Como os EUA usaram a guerra às drogas para sabotar o processo de paz na Colômbia

Esta reportagem em parceria com o Drop Site News também está disponível em espanhol.
Quando o governo Trump lançou em janeiro sua operação de bombardeio para sequestrar o ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro, a acusação contra ele foi de tráfico de drogas com objetivo de beneficiar sete organizações classificadas como terroristas pelos EUA, incluindo o Cartel de Sinaloa, no México, o colombiano Exército de Libertação Nacional, e um grupo insurgente pouco conhecido, chamado Segunda Marquetália.
Mas a Segunda Marquetália, um apanhado de militantes colombianos que vivem ao longo da fronteira com a Venezuela, tem um histórico peculiar: o grupo foi criado pelo governo dos EUA.
Fundada em 2019 pelos ex-líderes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), a Segunda Marquetália foi gestada por uma obscura operação secreta do Departamento Antidrogas do governo dos EUA, que desvirtuou o processo de paz na Colômbia, empurrando um dos principais negociadores das Farc de volta para a floresta e o tráfico de drogas, e, por fim, para os braços do governo venezuelano.
Em um malabarismo muito familiar depois das décadas de políticas desastrosas dos EUA na América Latina, as ações da Segunda Marquetália foram usadas em parte para justificar a invasão da Força Delta a Caracas em janeiro, que matou pelo menos 47 venezuelanos e 32 cubanos que integravam a equipe de segurança do presidente, e culminou na prisão de Maduro e sua esposa, Cilia Flores. O ex-presidente Venezuelano está detido em uma prisão em Nova York, aguardando o julgamento em um tribunal federal.
No último ano, o governo Trump se envolveu em operações agressivas e com motivações políticas contra o narcotráfico, intensificando a guerra dos EUA contra as drogas com o envolvimento dos militares. Ao classificar uma série de grupos criminosos como organizações “terroristas”, o governo tenta justificar ataques militares contra pequenos barcos que supostamente estariam transportando drogas, e invoca a segurança nacional para praticar execuções extrajudiciais no mar. Pelo menos 190 pessoas já foram mortas nos ataques, incluindo pescadores que aparentemente não tinham qualquer envolvimento com o tráfico.
O governo também se aproveitou das acusações de tráfico de drogas para atacar adversários políticos, como Maduro. Em março, o New York Times noticiou que o Departamento de Justiça dos EUA está investigando o presidente colombiano Gustavo Petro, que tem uma relação complicada com o governo Trump, por acusações de tráfico de drogas. Em outubro do ano passado, o governo impôs sanções contra Petro, sua esposa, seu filho e o ministro do Interior por “inundar os EUA e envenenar os americanos” com cocaína colombiana, segundo o secretário do Tesouro, Scott Bessent.
“O presidente Petro permitiu que os cartéis de drogas prosperassem e se recusou a interromper essa atividade”, acrescentou Bessent.
A história de como uma batalha oportunista na extensa guerra às drogas dos EUA deu origem à Segunda Marquetália nunca foi totalmente contada. Mas uma investigação do Drop Site e do Intercept Brasil revela como uma operação armada pelo Departamento Antidrogas contra o tráfico de cocaína teve como alvo um antigo líder e negociador de paz das Farc, que atende pelo nome de guerra Jesús Santrich. Santrich havia concordado em depor suas armas e se tornar deputado. Mas quando os EUA buscaram sua extradição, a despeito do frágil acordo de paz da Colômbia, Santrich abandonou a vida civil e iniciou a Segunda Marquetália.
“Este caso criou a Segunda Marquetália”, diz Elizabeth Dickinson, vice-diretora de programa para a América Latina e o Caribe na ONG International Crisis Group (Grupo Internacional de Crise).
O caso Santrich coloca em evidência a cartilha do Departamento de Justiça para investir em casos de tráfico de drogas de grande repercussão, a despeito de suas graves implicações políticas para outros países. Embora as motivações do Departamento Antidrogas para perseguir Santrich não estejam claras, alguns colombianos acusam os EUA de chauvinismo e interferência política no caso.
Nossa investigação se baseia em centenas de páginas de registros federais dos EUA, judiciais e policiais; um relatório da Comissão para Esclarecimento da Verdade, Convivência e Não Repetição, um órgão criado como parte do processo de paz na Colômbia para investigar violações aos direitos humanos; uma queixa-crime interna colombiana; uma investigação da ONU; registros colombianos de extradição; e diversas entrevistas com um dos corréus de Santrich que foi alvo da operação, Armando Gómez, que cumpriu recentemente uma pena de dez anos em um presídio federal em Atlanta, nos EUA.
O Departamento de Justiça não quis comentar. O Departamento de Estado encaminhou as perguntas ao Departamento Antidrogas, que não respondeu aos pedidos de comentários.
Entre as conclusões da investigação do Drop Site e do Intercept Brasil:
- as negociações de cocaína que levaram à prisão de Santrich foram iniciadas por um informante de longa data do Departamento Antidrogas, que estava na folha de pagamento do governo dos EUA, e cujas ações foram coordenadas por agentes especiais em Miami e Bogotá.
- Todo o dinheiro envolvido na suposta negociação de drogas, incluindo milhões de dólares em notas falsas, foi fornecido pelo governo dos EUA Os cinco quilos de cocaína entregues durante a operação foram fornecidos por um traficante de drogas, com vínculos limitados com as Farc, que se tornou atualmente uma testemunha protegida pelo Departamento de Justiça dos EUA.
- Santrich só se envolveu superficialmente na negociação depois que os informantes do Departamento Antidrogas o pressionaram para uma reunião. Ele foi perseguido embora só estivesse presente em duas reuniões ao longo dos nove meses da operação, que aconteceram depois que a cocaína já havia sido entregue.
- Durante o primeiro governo Trump, o Departamento de Estado se recusou reiteradamente a colaborar com a justiça colombiana. Os EUA recusaram pedidos da Colômbia para apresentar provas contra Santrich, que permitissem à justiça determinar se ele poderia ser legalmente extraditado para os EUA.
- As consequências da operação levaram ao enfraquecimento de um acordo de paz, à criação da Segunda Marquetália, e a uma investigação da ONU sobre o problema. A investigação da ONU revelou que a operação pode ter sido comandada por um “agente provocador”, mas não chegou a identificá-lo como o informante do Departamento Antidrogas.
A Conexão Cocaína
A história de origem da Segunda Marquetália remonta a novembro de 2017, quando um integrante de um cartel mexicano estava sentado calmamente no saguão de um hotel em Bogotá, aguardando uma entrega de cocaína.
O simpático mexicano, conhecido por seus comparsas como Marco Aurelio García Weinberg, estava na casa dos 40 anos, e tinha a barba feita e o cabelo bem cortado. Ele e um associado próximo declaravam ser integrantes do Cartel de Sinaloa, no México, e estavam há meses negociando com um grupo de colombianos para firmar uma enorme parceria de tráfico de cocaína. Agora Marco estava prestes a receber uma amostra de cinco quilos do produto que os colombianos prometiam ser a cocaína “mais pura”, segundo documentos do Departamento de Justiça dos EUA. Se a qualidade se comprovasse e o transporte para os EUA fosse bem-sucedido, os traficantes mexicanos continuariam a negociar um acordo milionário de cocaína. Eles estavam a poucos passos de traficar 10 toneladas para a América do Norte e a Europa.
As portas de vidro automáticas do hotel se abriram, e Armando Gómez entrou no saguão. O empresário colombiano tinha 1,80m de altura e 69 anos de idade, usava óculos, gravata amarela e um paletó azul marinho. Ele levava no ombro uma mochila marrom cheia de cocaína.
“Cheguei, entrei no hotel, e o vi sentado em uma poltrona”, contou Gómez ao Drop Site News e ao Intercept Brasil em uma série de entrevista feitas no FCI Atlanta, o presídio federal de baixa segurança onde ele estava detido até sua libertação, em abril. Ele se aproximou de Marco e colocou a mochila no chão à sua frente. “Eu disse ‘Oi, aqui está, não se preocupe’ e fui embora. Precisava participar de outras reuniões.”
Marco levou a mochila para um quarto de hotel e examinou a mercadoria. Satisfeito, ele e seu parceiro de cartel ligaram para Gómez e outros dois empresários colombianos, para dizer que queriam avançar com o acordo de 10 toneladas e 15 milhões de dólares (75 milhões de reais). Mas os mexicanos tinham uma condição: eles queriam a “bênção” de Santrich, o ex-líder das Farc, antes de seguir em frente.
Era um momento complicado para um ex-comandante como Santrich estar envolvido no tráfico de drogas. Ele estava prestes a entrar para a política tradicional, e quando Santrich e seu aliado mais próximo, Luciano Marín Arango, mais conhecido por seu nome de guerra, Iván Márquez, assinaram os acordos de paz na Colômbia em 2016, haviam prometido se abster de qualquer atividade criminosa.
Mesmo assim, no dia seguinte os mexicanos conseguiram um encontro presencial com Santrich. O ideólogo das Farc, um homem de meia-idade, meio cego, disse a eles para seguirem com a transação da cocaína, mas alertou que não poderia se envolver pessoalmente em razão de seu papel no processo de paz, segundo um documento do Departamento de Justiça.
O que Santrich não sabia, porém, era que os dois mexicanos eram informantes disfarçados do Departamento Antidrogas dos EUA. Os informantes, que faziam parte de uma operação binacional, estavam gravando secretamente suas reuniões presenciais, e a Procuradoria-Geral da Colômbia, na época comandada por Néstor Humberto Martínez, aliado dos EUA, havia grampeado os telefones de alguns dos colombianos.
“Tudo isso remete a uma espécie de emboscada”, diz Adam Isacson, diretor de Supervisão de Defesa da ONG Washington Office on Latin America (Escritório de Washington sobre a América Latina). “Se alguém já estivesse muito paranóico questionando se o governo iria respeitar seu status como guerrilheiro desmobilizado, isso certamente seria a gota d’água para levá-lo ao limite e fazê-lo decidir se rearmar.”
As dezenas de toneladas de cocaína nunca se materializaram. Mas a amostra de cinco quilos do hotel e as horas de conversas gravadas foram suficientes para embasar uma denúncia criminal em âmbito federal, acusando Santrich, Gómez, dois outros colombianos e um estadunidense de conspirarem para traficar o gigantesco suprimento de cocaína. Em abril de 2018, autoridades colombianas prenderam Santrich e os outros suspeitos colombianos.
O Departamento de Justiça de Trump elogiou o Departamento Antidrogas e agradeceu publicamente à Procuradoria-Geral da Colômbia pelo trabalho na “relevante operação policial”. Na Colômbia, a notícia da prisão de Santrich foi espalhada por todos os jornais e televisões. As acusações contra o futuro deputado serviram para confirmar a histeria da direita sobre o acordo de paz: os integrantes das Farc eram criminosos em quem não se podia confiar. O conflito duradouro, a intervenção dos EUA na região e a guerra contra as drogas precisavam continuar.
La Violencia
Em 1948, antes da existência das Farc, o conflito entre os partidos políticos Liberal e Conservador na Colômbia mergulhou o país na violência. Em meio à guerra civil, forças de autodefesa de guerrilheiros e camponeses se levantaram no campo para combater grupos de direita. Esse período, conhecido como “La Violencia”, durou dez anos, mas os grupos guerrilheiros de esquerda, inspirados em parte pela Revolução Cubana, continuaram sua luta, formando um pequeno enclave autônomo no sudoeste da Colômbia, chamado de República de Marquetália. Posteriormente, o exército colombiano invadiu a região, iniciando um período de repressão anticomunista.
As Farc, criadas em 1964 a partir dos resquícios desse conflito, lutavam por um programa de reforma agrária para o campo empobrecido. Durante cinco décadas, com apoio dos EUA, militares colombianos e grupos paramilitares de direita combateram uma variedade de guerrilhas de esquerda, incluindo as Farc. Mais de 200 mil colombianos foram mortos, e mais de 10 milhões foram desalojados.
Seuxis Paucias Hernandez Solarte ingressou nas Farc ainda jovem, em 1991, após anos como organizador estudantil de esquerda e ativista político, até galgar degraus e se tornar membro do alto comando central. Ele adotou o nome de guerra “Jesús Santrich” em homenagem a seu amigo, um líder estudantil que havia sido morto por agentes do governo. O guerrilheiro, que sempre usava óculos escuros e um lenço keffiyeh, se tornou um dos líderes de maior visibilidade das Farc, fazendo discursos inflamados, declarando lealdade aos governos da Venezuela e de Cuba, e supostamente liderando as iniciativas de propaganda política das Farc.
Ao longo do século XX, o governo colombiano, apoiado pelos EUA, também intensificou o combate contra o tráfico de cocaína. Nos anos 90, a Colômbia e os EUA começaram a desmontar grandes cartéis e grupos criminosos que coordenavam o comércio de cocaína; as guerrilhas de esquerda e os grupos paramilitares de direita preencheram o vácuo. A maior parte da cocaína do mundo vem da Colômbia, e as Farc foram responsáveis pelo tráfico de grandes quantidades. Os diferentes grupos militantes do país se associaram a organizações criminosas de todo o mundo, incluindo cartéis mexicanos, para vender drogas, usando os lucros para financiar sua luta política. Em 1997, o governo dos EUA classificou as Farc como organização terrorista estrangeira.
‘[O] Plano Colômbia só serviu para alimentar o conflito no país.’
Dois anos depois, os EUA e a Colômbia lançaram um acordo de segurança, conhecido como Plano Colômbia, que pretendia erradicar o tráfico de drogas e a violência no país. A parceria foi turbinada durante a guerra ao terror, quando o governo dos EUA forneceu mais recursos às forças de segurança colombianas, que depois foram acusadas de crimes de guerra. Washington também ampliou operações secretas da CIA e da NSA para perseguir em segredo os rebeldes de esquerda.
Mas o Plano Colômbia só serviu para alimentar o conflito no país. Após sua eleição, em 2002, o presidente colombiano Álvaro Uribe, de direita, ordenou que os militares empregassem medidas cada vez mais violentas para acabar com o chamado “narcoterrorismo”. As Farc e os grupos paramilitares de direita seguiram o exemplo.
O Departamento de Justiça dos EUA alega que, no começo dos anos 2000, Santrich e seu aliado Iván Márquez cultivavam folhas de coca em plantações na Colômbia e na Venezuela. Eles são acusados de ajudarem a instalar um acampamento das Farc para processar cocaína em 2003, em troca de um pagamento de 300 mil dólares (1,5 milhão de reais) de um associado ao Cartel de los Soles, que seria um grupo criminoso supostamente formado por autoridades venezuelanas, e que os EUA recentemente classificaram como organização terrorista. A denúncia mais recente contra Maduro removeu qualquer menção ao Cartel de los Soles, e os especialistas questionam repetidamente as acusações dos EUA sobre o grupo, dizendo que são exageradas e ele provavelmente não existe.
Em 2012, o então presidente colombiano, Juan Manuel Santos, começou a explorar a possibilidade de negociações de paz com as Farc. A equipe de negociação das Farc incluía Santrich e Márquez, que adotaram uma abordagem linha dura, pressionando por uma redução gradual de suas armas, em vez de um desarmamento imediato. Isso colocou Santrich e Márquez em conflito com outros negociadores das Farc, que continuam envolvidos na política colombiana tradicional. Santrich, em especial, era conhecido por seus longos anos de combate e por sua arrogância, e foi praticamente deixado de lado durante as negociações de paz. Certa vez, um repórter perguntou a ele se as Farc se responsabilizariam perante suas vítimas. Em resposta, ele cantou sarcasticamente, em espanhol: “quizás, quizás, quizás” (“talvez, talvez, talvez”).
A Bênção
O Departamento Antidrogas dos EUA atua na Colômbia com pouca supervisão. Os cargos no escritório de Bogotá são muito cobiçados, mas as operações locais da agência vêm sendo marcadas por denúncias de corrupção. Em 2015, agentes foram acusados de participarem de “orgias de sexo” financiadas por organizações do tráfico de drogas, e de aceitarem armas de grupos paramilitares. E em 2021, um ex-agente foi condenado por associação criminosa para lavar dinheiro para um cartel colombiano.
O informante do departamento que perseguiu Santrich é uma figura furtiva. O Drop Site e o Intercept não conseguiram determinar sua verdadeira identidade. Apenas três coisas se sabe com certeza: ele era chamado de “Marco”, dizia que era do México, e era informante do Departamento Antidrogas desde 1996.
Seu primeiro contato na Colômbia foi Armando Gómez, um conhecido empresário de Bogotá. Em várias entrevistas, Gómez explicou como conheceu Marco por um contato de negócios em 2017. Inicialmente, Marco se apresentou como um mexicano rico em busca de parceiros comerciais na América do Sul para comercializar artefatos pré-colombianos. Marco contratou Gómez para ser seu facilitador colombiano.
“Eu era um subordinado, contratado por Marco para que ele não fosse enganado, e não tivesse problemas de segurança”, conta Gómez. “Hoje, estou convencido de que ele era um ‘encantador de serpentes’, como se diz por aí.”
Foi apenas em meados de 2017, segundo Gómez, que Marco, mencionado nos autos processuais nos EUA somente como “Fonte Confidencial 1”, confessou a Gómez que era um agente do Cartel de Sinaloa, em busca de contatos com integrantes das Farc para fechar um acordo de tráfico de cocaína. Ele queria a ajuda de Gómez.
Ao longo da operação, as ações de Marco foram dirigidas por autoridades dos EUA, segundo um documento do Departamento Antidrogas, apresentado a autoridades colombianas como parte de um pedido de extradição de um dos colombianos envolvidos no acordo de tráfico de cocaína.
Gómez apresentou Marco a Fabio Simon Younes Arboleda, um empresário colombiano de 71 anos. Younes Arboleda, por sua vez, conectou o informante disfarçado do Departamento Antidrogas, Marco, a seu contato nas Farc, um sujeito chamado Marlon Marín, que se tornaria central na operação. Embora não fosse ele mesmo integrante das Farc, Marín é sobrinho de Márquez.
Durante seu primeiro encontro, Marco propôs comprar cocaína para vender em Miami ou no Canadá, segundo um documento do governo dos EUA. Marín garantiu ao informante que tinha acesso a cocaína pura, de alta qualidade.
Marín, uma figura marginal que já estava sob investigação na Colômbia por tentativa de fraude contra o governo, tentou fazer pose de durão, exagerando sua relação com as Farc, segundo o relatório da Comissão da Verdade colombiana. Enquanto os homens continuavam a negociar, Marco pressionava para se encontrar com Santrich e Márquez.
Em agosto de 2017, depois de muita insistência, Marco e outro informante do Departamento Antidrogas finalmente fizeram contato com Santrich, e trocaram gentilezas em um breve telefonema mediado por Gómez. Santrich disse aos mexicanos que “foram feitas incursões em direção a horizontes positivos favoráveis”, de acordo com os registros do Departamento de Justiça.
No final de setembro, Marco e o outro informante do Departamento Antidrogas pagaram 8 mil dólares (40 mil reais) a Gómez, Younes Arboleda e Marín pela entrega da amostra de cinco quilos de cocaína, para selar sua parceria. Em 1º de novembro de 2017, Marín mandou Gómez buscar a mochila marrom com os cinco quilos de drogas de um dos contatos de Marín. O encontro no hotel em Bogotá foi monitorado pela Procuradoria-Geral da Colômbia, segundo documentos acessados pelo jornalista colombiano Edinson Bolaños.
Em sua reunião no dia seguinte, Santrich garantiu aos mexicanos que “se algo desse errado com o negócio, as Farc aceitariam a responsabilidade”, segundo os autos processuais dos EUA. No final do encontro, Santrich desenhou e assinou um esboço, com uma mensagem: “Para Don Rafa Caro, com todos os meus melhores votos e com a esperança de paz”. Rafael “Rafa” Caro Quintero, fundador do Cartel de Guadalajara, era um dos chefões mexicanos mais procurados por seu suposto papel no assassinato de Kiki Camarena, agente do Departamento Antidrogas dos EUA. (Na época, Quintero estava foragido das autoridades. Ele foi preso por agentes mexicanos em 2017, e enviado para os EUA no ano passado. Como Maduro, ele agora está no Centro Metropolitano de Detenção, no Brooklyn, em Nova York, aguardando julgamento.) Santrich disse depois que achava que Caro Quintero era um empresário mexicano interessado em apoiar o processo de paz na Colômbia e projetos relacionados.
Marín também apresentou os informantes mexicanos a Vincent Schifano, um empresário de 62 anos de Miami, que estava participando da licitação de um projeto de oleoduto na Colômbia. Schifano disse aos informantes que lavaria os milhões de dólares da cocaína através do projeto de petróleo, e acrescentou que já vinha “lavando dinheiro há 20 anos – para os italianos, os russos, e agora as Farc”, segundo o depoimento de um agente do Departamento Antidrogas incluído nos registros judiciais.
Marín e as fontes do Departamento Antidrogas se encontraram novamente com Santrich em fevereiro de 2018. Em um vídeo da reunião, divulgado posteriormente pela Procuradoria-Geral da Colômbia, Santrich está sentado à mesa com Marín e uma fonte do Departamento Antidrogas cujo rosto está desfocado. Depois de analisar uma captura de tela do vídeo, enviada a ele pelo Drop Site e pelo Intercept Brasil, Gómez identificou o homem no vídeo como Marco. O outro informante filmou secretamente a reunião, aparentemente com um vape ou algum outro aparelho de fumo, equipado com uma câmera escondida.
“Vocês mesmos precisam cuidar disso para que não haja dificuldade”, diz Santrich aos informantes mexicanos. “Não posso cuidar disso porque estou amarrado aqui. É por isso que vocês precisam organizar o timing (inaudível) seguros e procedimentos, e tudo mais.”
Santrich faz uma pausa enquanto os homens à mesa olham, como se esperassem que ele dissesse mais. “Peço desculpas por tratá-los assim, tão –”
“Não, não, não”, intervém Marcos. “A situação é essa.” Depois de perguntar a Marín sobre o cronograma para entrega das drogas, ele volta para Santrich. “Pode nos dar sua bênção para começarmos esse esforço?”
“Bom, está bem, senhores”, suspira Santrich.
No dia seguinte, Marco voou para a Flórida, para se encontrar com Schifano, o especialista dos EUA em lavagem de dinheiro. Ele e um agente disfarçado deram a Schifano as chaves de um carro com 5 milhões de dólares (25 milhões de reais) em notas falsas no porta-malas. Quando Schifano partiu, foi parado pela polícia, que apreendeu o carro e o dinheiro falso.
Fingindo irritação com a perda do dinheiro, Marco insistiu em uma nova reunião com Santrich e Márquez. Mas Santrich foi avisado da iminência de sua própria prisão, segundo reportagens da imprensa colombiana. “Eles foram obrigados a trabalhar com as poucas provas que tinham”, explica Isacson, do Washington Office on Latin America. “Parecia que o Departamento Antidrogas e seus parceiros colombianos queriam um caso mais robusto.”
Em 4 de abril de 2018, um júri federal no Distrito Sul de Nova York apresentou uma denúncia sigilosa acusando Gómez, Younes Arboleda, Marín e Santrich de associação criminosa para importação de cocaína, e de tentativa de importação de cocaína. Policiais colombianos detiveram Santrich em casa, e apreenderam seus telefones e computadores.
Gómez, Younes Arboleda e Marín também foram presos. Marín rapidamente se voltou contra seus supostos cúmplices colombianos. Ele culpou Santrich, e o acusou de ser o mandante da operação. Fez também um acordo com o governo dos EUA, e foi escoltado voluntariamente para o país. Marín agora é uma testemunha protegida do Departamento de Justiça, e todos os documentos judiciais relacionados ao seu caso estão sob sigilo.
Sacrificando a Paz
Os acordos de paz, ratificados pelo Congresso Colombiano em 2016, resultaram na formação de duas instituições distintas: a Comissão Colombiana da Verdade, encarregada de investigar os crimes cometidos durante o conflito; e a Jurisdição Especial de Paz, conhecida como JEP, um órgão de justiça de transição com competência para processar e julgar esses crimes.
“É uma instituição grande e abrangente, e tem uma responsabilidade enorme”, diz Michael Evans, analista sênior da ONG National Security Archive (Arquivo de Segurança Nacional), que prestou consultoria para a comissão da verdade. “Estamos falando de milhares de pessoas tentando obter alguma sombra de justiça para as vítimas.”
Como parte do acordo de paz, os ex-integrantes das Farc receberam uma garantia de “não extradição” por crimes cometidos até dezembro de 2016. Uma vez que a suposta associação para o tráfico aconteceu em 2017, a extradição de Santrich estava dentro das regras – mas era uma questão delicada e politicamente sensível, considerando sua situação de alta importância como ex-líder guerrilheiro. No primeiro semestre de 2018, quando as notícias sobre a prisão de Santrich circularam pela Colômbia, ele e sua equipe jurídica sabiam que um pedido de extradição ia chegar.
Quando chega uma ordem de extradição para um ex-integrante das Farc, a JEP é responsável por analisar a linha do tempo do suposto crime e decidir se a extradição é possível. A JEP, também imaginando que os EUA solicitariam a extradição de Santrich, imediatamente começou a tentar reunir provas, e enviou diversos pedidos à Procuradoria-Geral da Colômbia e ao governo dos EUA.
Autoridades dos EUA e da Colômbia ignoraram os pedidos da JEP, ou se recusaram a fornecer as provas solicitadas, segundo uma investigação interna da JEP, obtida pelo Drop Site e pelo Intercept Brasil, além de uma queixa-crime posteriormente apresentada pela JEP contra ex-funcionários da Procuradoria-Geral da Colômbia. A obstrução continuou depois que o pedido de extradição finalmente chegou, em junho de 2018.
‘A existência ou inexistência de um acordo de paz em outro país não tem materialidade.’
Kevin Whitaker, que foi embaixador dos EUA na Colômbia durante os governos de Obama e Trump, de 2014 a 2019, disse que a principal preocupação de Washington era colocar as mãos nas pessoas que violaram a legislação dos EUA.
“A existência ou inexistência de um acordo de paz em outro país não tem materialidade”, disse Whitaker em uma entrevista a um podcast, em 2023.
“Essa lei da JEP exigiria que os EUA fornecessem todas as provas em relação aos indivíduos cuja extradição é solicitada. Não é assim que a extradição funciona”, acrescentou. “Não podemos e não iríamos fornecer as informações.”
A obstrução dos EUA e da Colômbia, no entanto, enfureceu as autoridades da JEP. De acordo com um relatório especial da ONU, em novembro de 2023 a JEP havia se pronunciado sobre 72 pedidos de extradição. Em cada um deles, a Procuradoria-Geral forneceu todas as informações solicitadas pela JEP.
Depois que o Tribunal Constitucional, a instância mais alta da Colômbia, decidiu em favor da JEP, a Procuradoria-Geral enviou um pendrive USB contendo gravações de 12 chamadas telefônicas, embora as apurações da imprensa colombiana dessem a entender que a procuradoria e o Departamento de Justiça dos EUA teriam mais de 24 mil gravações. As 12 ligações não tinham nenhuma relação com o caso de Santrich, segundo a queixa-crime da JEP e a avaliação de um escritório de advocacia contratado pela JEP para investigar o caso.
Em setembro de 2018, a Procuradoria-Geral disse à JEP que não poderia fornecer mais provas, porque as outras gravações haviam partido de uma testemunha confidencial do Departamento Antidrogas dos EUA, e já estavam nas mãos das autoridades estadunidenses. Meses depois, em fevereiro de 2019, o Gabinete de Assuntos Internacionais do Departamento de Justiça enviou à JEP uma carta, afirmando que o compartilhamento de provas contrariava a prática dos EUA, e que, de qualquer forma, as provas eram “desnecessárias” para decidir sobre a extradição de Santrich.
Em maio de 2019, a JEP declarou que Santrich não seria extraditado para os EUA, e ordenou sua libertação. Martinez, o procurador geral da Colômbia na época, pediu exoneração em protesto.
Naquele mesmo ano, segundo matérias na imprensa colombiana, o Departamento Antidrogas forneceu informações à Procuradoria-Geral da Colômbia sobre denúncias de corrupção dentro da JEP, com base em uma operação de informantes do governo dos EUA contra autoridades da JEP. O informante do Departamento Antidrogas, passando-se por agente de um cartel mexicano, tentou interferir na análise da JEP sobre o caso da Santrich, e ofereceu às autoridades do órgão dinheiro para impedir a extradição de Santrich. O informante não conseguiu uma reunião com um juíz da JEP, então tentou contato com um procurador da JEP e um ex-senador, Carlos Julián Bermeo. Bermeo foi condenado por aceitar uma propina de 40 mil dólares (200 mil reais); a JEP afirmou que Bermeo não pertencia ao departamento com poderes de decidir sobre pedidos de extradição, inclusive no caso de Santrich.
Retorno às Armas
Treze meses de prisão na Colômbia tiveram um impacto visível sobre Santrich. Sua boca estava ligeiramente aberta e ele ficou de cabeça baixa enquanto os agentes o empurravam para fora do presídio colombiano em uma cadeira de rodas, em 17 de maio de 2019. Santrich, que na época tinha 52 anos, estava preso em La Picota, uma conhecida prisão em Bogotá.
Mas enquanto a imprensa se aproximava do estacionamento do presídio para documentar a libertação do líder guerrilheiro, agentes da Procuradoria-Geral chegaram com um novo mandado de prisão. Enquanto os presentes assistiam, confusos, agentes prenderam Santrich novamente e entraram com ele em um helicóptero.
Para justificar a prisão, mencionaram uma “declaração de Marlon Marín”, em que Marín afirmava que toda a conspiração para traficar 10 toneladas de cocaína teria sido ideia de Santrich. Desta vez, a Suprema Corte da Colômbia interferiu, e determinou a libertação do ex-líder das Farc, afirmando que seu caso seria investigado por um departamento especial dentro da Suprema Corte.
Após sua segunda libertação, Santrich denunciou os governos colombiano e estadunidense, e os acusou de emboscada. Seu colega, Márquez, o apoiou, e declarou nas redes sociais que o governo colombiano havia traído os acordos de paz, e que era “um erro grave” ter entregado as armas para um “estado desonesto”. Se o governo colombiano não iria respeitar o acordo de paz, argumentaram Santrich e Márquez, eles também não. A dupla fugiu para o interior do país em julho de 2019.
Um mês depois, um vídeo circulou pela internet, com Márquez, Santrich e seus companheiros cercados de cartazes e banners políticos, vestindo uniformes militares e segurando armas de fogo. Enquanto Márquez lia em voz alta um discurso escrito, Santrich estava a seu lado, usando um lenço keffiyeh, um par de óculos escuros, e uma boina preta. No vídeo, eles anunciavam que estavam mais uma vez pegando em armas perto da fronteira com a Venezuela.
“Esta é a continuação da luta guerrilheira, em resposta à traição dos Acordos de Paz de Havana pelo estado”, leu Márquez em voz alta. “Tudo isto: a emboscada, a traição, a desonestidade; a modificação unilateral do acordo; as promessas descumpridas pelo estado; a armação judicial; e a insegurança jurídica, nos obrigaram a voltar para o campo.”
Eles chamaram seu grupo dissidente recém-formado de “Segunda Marquetália”, em referência ao enclave estabelecido pelas guerrilhas de esquerda nos anos 50, durante a guerra civil.
Sua guerra contra o governo colombiano iria começar novamente.
Outros ex-integrantes das Farc presumiram que, se negociadores de alto escalão como Santrich e Márquez haviam sido perseguidos, o mesmo poderia acontecer com eles. Entre 2018 e 2021, durante e depois da polêmica de Santrich, 23 grupos dissidentes e derivados das Farcs pegaram em armas, segundo relatou a Comissão da Verdade.
‘Eles preferiam ficar no campo de batalha e lutar contra essas pessoas, mesmo que isso fizesse a guerra durar mais 20 anos.’
Em maio de 2022, grupos militantes derivados das Farc, que abandonaram o processo de paz, ou nunca chegaram a participar, foram responsáveis por pouco mais da metade de todos os homicídios e desaparecimentos no país, segundo a Procuradoria-Geral da Colômbia. Um documento interno de inteligência da procuradoria descreve que as atividades da Segunda Marquetália incluiriam tráfico de drogas e armas, sequestro, extorsão, tráfico de pessoas, garimpo ilegal e recrutamento de menores.
“Além dos políticos do governo Obama, havia um contingente enorme do Departamento de Estado, que fizeram carreira na guerra às drogas, provavelmente militares, que sempre desconfiaram muito do acordo de paz”, diz Isacson, do Washington Office on Latin America. “Eles preferiam ficar no campo de batalha e lutar contra essas pessoas, mesmo que isso fizesse a guerra durar mais 20 anos.”
“Então, se esse era o seu objetivo, não foi um ‘tiro que saiu pela culatra’, eles aparentemente conseguiram exatamente o que queriam.”
Uma recompensa de 10 milhões de dólares
Em março de 2020, foi divulgada uma denúncia diferente contra Santrich, Márquez e Maduro no Distrito Sul de Nova York. Eles eram acusados de narcoterrorismo, associação criminosa para importação de cocaína, e porte de metralhadoras e dispositivos destrutivos, entre outras acusações. Maduro foi acusado de dar cobertura a Santrich e Márquez. No meio daquele ano, o governo dos EUA colocou a cabeça de Santrich a prêmio por uma recompensa de 10 milhões de dólares (50 milhões de reais).
Onze meses depois, a conta chegou. Um informante dentro do acampamento da Segunda Marquetália, nas profundezas da floresta, traiu seu líder.
Ele enviou fotos e a localização exata de Santrich para os responsáveis militares colombianos, segundo notícias divulgadas na imprensa da Colômbia. Ele alertou aos militares que, se queriam matar Santrich, a hora era aquela – o líder guerrilheiro, de 53 anos, estava se despedindo dos companheiros antes de partir para outro acampamento rebelde.
Os comandos militares colombianos reuniram rapidamente suas armas e explosivos. Não se sabe se Santrich estava em território colombiano ou venezuelano, mas quando seu comboio deixou o acampamento, os comandos atacaram os guerrilheiros. Uma forte explosão desorientou o grupo, e tiros rápidos começaram a atingir o comboio de Santrich. Seguiu-se uma breve troca de tiros, mas os guerrilheiros não foram páreo para os comandos bem armados. Quando o tiroteio parou, o corpo de Santrich jazia morto no chão.
Um soldado colombiano se aproximou do cadáver e tirou uma foto. Em seguida, abaixou-se e cortou o dedo mínimo do líder guerrilheiro. Os comandos logo partiram para Bogotá, levando o dedo de Santrich com eles.
Em 1º de dezembro de 2021, depois que as Farc oficiais se desmobilizaram e entraram para a política tradicional, o governo Biden removeu o grupo da lista de terroristas dos EUA. No mesmo dia, foram incluídos dois novos grupos colombianos: a Segunda Marquetália e as Farc-EP, outro grupo dissidente das Farc. A Segunda Marquetália controla parte da rota do tráfico pela fronteira entre Colômbia e Venezuela, e frequentemente enfrenta outros grupos guerrilheiros e paramilitares pelo controle do território, segundo analistas do crime organizado. O grupo também foi acusado de orquestrar o assassinato de grande repercussão de um senador colombiano de direita.
Durante o governo do presidente colombiano Gustavo Petro, de esquerda, o caso Santrich recebeu atenção renovada. Antes de assumir a presidência, ainda em 2020, Petro chamou a operação do Departamento Antidrogas e da Procuradoria-Geral de “emboscada” que violou os acordos de paz. Este ano, ele reiterou essa afirmação nas redes sociais.
Em agosto de 2024, três anos depois que os militares colombianos mataram Santrich, a ONU divulgou um relatório detalhando como o caso Santrich e a falta de resposta às autoridades da JEP interromperam a implementação dos acordos de paz na Colômbia. A operação contra Santrich “pode ter envolvido uso de um agente provocador”, segundo o relatório da ONU, mas o documento não chega a nomear o “agente disfarçado”, nem a vinculá-lo ao Departamento Antidrogas e ao Departamento de Justiça dos EUA.
A investigadora especial que redigiu o relatório da ONU, Antonia Urrejola, não respondeu a vários pedidos de entrevista.
O governo Petro tentou iniciar o diálogo com as organizações criminosas por meio do programa “Paz Total”. Mas esse diálogo, incluindo grupos como a Segunda Marquetália e o Exército de Libertação Nacional, até agora fracassou. Caracas serviu como campo de teste para as negociações entre o governo colombiano e a Segunda Marquetália, mas o debate se desacelerou diante das divisões internas do grupo rebelde. Em março, o governo Petro anunciou que desde novembro de 2024 não houve mais negociações de paz com a Segunda Marquetália. “A Segunda Marquetália nasceu de uma emboscada contra o processo de paz”, disse Petro, no mesmo pronunciamento, “por meio de uma operação de bandeira falsa com agentes do Departamento Antidrogas”.
Esta investigação é uma parceria do Intercept Brasil com o Drop Site News.
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