A luta de Luiz Gama contra a escravidão pode virar patrimônio da humanidade

Jun 16, 2026 - 18:00
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A luta de Luiz Gama contra a escravidão pode virar patrimônio da humanidade

“O escravo que mata o senhor, seja em que circunstância for, mata, sempre, em legítima defesa.” A frase, atribuída ao abolicionista Luiz Gama, resume a radicalidade de seu pensamento e a defesa intransigente da liberdade. Nascido livre, mas vendido como escravo pelo próprio pai, Gama dedicou a vida a libertar outras pessoas da escravidão. Agora, sua luta e seus escritos podem ser reconhecidos como patrimônio documental da humanidade pela Unesco.

Uma vida marcada pela resistência

Luiz Gama nasceu em 1830, filho da africana Luiza Mahin e de um fidalgo português. Aos 10 anos, foi vendido como escravo pelo pai e levado para São Paulo. Aprendeu a ler e escrever aos 17 anos e, mesmo impedido de cursar Direito por causa da cor de sua pele, tornou-se rábula, atuando nos tribunais em defesa de pessoas escravizadas. Ao longo de sua vida, libertou mais de 500 pessoas. Sua atuação jurídica ficou conhecida por usar brechas legais para provar que muitos escravizados haviam chegado ao país depois da proibição do tráfico, garantindo sua alforria.

A candidatura ao título de patrimônio da humanidade

Documentos, manuscritos e textos publicados por Luiz Gama na imprensa foram submetidos à Unesco. A candidatura ao Programa Memória do Mundo, edital 2026-2027, foi oficializada em 26 de novembro de 2025 pelo Ministério das Relações Exteriores e pelo Arquivo Nacional. O resultado deve ser divulgado no final de 2027, durante a Conferência Geral da Unesco. Em 2025, um conjunto de manuscritos do abolicionista já havia sido reconhecido como “Patrimônio da Humanidade” pela Unesco-América Latina. O novo pedido amplia esse reconhecimento para todo o seu legado documental.

Importância histórica e atualidade de Gama

Para a pesquisadora Lígia Fonseca Ferreira, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Gama se destaca entre os abolicionistas por ter vivenciado a escravidão. “Tudo que escreveu e a maneira como, depois, se voltou para a libertação de indivíduos tem um olhar particular, quase de caso a caso, entendendo aqueles com quem tratou”, afirmou. Em 2015, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) concedeu a Gama, postumamente, o título de advogado.

O reconhecimento da Unesco coloca em perspectiva a atualidade do pensamento de Luiz Gama. Em um contexto de avanço do autoritarismo e de discursos que relativizam ou negam a violência estrutural do passado, a obra de Gama permanece como um alerta. A defesa da dignidade humana, a luta contra a opressão e a crença na justiça social, que guiaram sua vida, são temas que ressoam com força em um mundo que ainda assiste a violações de direitos e à tentativa de silenciar vozes dissidentes. O legado de Gama, que pode agora ser consagrado como patrimônio da humanidade, é um convite à reflexão sobre o passado e um instrumento para a defesa da democracia e dos direitos humanos no presente.

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