imagens da fila do osso que pipocou no governo de Jair Bolsonaro. Me lembraria disso vendo o Congresso à direita sendo contra mais um dia de descanso para trabalhadoras e trabalhadores (só voltariam atrás por oportunismo eleitoral, fiquem espertos).
Mas voltemos ao cheiro de morango ou de baunilha, ao famosíssimo body splash: segundo a consultoria Circana, a receita da água cheirosa no Brasil cresceu 154% entre janeiro e setembro de 2024, na comparação com o mesmo período do ano anterior. O país já responde por 43,4% desse mercado na América Latina, e só O Boticário diz ter vendido mais de 13 milhões de unidades em 2024.
Traduzindo: o brasileiro, que adora um banho, decidiu que ele não vai acabar na toalha seca: o body splash é uma espécie de banho estendido. Ou melhor, é o pós-banho que vai junto pro trabalho, pro culto, pro forró e pra fila do INSS (eu sigo devota de São Francisco e da Seiva de Alfazema, que custa módicos R$ 26).
Classe C
Quem é mesmo que compra esse frasco-desejo? Em boa parte, a heterogênea e sempre desejosa classe C, essa entidade que economista adora estudar e que, ainda assim, precisa ser melhor observada – também pelos partidos políticos, principalmente do campo progressista.
Pelos critérios da FGV Social, Classe C é a família com renda entre R$ 2.525 e R$ 10.885 por mês. Cabe muita gente nesse intervalo: de quem compra miúdo de frango a quem viaja em grupo para o exterior, de quem conta moeda para o gás a quem parcela a TV gigante em doze vezes e reza para o boleto não vencer no mesmo dia da conta de luz.
Em 2024, a classe C reunia 60,97% dos brasileiros. Entre 2022 e 2024, 17,4 milhões de pessoas saíram da pobreza e subiram para as classes A, B e C, um Equador inteiro mudando de andar, enquanto as classes D e E encolhiam para os menores níveis já medidos.
Não foi milagre, nem simpatia, nem coach te mandando acordar às cinco da manhã. Foi o salário que teve aumento real no governo Lula. O mínimo voltou a subir acima da inflação e chegou a R$ 1.621 em 2026, o bastante para comprar quase duas cestas básicas, pelas contas do Dieese. O desemprego fechou 2025 em 5,1%, o menor da série do IBGE, e a renda média do trabalho bateu recorde.
Não deu outra: gente empregada e com um pouco mais de dinheiro no bolso faz uma coisa revolucionária: compra mais coisas. Inclusive coisas que cheiram bem.
Basta abrir o TikTok e está lá: um mar de gente agarrada com body splash, recomendando aqueles que têm “cheiro de rica”. Tem quem ache ridículo. Eu acho um dos retratos mais honestos do Brasil recente: uma geração que acessa bens relacionados a classes mais abastadas, ainda que, muitas vezes, pela via da imitação (ou “inspired”, para soar mais chique). Não há exatamente uma novidade nesse hábito – o que há é uma enorme reverberação dele através das plataformas digitais.
Essa classe C que quer o “cheiro de rica”, no entanto, segue muitas vezes endividada e empreendedora de si mesma: dados do Instituto Locomotiva e do Sebrae informam que quase metade dos donos de negócio do país está nela. O body splash mora justamente no espaço apertado entre o boleto pago e o mês que insiste em não acabar. É a “sobra”, é o desejo, é a fé, e esse combo que tem um peso enorme na política e que não deveria jamais ser ignorado.
Mas quem compra body splash ou qualquer produto para além da cesta básica não pode esquecer que a grana para adquirir um bocadinho mais pode sumir rapidinho. Basta, por exemplo, aparecer um tesouraço. Ouviram falar? Já chego nele.
Trilha sonora
Antes, quero falar de música e da sensibilidade do país que não quer só comida – ele quer comida, diversão e arte. O hit “Body Splash”, forró piseiro de Felipe Araújo e Luan Pereira, chegou aos palcos e ao streaming através da voz do pernambucano Zé Vaqueiro (bombou também com Rey Vaqueiro).
Zé é uma das sínteses desse brasileiro que se vira, dá seus pulos, e acontece: nascido em Ouricuri, no sertão pernambucano, gravou aos 18 anos um disco caseiro e distribuiu as 50 cópias de graça entre feirantes e festas da região. Depois vieram mais de 1,6 bilhão de visualizações no YouTube do cantor e uma parceria com Léo Foguete cujo título resume este artigo melhor do que eu: “Qualidade de Vida“.
Essa trilha embala muita festa e está nos fones de ouvido de muita gente nos metrôs, motos e ônibus, pessoas que trabalham muito e não querem falar somente da pobreza, mas sim de chances de avançar. Gente que quer comida, brilho, purpurina e splash.
Aí não tem como não lembrar de Gilberto Gil e o manifesto que acompanhou o disco Realce, de 1979. Foi ali que ele pediu “um salário mínimo de cintilância a que todos tivessem direito”, desejo que retornou nessa fala aqui.
Gil cria uma imagem poética para reivindicar que todas as pessoas tenham direito ao brilho, ao prazer, à beleza. Teve quem achasse aquilo frívolo, na época: purpurina e discoteca enquanto o país ainda vivia a ditadura? Mas o cantor e compositor não pediu desculpas. Em 2022, voltou à ideia num artigo na Folha de S.Paulo no qual também defendia a ciência.
Abstenção
Neste 2026, o salário mínimo de cintilância cabe em frasco de 200 ml. Ao lado dele, estão o salário mínimo do estômago, que é o arroz com feijão. Eles não devem ser entendidos em separado, mas componentes de um desejo só.
É por isso que seu voto importa. É por isso que a abstenção precisa ser menor. Foram 33,4 milhões, ou 21,08% do eleitorado, que deixou de ir até às urnas no último dia 4, a maior abstenção num primeiro turno de eleição geral desde 1998. Somando os 2,2 milhões de votos em branco e os 3,6 milhões de nulos, foram quase 40 milhões de brasileiros que não escolheram ninguém.
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Com todas as urnas apuradas, Flávio Bolsonaro terminou com 47,03% dos votos válidos e Lula com 45,16%, uma diferença de 2.224.965 votos. A distância entre os dois cabe quinze vezes dentro de quem ficou em casa. A distância entre os dois também tem relação com manter uma estrada mais segura para um combo onde cabe feijão e sonho ou abrir mão de nossa estabilidade institucional.
O segundo turno, no dia 25, não vai ser decidido só por quem votou. Vai ser decidido, em boa parte, por quem resolver aparecer.
Quem são os ausentes? O TSE não registra a renda nem a cor de cada eleitor, então ninguém pode cravar. Mas as pistas apontam para o mesmo lado. Em 2022, a abstenção chegou a 52% entre os analfabetos e ficou abaixo de 12% entre quem tem diploma; os homens faltaram mais que as mulheres; e o Sudeste virou a região com mais ausentes.
Quando o Datafolha perguntou, em 2024, quem deixaria de votar se o voto não fosse obrigatório, disseram que sim 42% dos eleitores pretos e 39% dos mais pobres. Entre quem ganha mais de dez salários mínimos, 82% votariam de qualquer jeito.
O retrato é velho conhecido: falta mais à urna quem mais depende do que sai dela. E não se trata de preguiça. É muitas vezes sobre não ter com quem deixar as crianças, morar longe da seção, ter que trabalhar no domingo. O resultado é uma democracia que escuta mais alto quem já fala alto. A urna, que devia ser o único lugar onde o voto de uma camareira vale exatamente o mesmo que o do dono do hotel, acaba ouvindo mais o último.
Por isso, boyzinha ou boyzinho cheiroso e desejoso, este texto é para você que ficou em casa no dia 4. Talvez você estivesse de plantão, talvez a seção fosse longe e a passagem, cara. Talvez você tenha se cansado de político, e com razão: político cansa. Talvez você ache que tanto faz.
Mas não faz. Está em jogo o arroz, o feijão e o body splash. O gás, o aluguel, a vaga na creche, a blusinha nova, o pacote de dados móveis, o remédio da Farmácia Popular, a aposentadoria da sua mãe, o Pix.
Democracia é o direito de decidir junto como a vida vai ser e, sim, como ela vai cheirar. É o único dia em que o voto de quem pega dois ônibus vale o mesmo que o de quem tem helicóptero. Feijão, arroz, casa e cheiro bom não são luxo. São o mínimo. E o mínimo, no Brasil, nunca veio de presente.
No dia 25 de outubro, faz assim: toma banho, passa o body splash e vai votar no candidato que não mandou áudio pedindo dinheiro a Daniel Vorcaro.
*Uma versão super reduzida deste texto foi publicada no Queimada
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