Alta da bolsa após primeiro turno mostra empolgação do mercado com a possível perda de direitos

Na segunda-feira seguinte ao primeiro turno, a Bolsa de Valores brasileira subiu 7,7% e fechou em 206.904 pontos – recorde histórico acima dos 200 mil. O dólar caiu 4,1% e encostou em R$ 5. O fundo que reúne ações brasileiras em Nova York chegou a subir mais de 10% logo depois da apuração. O motivo não é segredo e a mídia hegemônica tratou de deixar bem claro: Flávio Bolsonaro terminou o domingo com 47% dos votos válidos, contra 45,2% de Lula, e o mercado passou a tratar a vitória dele como cenário provável.
O noticiário tratou o movimento como um termômetro da economia. Se a bolsa sobe e o dólar cai, é porque o país vai melhorar. Mas, quando o mercado comemora, a gente tem que questionar. O mercado está comemorando exatamente o quê? Os motivos para o mercado gostar do Flávio são os mesmos para o resto da sociedade gostar? De fato, a Bolsa de Valores e o preço do dólar são representativos de como está ou vai ficar a economia? E, afinal, quem está comemorando?

A bolsa já bateu recorde com Lula
O primeiro detalhe curioso é que pouca gente lembrou que essa mesma bolsa vinha quebrando recordes no governo Lula. Em 2025, o Ibovespa subiu cerca de 34%, o melhor ano desde 2016, e renovou 32 vezes ao longo do ano sua máxima histórica de fechamento.
Em abril de 2026, inclusive, o índice chegou perto dos 200 mil pontos. E se nós pegarmos o agregado da valorização da bolsa, ela foi muito menor em todo o mandato do ex-presidente Jair Bolsonaro, totalizando um crescimento de 24,9%, contra uma valorização de 75,1% durante o terceiro mandato de Lula, isso sem contar a subida após este primeiro turno das eleições.
Sobre o dólar, foi também neste governo, em abril, que o dólar fechou abaixo de R$ 5 pela primeira vez depois de muitos anos. Ou seja, não é verdade que o mercado estava “sofrendo” com o atual governo e agora respira aliviado. Os investidores ganharam muito dinheiro nos últimos anos. O que a alta desta semana revela não é alívio diante de uma economia ruim, mas a expectativa de ganhar ainda mais com um governo que eles consideram mais alinhado aos seus interesses.
Bolsa não é economia real
O segundo ponto é que a bolsa e o dólar não são indicadores da economia que interessa à maioria da população e que se reflete na sua vida cotidiana. Eles não são exatamente espelhos da economia real e são suscetíveis a muitos movimentos especulativos.
Para ilustrar isso, trago aqui um exemplo bem recente. Em dezembro de 2020, a economia brasileira estava indo para o buraco. A pandemia matava milhares de pessoas por dia; o PIB tinha despencado; o desemprego se aproximava de 15% e a fome voltava a crescer. Pois é, mas naquele exato momento a bolsa brasileira já tinha recuperado praticamente tudo o que tinha perdido no começo da crise.
Em janeiro de 2021, no auge da segunda onda da covid, o Ibovespa bateu recorde histórico. Ou seja, não é verdade que a bolsa subir signifique “saúde” da economia.
Isso acontece porque a bolsa não mede emprego, renda ou bem-estar. Ela mede lucro, mais precisamente a expectativa de lucro futuro das grandes empresas listadas na bolsa. E lucro e salário são, em grande medida, as duas fatias de um mesmo bolo.
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Quando o mercado espera que a fatia dos lucros cresça, as ações sobem, mesmo que para isso a fatia que fica com os trabalhadores seja diminuída. Ainda que seja muito importante que as nossas empresas possam usar a bolsa de valores para se financiar, os preços das ações das empresas, em boa medida, crescem quando os relatórios dessas mesmas empresas indicam “corte de gastos” e “corte de pessoal”.
A equipe econômica do Flávio Bolsonaro já tem falado em fazer ajustes fiscais severos na economia brasileira. Em um dos atos de “sincericídio”, eles disseram que esperam economizar R$ 800 bilhões nos próximos quatro anos com a mudança nos pisos da saúde e da educação.
Agora imagina o quanto as ações de grandes conglomerados de educação privada vão crescer depois de uma notícia dessas. Nesse caso, o mercado está precificando uma tendência boa ou ruim para a grande maioria da população brasileira que usa educação pública?
O que a convenção do mercado está precificando
Segundo a economista Laura Carvalho, “a bolsa subiu porque a convenção no mercado é de que, entre outros cortes, Flavio Bolsonaro vai desvincular a Previdência do mínimo e o mínimo da inflação”. E completou: “Ou seja, estão ganhando dinheiro com a expectativa de que aposentados e assalariados percam dinheiro”.
Hoje, nenhum benefício do INSS pode ser menor do que o salário mínimo, e o salário mínimo sempre deve crescer acima da inflação. Desvincular as duas coisas é a forma de dizer que os aposentados vão ganhar menos ao longo do tempo.
‘O mercado não está prevendo as coisas, em boa medida ele está produzindo uma narrativa’.
Desindexar o mínimo da inflação, por sua vez, é ainda pior, e abre a porta para que o piso salarial do país perca poder de compra ano após ano. Aliás, a história está aí para nos mostrar que durante o governo de Jair Bolsonaro o salário mínimo não teve nenhum aumento real. São justamente os mecanismos que garantiram que a renda da base da pirâmide não fosse corroída na última década.
Para o mercado financeiro, isso aparece como “ajuste fiscal crível”, gasto menor, juros futuros mais baixos e, portanto, ações mais valiosas. As análises dos grandes bancos publicadas nesta semana falam abertamente em menos intervenção estatal, mais concessões e privatizações. De onde eu venho isso é conhecido como perda de renda.
Aposta não é previsão
O terceiro ponto é que o crescimento da Bolsa de Valores não reflete nenhuma mudança concreta na economia. Entre a sexta e a segunda-feira, não aconteceu nada com a produção, o emprego, as exportações ou as contas públicas. O que mudou foi uma aposta sobre quem vai governar a partir de 2027.
Os analistas do mercado admitem que a alta pode se desfazer se as pesquisas do segundo turno mudarem. É especulação no sentido mais literal da palavra.
Por isso, é um equívoco tratar a bolsa como uma espécie de oráculo que antecipa o futuro do país. O mercado não está prevendo as coisas, em boa medida ele está produzindo uma narrativa. E, vamos combinar, está fazendo campanha. A bolsa não é neutra, ela tem lado.
Uma alta de 8% num dia, amplificada pelo noticiário como “o país reagiu bem”, é também uma peça de propaganda eleitoral, ainda que ninguém a assine.
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