A voz negra toma as ruas neste sábado(25)…
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No sábado, dia 25 de julho, data em que se celebra o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e o Dia Nacional de Tereza de Benguela, as ruas de São Paulo se tornarão palco de formação política e de intervenções artísticas e culturais. A Marcha das Mulheres Negras de São Paulo, em sua 11ª edição, tem como mote: “Há 10 anos por Luana Barbosa e por todas nós! Por direitos, reparação e Bem Viver! Mulheres negras nas ruas e nas urnas!” e retoma reivindicações por justiça para o caso de Luana Barbosa, mulher negra, lésbica e mãe, brutalmente assassinada pela polícia militar em 2016. A edição deste ano busca também ampliar o debate sobre a defesa da democracia e a necessidade da participação de mulheres negras nas decisões que norteiam os rumos do país.

O ato político faz parte de uma programação vibrante do projeto Julho das Pretas, criado em 2013, pelo Odara – Instituto da Mulher Negra, que visa fortalecer a ação política coletiva e autônoma das mulheres negras nas diversas esferas da sociedade. A agenda deste ano de 2026, que está em sua 14ª edição, realiza atividades organizações e movimento de mulheres negras do Brasil sob o tema “Seguimos em Marcha por Reparação e Bem Viver”, com programações dentro e fora do país, ampliando a articulação internacional em torno da luta.
A Marcha das Mulheres Negras de São Paulo é fruto da Marcha de Mulheres Negras contra o Racismo, a Violência, e pelo Bem Viver, realizada em novembro de 2015, em Brasília. Na capital do país, o ato político reuniu cerca de 100 mil pessoas na Esplanada dos Ministérios. A edição paulista veio no ano seguinte, quando organizações que participaram do ato em Brasília realizaram a primeira marcha em São Paulo, no dia 25 de julho de 2016, fortemente impulsionada pelo clamor por justiça por Luana Barbosa. O episódio de lesbocídio, feminicídio e racismo que assassinou Luana será levado a júri popular no próximo ano.
Juliana Gonçalves, ativista do Movimento de Mulheres Negras e cofundadora da Marcha das Mulheres Negras de São Paulo, e Simone Nascimento, também cofundadora da Marcha das Mulheres Negras e co-deputada estadual da bancada feminista do PSOL na Assembleia Legislativa de São Paulo, apontam os objetivos da Marcha, seus sentidos políticos neste ano de eleições e os desafios que cercearam a organização do ato.
Eis a entrevista.
Por que o conceito “Há 10 anos por Luana Barbosa e por todas nós! Por direitos, reparação e Bem Viver! Mulheres negras nas ruas e nas urnas” foi escolhido e o que ele representa no cenário político atual?
Juliana Gonçalves: O mote deste ano resgata mais uma vez a figura de Luana Barbosa, intimamente ligada à construção da Marcha das Mulheres Negras de São Paulo. Fomos marchar em 2015 no movimento nacional que levou mais de 50 mil mulheres negras para Brasília, e voltamos muito afetadas e muito certas de que essa organização política que vem com as marchas é uma ferramenta importante de emancipação e ocupação dos espaços. Quando voltamos, em abril do ano seguinte, houve o assassinato de Luana Barbosa, que morreu de uma forma totalmente violenta, de tanto apanhar dos policiais. E um grupo de mulheres negras já organizadas por conta da marcha de 2015 decide colocar uma marcha na rua no dia 25 de julho de 2016, pedindo justiça.
Simone Nascimento: Seguindo no nosso mote, dizemos que estamos por Luana Barbosa, mas que estamos também por todas nós, porque de modo geral a vida da mulher negra segue precarizada e oprimida em muitos âmbitos, desde o acesso à saúde, acesso a serviços públicos, até mesmo endividamento das mulheres, que está em índices alarmantes. Além do fato de estarmos vivendo agora, nesse exato momento, uma investigação de um homicídio contra duas mulheres negras na região do litoral norte de São Paulo, Fabiana e Ieda, que eram um casal de mulheres lésbicas, negras.
Então, para nós, quando se fala “Por Luana e por todas nós”, é porque as mulheres negras seguem vítimas de uma violência brutal, que considera os nossos corpos matáveis, as nossas vidas descartáveis de maneira muito fácil pelo Estado. Nos deparamos ainda com um país que não tem uma democracia plena por tratar as mulheres negras dessa forma.
Não lutamos na rua apenas para transformar o nosso luto em luta, mas também para anunciar um projeto de futuro. Apesar da existência de uma sociedade que nos sufoca de várias formas e que nos interrompe, seguimos elaborando caminhos possíveis de bem viver para disputar as ruas, mas também as urnas, entendendo que as ruas são o caminho principal e que antecede cada disputa.
Juliana Gonçalves: Nas urnas, estamos diante de mais um enfrentamento no campo institucional, as eleições, e vamos precisar estar muito organizadas, abrindo um diálogo muito sincero e fraterno com as forças que estão disputando o âmbito institucional para que, de fato, a mulher negra esteja lá, ocupando esse espaço.
A Marcha das Mulheres Negras de São Paulo completa uma década neste Julho das Pretas. Olhando para a programação deste ano, o que mudou em relação às edições anteriores e o que a agenda atual revela sobre os avanços e as permanências desses 10 anos de luta no Estado?
Simone Nascimento: O 25 de julho nasce de um encontro na década de 90 de mulheres negras que fizeram a integração latino-americana e caribenha e entenderam pontos em comum de serem mulheres negras na diáspora, mas de estarem na América e construir uma aliança. Então, elas decidiram que, a partir daquele encontro, todo 25 de julho, elas iriam promover discussões sobre ser mulher negra latino-americana e caribenha. Aquele dia se tornou, portanto, esse dia da mulher negra latino-americana e caribenha. Em 2014, no último governo da presidenta Dilma, nas vésperas do que já era o processo de organização da Marcha das Mulheres Negras, a Dilma sancionou o 25 de julho, também como Dia da Mulher Negra no Brasil e Dia de Tereza de Benguela, líder quilombola muito conhecida por historiadores por organizar uma forma comunitária de gerir o quilombo do Quariterê: funcionava como um conselho de participação social, ou como uma espécie de parlamento democrático, onde todo mundo tinha vez, votos, as decisões eram tomadas de maneira coletiva.
Juliana Gonçalves: A marcha tem na programação hoje esse lugar de entender que estamos celebrando uma tomada das ruas. É que a nossa forma de fazer política é totalmente atravessada, até enquanto uma herança ancestral, pela base cultural. Entendemos a educação e a cultura como bases elementares, inclusive, para expormos a nossa visão de mundo. Portanto, teremos isso na nossa programação, além de uma homenagem à Luana Barbosa, com a presença de sua família. Vamos ter uma intervenção de uma casa, Ballroom, entendendo essa intersecção também com a luta das mulheres trans e como historicamente viemos traçando esse diálogo com elas. A programação deste ano é fruto de muitos debates, mas principalmente de escuta. Depois desses 10 anos, acredito que nossa organização amadureceu muito politicamente na forma de entender um ato político de rua, também enquanto um legado.
Quais vocês diriam ser os principais desafios de organizar um ato político dessa amplitude, pensando em segurança, organização, mobilização, recursos e articulação com outras organizações?
Simone Nascimento: Concentrar diversas mulheres negras numa atividade de marcha em via pública é o primeiro desafio antissistêmico, porque a gente desafia o Estado e o poder do Estado de São Paulo. Colocamos milhares de mulheres negras para ocupar a via pública, para falar em primeira pessoa. Para mulheres negras ocuparem o centro, elas não estão produzindo para o capitalismo; estão protestando contra esse sistema para sair dos seus territórios de maneira autônoma. Essas mulheres precisam se organizar desde o financeiro até a organização e elaboração de propostas políticas. E a Marcha representa a independência política de dizer em via pública o que as mulheres negras querem falar em primeira pessoa.
O segundo é que é incomum que mulheres negras circulem em via pública sem ter seus corpos tutelados pelo Estado. Marcha, então, questiona normas sociais ao sair dos nossos territórios e ocupar o espaço público, um elemento que se intersecciona com o desafio da segurança. Apostamos na auto-organização, apesar de o Estado nos impedir de nos organizarmos profundamente com a rotina que ele nos impõe, a partir da escala de trabalho cansativa, a partir do acúmulo de tarefas do trabalho e do cuidado de nossos parentes, filhos e comunidades.
Estamos prestes a um novo momento, eleitoral inclusive, onde a gente sabe que queremos continuar avançando, como o manifesto de 2015 demonstrou. Conseguimos mobilizar tudo isso para falar de um projeto radical nas ruas. Quando falamos de bem viver, de reparação, estamos falando de mudança profunda de sociedade, elaborando coisas muito maiores do que pequenas reformas, do que pequenas medidas paliativas contra a desigualdade.
Como vocês avaliam as políticas públicas existentes relacionadas às mulheres negras e a atuação das autoridades no combate às desigualdades de gênero e raça? E, neste ano eleitoral, qual deve ser o papel da relação entre governo e sociedade para torná-las mais efetivas?
Simone Nascimento: Vivemos hoje uma grande contradição. Temos tido avanços ao nível federal muito importantes, inclusive tendo o primeiro Ministério da Igualdade Racial, o Ministério das Mulheres também, que conseguiu investir em políticas públicas federais no âmbito da promoção da igualdade racial e do direito das mulheres. Aqui no estado de São Paulo a gente vive um desinvestimento nessas pautas muito grande, o número de casos de feminicídio é altíssimo. Além disso, parlamentares federais querem retroceder até na lei do racismo.
Defendemos um programa de moradia, saúde integral, acesso a pleno emprego e erradicação da fome para a população negra e também o necessário fim de operações policiais sangrentas em comunidades, geralmente geridas por mulheres negra.
Ano passado, a Marcha das Mulheres Negras de São Paulo passou por bloqueio das verbas destinadas à 10ª Marcha por decisão do prefeito Ricardo Nunes. Em 2026, houve novo entrave em relação às verbas destinadas? Além das verbas parlamentares, há outras formas de financiamento da marcha?
Juliana Gonçalves: Há menos de um mês, estávamos construindo toda a marcha, organizando as reuniões e articulando tudo em meio a muita instabilidade. No ano passado, o caminhão que tivemos na marcha, assim como toda a estrutura — que já era bastante limitada — foi resultado exclusivamente do que nós mesmos conseguimos viabilizar. Foi muito desafiador não contar com esse apoio. Neste ano, tudo indicava que seria assim novamente. Mas, graças à insistência política e ao fato de termos hoje, felizmente, vereadoras na Câmara de São Paulo comprometidas com a pauta racial, conseguimos uma emenda que vai garantir, de fato, a estrutura básica da marcha. Ainda precisamos de recursos para transporte. Todas as atrações artísticas cedem seus repertórios gratuitamente para a marcha, mas é importante termos algum recurso financeiro para oferecer, ao menos, uma ajuda de custo para o transporte. É uma forma de fazer com que essas artistas se sintam minimamente acolhidas e reconhecidas por estarem conosco.
No ano passado, o Ricardo Nunes barrou a marcha de uma forma muito violenta. Neste ano, não sei se por ser ano eleitoral, isso não aconteceu. Ainda assim, houve uma disputa muito grande. As manas que cuidam da parte de infraestrutura precisaram acompanhar tudo de perto, porque não existe vontade política de garantir que as mulheres negras estejam bem nas ruas. Tivemos que batalhar o tempo todo. O financiamento da marcha acontece de várias formas: por meio de organizações sociais, de outros movimentos que contribuem com recursos, de doações de pessoas físicas pela nossa vaquinha. Muito do que conseguimos fazer só é possível porque existe um reconhecimento da importância de a marcha estar na rua. As organizações que a compõem também fazem doações e ajudam a viabilizar a estrutura. Por isso, ao final da marcha, fazemos questão de agradecer não apenas aos parceiros que garantiram o apoio político, mas também a todas as pessoas que se mobilizaram e entenderam a importância de contribuir financeiramente.
Confira o manifesto completo da marcha.
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