Carnaval, Carnaval, eu fico triste quando chega o carnaval
Há quem espere fevereiro como quem aguarda uma absolvição coletiva. Eu o recebo como uma memória. Se abril é o mais cruel dos meses, como escreveu T. S. Eliot em The Waste Land, fevereiro talvez seja o mais implacável. Foi em fevereiro de 1943 que o marechal-de-campo Friedrich Paulus, à frente de cerca de noventa mil homens esfomeados, atravessou as linhas soviéticas para entregar-se ao cativeiro, selando o destino do VI Exército alemão na Batalha de Stalingrado.Dos que marcharam para o cativeiro, apenas alguns milhares regressariam anos depois a uma Alemanha irreconhecível. A maioria desapareceu na vastidão do inverno russo, consumida não apenas pela fome e pela doença, mas pela obstinação de um comando incapaz de admitir o erro. “O Alto Comando está sempre certo”, repetia-se nos corredores do poder militar do Reich, fórmula que o general Alfred Jodl ajudou a transformar em método. Em Stalingrado, como tantas vezes na História, o Alto Comando estava errado. E quando o Alto Comando erra, não são os generais que pagam a conta.É curioso como o calendário, essa convenção aparentemente neutra, organiza também nossas amnésias. Fevereiro, no Brasil, foi sequestrado pela alegria obrigatória. Não há espaço para o silêncio quando a bateria começa a marcar o compasso. A memória, se insiste, parece deslocada, quase indelicada. Mas a História não respeita feriados.Nota: Sobre o tema do artigo um bom guia para aprofundamento a obra do historiador militar BEEVOR, Anthony. Stalingrado. Rio de Janeiro: Record, 2002.Enquanto as ruas se preparam para a liturgia da euforia, eu penso em outra procissão: homens desarmados, exaustos, atravessando a neve sob o olhar de um inimigo que já não precisava atirar. Penso na distância entre as decisões tomadas em salas aquecidas e os corpos que tombam no gelo. Penso na facilidade com que se pronunciam palavras como “honra”, “destino”, “resistência”, e no preço concreto que elas exigem.Não se trata de comparar o Carnaval a uma tragédia militar. Seria desonesto, e talvez cruel, impor à festa popular o peso de Stalingrado. Trata-se de outra coisa: da convivência incômoda entre celebração e memória. Da constatação de que as sociedades escolhem o que lembrar e, sobretudo, quando lembrar.Toda festa contém um gesto de suspensão. Suspendem-se as hierarquias, as contenções, as culpas. O Carnaval é, nesse sentido, uma pausa simbólica no curso ordinário da vida. Mas a História não se suspende. Ela permanece, como um ruído de fundo, aguardando que alguém a escute.Talvez minha melancolia de fevereiro seja, no fundo, uma recusa a participar integralmente desse esquecimento sazonal. Não por virtude, mas por deformação profissional. Quem passou anos estudando campanhas militares aprende que os desastres raramente começam no campo de batalha. Começam na incapacidade de reconhecer limites, na crença de que a vontade substitui a realidade, na repetição dogmática de que o comando não erra. Fevereiro me recorda que a obstinação estratégica pode ser tão letal quanto o inverno russo. Recorda-me que decisões abstratas produzem cadáveres concretos. Recorda-me que há sempre um momento em que recuar preserva vidas e outro em que persistir apenas multiplica viúvas.Enquanto a música sobe pelas avenidas e a cidade se cobre de cores, eu me permito um instante de silêncio. Não para negar a festa, mas para lembrar que, sob qualquer calendário, há camadas de tempo que não dançam.. E talvez seja esse o meu modo particular, imperfeito, deslocado, mas sincero, de resistir ao esquecimento. Fevereiro sempre me remete a Stalingrado; e a História não dança....
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