Além da 6×1: Como a uberização impõe a jornada 7×0 aos brasileiros

Trabalhadoras e trabalhadores brasileiros enfrentam, cotidianamente, uma goleada do capital sobre o trabalho. Essa ofensiva não é um evento isolado; os ataques aos direitos dos trabalhadores se articulam com a exploração do trabalho, a piora das condições de vida e o endividamento das famílias.
Entra governo, sai governo, as desigualdades e as injustiças cotidianas não só permanecem, como vão se atualizando. Os trabalhadores periféricos são a maioria da população e da classe trabalhadora brasileira. E para essas pessoas muito pouco está garantido: nem a vida, nem a casa, nem o trabalho, nem a saúde, nem o lazer, nem os direitos. Negros e negras estão na linha de frente desse modo de vida periférico, enfrentando as articulações dos elementos mais brutais dessas estruturas.
A uberização como vetor de informalidade
O mercado de trabalho para os trabalhadores periféricos é formado por altos e persistentes índices de informalidade, alta rotatividade no emprego formal e um salário-mínimo completamente distante do valor necessário para uma vida digna para suas famílias. Por dentro e por fora do emprego formal, são instituídas práticas cotidianas no local de trabalho que impõem a extensão do tempo de trabalho – e do tempo não pago – assim como a transferência de riscos e custos.

Temos instrumentos estatísticos para mensurar as dimensões do emprego formal e da informalidade, mas a realidade do mundo do trabalho brasileiro é muito mais complexa do que a expressa pelo par formal/informal.
A precariedade e a falta de direitos se somam à dureza cotidiana e ao valor rebaixado da força de trabalho. Essa realidade impulsiona um trânsito constante dos trabalhadores por diversas ocupações, alternando entre os mercados formal e informal. Na prática, a sobrevivência exige combinar múltiplas atividades remuneradas, articulando o emprego tradicional com atuações por conta própria e com empreendimentos familiares.
Hoje, a uberização do trabalho se expande pelo país, subordinando esse modo de vida a novas regras. Mais do que um modelo tecnológico, ela funciona como um novo sistema de controle e organização do trabalho, consolidando-se como uma grande impulsionadora do trabalho informal.
Em poucos anos, ocupações antes formais se informalizam – caso dos motoboys que trabalham como celetistas terceirizados; novas ocupações se estabelecem já informalizadas – como os motoristas da Uber; assim como ocupações precárias que já existiam se expandem de forma ainda mais degradada – caso dos bikeboys.
A uberização pode ser compreendida pelas duas faces de uma mesma moeda: de um lado, a multidão de trabalhadores informais; do outro, a oligopolização bem-sucedida de algumas empresas – hoje perigosamente denominadas de “plataformas digitais”, que conseguem dominar os setores em que atuam. Assim, com essa oligopolização, empresas subordinam, de forma centralizada e altamente racionalizada e controlada, exércitos gigantescos de trabalhadores informais.
A uberização consolida um tipo de organização do trabalho, na qual quanto menos predefinições em torno da atividade, mais profunda e eficaz é a exploração. A informalização ganha um sentido mais amplo e complexo. Enfrentamos, então, uma perda de formas estáveis e reconhecíveis de diversos elementos que regem o processo produtivo.
– Não há contratação, mas cadastros ativados;
– Não há demissão, mas bloqueios, cancelamentos e desativações;
– Não há valor da hora de trabalho definida, mas taxas e precificações que variam de forma obscura;
– Não há uma relação pré-estabelecida entre tempo de trabalho e remuneração.
O trabalhador fica disponível, arca com o tempo de trabalho não efetivo, é remunerado apenas quando realiza uma tarefa e não tem nenhuma garantia ou definição prévia de quantas tarefas lhe serão designadas.
Para os trabalhadores, a informalidade; para as empresas, a informação. As novas tecnologias possibilitam, hoje, transformar em dados administráveis uma enormidade de elementos da vida social e incorporá-los à gestão do trabalho, no que podemos denominar de gerenciamento algorítmico do trabalho.
Do lado do trabalho, as regras do jogo são obscuras e cambiantes; do lado das empresas, o que se vê é uma gestão altamente racionalizada e controlada.
Tempo de vida roubado
A uberização também consolida uma tendência que já atravessa o mundo do trabalho – em nível mundial – há muitas décadas: a transformação de todo o tempo de vida em potencial tempo de trabalho. Quem trabalha em home office hoje sabe bem do que se trata. Sentimos na pele que o trabalho pode adentrar todos os poros da vida, o que também significa que trabalhamos cada vez mais.
As fronteiras historicamente estabelecidas entre o que é e o que não é tempo de trabalho vêm se dissolvendo de diversas maneiras que não se restringem aos trabalhadores periféricos, embora os atinjam de forma mais brutal.
‘Nesse modo de vida, todo o tempo se transforma, potencialmente, em tempo de trabalho’.
Uma pesquisa com motofretistas em Campinas, no interior de São Paulo, que resultou no Dossiê das Violações dos Direitos Humanos no Trabalho Uberizado, constatou que aqueles que têm a entrega por aplicativo como principal fonte de renda são, em sua maioria, negros. Os dados também mostram que 53% deles trabalham mais de 60 horas por semana – com 21% ultrapassando a marca de mais de 80 horas semanais. Além disso, 52% trabalham todos os dias da semana.
Esses dados não são exceção, mostram a realidade do viver de grande parte da classe trabalhadora brasileira. A combinação de diferentes empregos, múltiplas ocupações e diversas atividades remuneradas é parte das estratégias cotidianas que garantem a sobrevivência dos trabalhadores periféricos. Hoje, essa dinâmica é impulsionada pela informalização típica da uberização. Nesse modo de vida, todo o tempo se transforma, potencialmente, em tempo de trabalho.
Custos e riscos do trabalho para o trabalhador
Nas últimas décadas, a ameaça do desemprego e a suposta falta de espaço para todos no mercado de trabalho viraram o pretexto perfeito. Essa narrativa funciona como argumento imbatível para legitimar a perda de direitos e a aprovação de reformas, como a trabalhista e a previdenciária. Essa mesma lógica normaliza a expansão da uberização, a transferência de riscos e custos aos trabalhadores, o aumento do tempo de serviço e o rebaixamento do valor da força de trabalho.
Mas, a despeito das derrotas que avançam, os movimentos de resistência dos trabalhadores também se fortalecem. Vale ressaltar as recentes mobilizações vitoriosas dos motofretistas frente aos projetos de lei que promoveriam a uberização nas suas formas mais degradadas – e que serviriam como fundamento legal para sua expansão para outras atividades econômicas.
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Os motoboys são uma categoria politicamente organizada há várias décadas; o #brequenosapps e seus desdobramentos hoje os colocam no centro das lutas e da organização coletiva de trabalhadores uberizados.
Em 2024, o governo Lula propôs um projeto de lei que, além de não conferir direitos mínimos do trabalho, legalizava a jornada de 12 horas para trabalhadores uberizados (PL 12/2024). A articulação organizada dos trabalhadores impediu seu avanço. O interessante é que, enquanto o governo celebrava a figura do “autônomo com direitos” nas mídias, nas ruas, trabalhadores eleitores de Lula e Bolsonaro se uniam contra o projeto.
Já a movimentação social em curso pela redução da jornada de trabalho e pelo fim da jornada 6X1 surge como uma fagulha potente e imprevisível. O tema uniu, de forma inesperada, gregos e troianos no atual intricado cenário político. O fato é que as chaves analíticas em torno da polarização política não dão conta de abarcar o que está em jogo, pois o que emerge é uma disputa mais funda sobre a liberdade, o descanso e a própria experiência do tempo na vida social. Algo que já parecia batalha perdida para os trabalhadores periféricos – o direito ao lazer e ao tempo livre – volta à cena. Nesse sentido, o tempo de vida ganha corpo como questão nevrálgica da atualidade.
Após a derrota nas ruas frente ao PLP 152/2025 da uberização, o governo encampou a eliminação da jornada 6×1, protocolando, inclusive, um novo projeto de lei que limita o trabalho a 40 horas semanais e garante dois dias inteiros de descanso. É preciso então, como busca a luta de motoboys e bike boys, brecar os processos de degradação e intensificação da exploração do trabalho que tomam a vida dos trabalhadores como um todo.
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