Criminosos de guerra de Israel estão circulando livremente entre nós?

Mar 12, 2026 - 12:00
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Criminosos de guerra de Israel estão circulando livremente entre nós?

Assim que se espalharam notícias de que os Estados Unidos haviam bombardeado o Irã, assassinando o aiatolá Ali Khamenei, grupos de jovens turistas israelenses na Bahia fizeram suas malas e mudaram seus planos logísticos para retornar o quanto antes a Tel Aviv. Essas imagens circularam entre contas brasileiras nas redes sociais, onde vários comentários elogiavam os jovens pelo seu “compromisso” e “patriotismo verdadeiro”. Imagine só, estar no paraíso em Morro de São Paulo ou Itacaré e, da noite para o dia, ter que abandoná-lo para defender seu país?

Essa narrativa facilmente aceita pelo senso comum demonstra não apenas o desconhecimento e a desinformação que reinam em temas geopolíticos – especialmente referentes a Israel, Irã, Palestina, imperialismo e colonialismo – mas também uma ambiguidade conveniente que tem facilitado a vida de turistas israelenses, especialmente em países do Sul Global: ora, são apenas jovens civis tentando se divertir e relaxar um pouco, buscando um respiro da “vida dura e tensa” em Israel; ora, são reservistas das Forças de Defesa de Israel – IDF, na sigla em inglês – que estavam em serviço ativo há pouco, destruindo casas, assassinando crianças, e perseguindo palestinos em Gaza e na Cisjordânia.

Esses jovens, que andam pelo Brasil com suas dog tags militares penduradas pelo pescoço, não precisam de visto para entrar no nosso país e, portanto, não precisam informar às autoridades brasileiras sobre sua participação em genocídios.

Nem mesmo o fato que seus superiores e líderes, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e o ex-ministro da Defesa Yoav Gallant são investigados por crimes de guerra, com mandados de prisão ativos pelo Tribunal Penal Internacional, o TPI, em Haia desde 2024, mobilizou o governo brasileiro – ou qualquer outro governo latino-americano que reconhece a Palestina – a cogitar a necessidade de escrutinar um pouco mais os israelenses que chegam a nosso país e que passeiam por nosso território colando adesivos com imagens de “soldados israelenses caídos” em muros e árvores.

O primeiro-ministro de Israel é, provavelmente, um dos maiores criminosos de guerra na história recente, mas não interessa ao governo brasileiro garantir que reservistas e soldados que recém-concluíram seu serviço militar durante o genocídio e a limpeza étnica de palestinos tenham seu histórico e motivações analisados cuidadosamente antes de pisarem em nossas terras. Caso Netanyahu pise em solo brasileiro, nosso estado é obrigado a cumprir o mandado de prisão emitido pelo TPI.

Como os crimes dos quais o líder israelense é acusado não poderiam ser cometidos sem a participação ativa de forças armadas tão violentas que os palestinos chamam de “forças de ocupação” e não de defesa, vale indagarmos por que não preocupa as autoridades brasileiras a mera hipótese de que soldados que cometeram crimes de guerra e contra a humanidade estejam circulando entre nós.

A normalização diplomática de Israel

Apesar de movimentações diplomáticas e comerciais que resultaram em algumas medidas de cautela ou reprovação a Israel diante do genocídio, a normalização do estado segue conforme planejado por autoridades e estrategistas sionistas.

Países que se juntaram às denúncias formais ao TPI e à Corte Internacional de Justiça, a CIJ, não necessariamente romperam relações diplomáticas com os israelenses. Até mesmo a África do Sul, notável liderança nas acusações de genocídio e apartheid por Israel, apenas removeu o encarregado de negócios (chargé d’affaires) da embaixada de Israel em Pretoria em janeiro de 2026, por “violação de normas diplomáticas”. O diplomata israelense andava atacando o presidente Cyril Ramaphosa nas redes sociais e convidando oficiais israelenses à África do Sul sem permissão prévia. Antes disso, em 2018, o país africano já havia expulsado o embaixador israelense, mas alguma relação diplomática permanecia mesmo diante dos trâmites na CIJ.

Um forte recado diplomático foi dado pelo presidente da Colômbia, Gustavo Petro, há poucos meses. O país já havia rompido relações com Israel em 2024 e expulsou o que restava de delegação diplomática israelense em Bogotá em 2025, quando Israel interceptou ilegalmente uma das edições da flotilha internacional de solidariedade. Na ocasião, Petro também suspendeu acordos comerciais, ampliando a lenta onda de desnormalização militar, comercial e diplomática de Israel na América Latina.

Apesar do estado da Palestina contar com governos aliados em nossa região e de algum progresso no sentido da denúncia do genocídio, ou da suspensão ou cancelamento de contratos com Israel e suas empresas – como o veto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à aquisição de blindados israelenses da Elbit Systems e o cancelamento feito em 2024 pelo então presidente do Chile, Gabriel Boric, da presença de Israel na Feira do Ar e do Espaço organizada pela Força Aérea Chilena –, um dos maiores trunfos da estratégia de normalização israelense segue intocado: a separação artificial entre os líderes de governo israelense e sua base de cidadãos israelenses sionistas.

Muitos israelenses participaram ativamente da opressão a palestinos

Embora muito se fale do serviço militar obrigatório em Israel, há pouca discussão sobre as consequências disso para o status civil da sua população geral. Muitos países impõem políticas de alistamento obrigatório: Brasil, Coreia do Sul, México, Rússia, Angola, Ucrânia, Suécia, Israel, entre outros.

As regras variam bastante. No México, um sistema de loteria seleciona homens cisgênero, que após um ano de serviço se tornam reservistas até os 40 anos. Na Coreia do Sul, o serviço é exigido de homens cisgênero e varia entre 18 e 21 meses.

O sistema israelense é mais complexo: serviço militar obrigatório para israelenses judeus (independentemente do gênero) e para homens cisgênero israelenses drusose circassianos. O serviço militar varia entre 24 e 32 meses inicialmente, podendo chegar a vários anos em caso de especialização. Após o período, os soldados que não optam por carreira militar permanecem na reserva obrigatória até os 40 anos. A participação de mulheres cisgênero na reserva é menor, por questões de treinamento, idade e outras exceções – como maternidade – mas hoje chega a 20%. Recentemente, o IDF também aumentou o recrutamento ativo de ativamente para a carreira militar,  abrindo cerca de 90% dos postos a todos os gêneros, elevando a participação de mulheres nas forças de combate a 20,9%.

Cerca de um terço dos reservistas gerais são considerados reservistas ativos e podem ser chamados com mais frequência – podendo chegar a quase meio milhão de reservistas em momentos de alta demanda militar. Ainda assim, reservistas podem ser chamados para serviço militar de rotina, cumprindo 55 dias de serviço nesses casos.

A exceção previamente dada aos judeus haredim foi eliminada em 2024, mas há também a objeção de consciência, onde candidatos ao serviço militar se recusam a fazê-lo por razões políticas ou religiosas, além de outras razões e brechas de exceção. Isso quer dizer que caso algum judeu israelense realmente discorde de seu governo e suas ações contra palestinos, ele tem a opção de não participar ativamente nas forças de ocupação.

De fato, a organização Mesarvot estima que, no fim das contas, apenas 50% dos cidadãos israelenses realmente se alistam – lembrando que entre os 10% da população de haredim ainda é possível evitar servir com outras justificativas e que 20% da população isralense é composta de palestinos, isentos do alistamento, que tiveram a cidadania imposta uma vez que o estado de Israel foi criado em seu território em 1948. 

Esses números interessam para mostrar que participar do IDF também é uma escolha e que a narrativa de que judeus-israelenses que servem no exército só o fazem porque são obrigados não confere com a realidade. É claro que existem casos onde a recusa por motivos ideológicos levou a detenções, mas são tantas as brechas para não servir que percebemos como o serviço militar ainda é extremamente naturalizado entre os judeus-israelenses que seguem o caminho do alistamento. Usar as brechas é importante para que um israelense não perca acesso total a benefícios econômicos e uma rede de conexões valiosas associadas ao serviço militar.

Diferentemente do serviço militar brasileiro, onde há treinamento em condições hipotéticas de guerra, o serviço militar obrigatório do jovem israelense é feito em situações bastante reais; ou seja, aqueles que escolhem servir sabem que poderão matar palestinos nesse período, assim como sabem que podem acabar arriscando a vida caso seu batalhão entre em combate. 

De certo modo, uma comparação mais viável seria com soldados russos chamados a servir recentemente e que participaram de ações de guerra classificadas também como criminosas pelo TPI, resultando em um mandado de prisão para o presidente da Rússia, Vladimir Putin. Porém, ainda assim é preciso compreender a extensão da militarização sobre a vida “civil” israelense.

Afinal, há uma porcentagem maior da população israelense envolvida ativamente no exército e uma ainda maior passou pelo exército em algum momento de sua vida – um exército ativado não apenas em momentos de “guerra” (que são vários na história de Israel), mas também todos os dias como exército de ocupação colonial. Embora os soldados russos devam ser responsabilizados junto ao seu comandante, no caso de Israel, a responsabilização é ainda mais ampla.

Considerando as décadas de apartheid e ocupação militar ilegal por Israel na Palestina, é seguro afirmar que virtualmente todo cidadão judeu-israelense que cumpriu serviço militar participou direta ou indiretamente de algum mecanismo de opressão e violência contra palestinos em Gaza, na Cisjordânia, em Jerusalém e no território reconhecido desde 1948 como Israel. Considerando também a anexação ilegal das Colinas do Golã e as operações no Líbano, é possível também que um jovem israelense de 25 anos ou um engenheiro israelense de 35 anos que vem ao Brasil passear como turista tenha participado, em algum momento, de ações concretas de opressão a povos de várias nacionalidades. Reservista ou não, em algum momento, um jovem judeu-israelense que se alistou foi peça ativa de uma engrenagem de opressão colonial, denunciada nas instituições multilaterais globais por violação grave de direitos humanos (inclusive de crianças), apartheid e ocupação ilegal.

Esse entendimento é chave para evitar argumentos rasos de que judeus-israelenses não deveriam ser cobrados pelas atitudes de seu governo. Li algumas versões da seguinte frase recentemente, sobre o desconforto de brasileiros com jovens israelenses que serviram no IDF e que andam de férias por aqui: “Imagina se todo brasileiro fosse achincalhado no exterior durante uma viagem de férias simplesmente porque Jair Bolsonaro era presidente!”.

Às vezes, as comparações feitas demonstram grande ignorância sobre o sistema de educação sionista, a realidade militar de israelenses e o apoio da população israelense geral não somente a Netanyahu, mas à existência do estado de Israel como força colonial de ocupação. Diferentemente do caso brasileiro, a estrutura de opressão em Israel não pode ser reduzida a um governo específico, pois está na origem e razão de ser do estado. E diferentemente da oposição ao governo de Bolsonaro no Brasil, por mais que exista alguma disputa política em Israel, a oposição geral a Netanyahu não se baseia em solidariedade aos palestinos ou a um desejo de descolonização.

O descontentamento é por corrupção, performance econômica e outras diferenças ideológicas, já que pesquisa atrás de pesquisa tem demonstrado, ao longo dos anos, como parcelas significativas da população de Israel, especialmente de judeus-israelenses, apoiam a expulsão de palestinos de todo o território e a atuação do IDF.

A busca por mais soldados

Ao mesmo tempo, Israel enfrenta uma crise com seus reservistas e o recrutamento ao IDF. Se, por um lado, há orgulho e naturalização do papel dos soldados e da estrutura de opressão do estado, por outro, riscos e custos pessoais têm tornado o IDF menos atrativo com o tempo. Já em 2022 argumentava-se sobre o fim das exceções ao alistamento por temores de que a soma entre militares ativos e na reserva não daria conta das “necessidades de segurança” de Israel.

Grandes protestos nas ruas israelenses no ano passado – que chegaram a ser retratados equivocadamente pela imprensa progressista como protestos de israelenses contra o genocídio em Gaza – foram motivados pelas frustrações de israelenses com os gastos de guerra e o frequente chamado de reservistas para retornar ao serviço ativo em Gaza.

Reservistas simplesmente não estão aparecendo quando chamados e há mais casos de “recusas ideológicas”, o que não significa necessariamente apoio aos palestinos, mas desacordo com a lógica militar e os custos pessoais e sociais de guerra.

Por conta disso, o IDF investiu bastante no último período para recrutar reservistas, inclusive em redes sociais, em tom similar ao recrutamento via propagandas no Spotify de israelenses para trabalhar no sistema prisional. Estima-se que 70% das forças militares israelenses são compostas por reservistas, o que significa que as chances de participar de combate ativo são altas e múltiplas para muitos deles.

A realidade do reservista israelense não é como a de um reservista sul-coreano. Além de começar guerras e conflitos armados constantes em sua expansão colonial e imperialista (com o apoio e participação ativa dos Estados Unidos), ao retornar à ativa, sua atuação militar também envolve diversas tarefas como forças de ocupação, desde patrulhas e postos de controle até funções administrativas.

Reservistas ativos também recebem benefícios especiais, como descontos na aquisição de terras para a construção de casa residencial e benefícios fiscais individuais, além de benefícios oferecidos por outras entidades. O Banco de Jerusalém, por exemplo, oferece taxas especiais para reservistas do IDF e a empresa aérea El Al Israel Airlines oferece promoções ocasionais de milhas aéreas adicionais e passagens gratuitas, além de bagagem inclusa, assentos preferenciais e opções de reembolso total para soldados ativos e reservistas.

A facilidade de viajar com a El Al é complementada com o benefício estatal da carteira digital que foi aprovada em um novo pacote de benefícios para reservistas em 2026. Além de subsídios, inclusive para estudos, os reservistas ganham 5 mil novos shekels israelenses (cerca de 1.600 dólares) na carteira que podem ser usados para lazer, além de apoio ampliado de férias.

Tantos benefícios visam compensar reservistas por interrupções à sua vida “normal” sempre que são chamados de volta, assim como lidar com a crise enfrentada pelo IDF, especialmente após a ofensiva desde Gaza em 2023, com baixas, reclamações e cada vez mais recusas ao alistamento.

De férias com o batalhão

Não é incomum encontrar grupos de israelenses viajando o mundo, fazendo atividades turistas comuns, poucas semanas depois de encerrar períodos de serviço militar – convencional e como reservistas – em que participaram ativamente da opressão de palestinos. Recentemente, parece ter aumentado a preferência de alguns desses grupos por terras brasileiras e são vistos por destinos como Morro de São Paulo, Itacaré, Ilha Grande, Rio de Janeiro, entre outros. Os grupos chamam a atenção por várias razões. Uma delas é a prática de colar adesivos em inglês e hebraico com fotos de soldados israelenses mortos em atividades militares de ocupação e ataque a palestinos.

Sua presença tem chamado a atenção negativamente também por relatos de comportamento coletivo problemático: recusa em pagar couvert e 10% de atendentes; barulho, bagunça e lixo; além de histórias envolvendo consumo de drogas ilegais, conflitos com moradores e falta de integração com a cultura local. É também comum que andem com bandeiras de Israel econfrontem e intimidem brasileiros com bandeiras da Palestina. Há, ainda, casos postados em rede social pelos próprios israelenses ou reportados na imprensa em que são racistas com cidadãos brasileiros.

Destinos brasileiros como Morro de São Paulo se popularizaram entre jovens israelenses após a série Malabi Express, de 2012, que conta precisamente a história de israelenses que viajam para o Brasil após cumprir o serviço militar. Outros chegam ao Brasil por conta de festas eletrônicas, como o Universo Paralello Festival ou Suntribe, com participação de DJs israelenses. Há também instituições como o Movimento Chabad-Lubavitch que tem se estabelecido nesses locais. Em alguns casos, os turistas se hospedam em acomodações de israelenses residentes no Brasil. De acordo com reportagem de Malu Vieira do G1, no período pós-carnaval de 2024 – em pleno genocídio em Gaza – 54% dos turistas estrangeiros em Morro de São Paulo eram israelenses.

Esses dados apontam que nossa chance de conviver e nos deparar com soldados que participaram diretamente ou indiretamente de atrocidades contra palestinos não se restringe aos brasileiros com cidadania israelense, recrutados para combate pelo IDF; nem mesmo aos brasileiros que se voluntariam para experiências de atuação como civis dentro das bases militares do exército de Israel. Nossas fronteiras estão abertas, aparentemente sem critério algum, a estrangeiros recentemente ativos em um exército que, por nossa atuação em direito internacional, deveríamos estar escrutinando e examinando cuidadosamente.

Visto livre para israelenses

Israelenses podem visitar 165 países sem necessidade de visto prévio. Em alguns casos, a visita de israelenses é proibida, como à Argélia, Iêmen, Paquistão e Arábia Saudita. Recentemente, as Maldivas também passaram a banir a entrada de pessoas com passaportes israelenses, especificamente por conta do genocídio em Gaza. Em contraste, mesmo países que encerraram algum tipo de relação com Israel continuam permitindo a entrada de israelenses sem qualquer questionamento sobre atividades recentes e envolvimento nas forças militares. Os israelenses não precisam de visto para o México, Brasil ou Chile. No caso da Colômbia, basta preencher um formulário de e-visa online, que passou a ser exigido em reciprocidade, já que Israel impôs a exigência de um visto B-2 para visitantes colombianos meses antes.

A partir disso, podemos concluir ao menos duas coisas:

  • Os governos supostamente solidários à Palestina continuam ignorando que há uma forte ligação entre as décadas de ação estatal colonial de Israel e a consciência e apoio da maioria dos judeus-israelenses. Em 2025, nem as fortes evidências de que Israel estava orquestrando fome extrema em Gaza foram suficientes para mobilizar a população israelense. Cerca de 79% dos israelenses não estavam incomodados com os relatos de fome, segundo pesquisa divulgada em agosto de 2025.
  • Mesmo os países signatários do Estatuto de Roma não parecem preocupados em verificar se soldados que participaram em crimes de guerra e contra a humanidade recentemente estão circulando livremente em seus países, de férias, em festas, shows, praias, trilhas e restaurantes. 

A mera imposição de um visto de turista poderia acrescentar um filtro adicional para verificação de israelenses diretamente ligados ao IDF, bem como poderia afastar visitantes de comportamento problemático. Nos últimos anos, moradores da região patagônica do Chile e da Argentina têm denunciado soldados israelenses de férias por provocarem incêndios, em situação que piorou recentemente, com o surgimento de vídeos que mostram israelenses acendendo fogo em locais proibidos, justamente quando o presidente argentino, Javier Milei, anunciou que iria eliminar limites de compra de terras por estrangeiros e rever a Lei de Manejo do Fogo que restringe certas atividades econômicas após incêndios.

No Chile, a proposta da Lei de Incêndios tramita lentamente no Congresso. No passado, autoridades chegaram a deter israelenses por atividades criminosas e/ou negligentes com fogo na Patagônia e um dos suspeitos, no caso dos incêndios de 2012, foi defendido pelo avô por ser “uma pessoa responsável, que serviu em uma unidade de combate no exército” israelense.

Soldados denunciados e procurados 

Enquanto há quem pense que uma passagem pelo exército israelense comunica honra e responsabilidade, palestinos, aliados e organizações internacionais sabem não ser o caso. Buscando combater a impunidade com que esses soldados têm circulado pelo mundo, a Fundação Hind Rajab, a HRF, na sigla em inglês, apresenta denúncias criminais referentes a soldados específicos quando em países com jurisdição internacional, como a Argentina, Bélgica, Brasil, Chile, Alemanha, Espanha, Suécia, Tailândia e outros.

Até 2025, a HRF já havia iniciado cerca de 100 casos contra soldados israelenses em vários países, usando evidências como os vídeos que esses mesmos soldados postaram nas redes sociais durante o assalto a Gaza.

No caso de turistas, é possível que eles deixem o país visitado no momento ou logo após a denúncia, mas pode haver consequências maiores no caso de soldados com cidadania dupla, além de impactos na percepção de impunidade. Após um caso específico em que o Judiciário brasileiro acatou a denúncia feita pela HRF e determinou uma investigação no começo de 2025, a embaixada de Israel no Brasil agiu diretamente para facilitar a saída do soldado Yuval Vagdani do país – ação que foi classificada pela advogada Maira Pinheiro como uma afronta à soberania brasileira.

O exército israelense então anunciou medidas de “segurança” para proteger a identidade de seus soldados na mídia – claramente preocupado que mais soldados poderiam ser identificados em ações classificáveis como crime de guerra e demonstrando que não há nada de normal na forma de operação do IDF. Um artigo no The Jerusalem Post argumentou que o caso indica que os israelenses deveriam evitar viajar para países signatários do Estatuto de Roma, o que certamente complicaria a vida desses soldados, já que se trata de 125 países no total.

Outros veículos israelenses também alertaram que o Brasil não seria um destino seguro para seus soldados, inclusive pela atuação política do presidente Lula em solidariedade à Palestina, mas isso ainda não foi suficiente para dissuadir os israelenses, que seguem visitando o país em peso.

No começo de março de 2026, a HRF anunciou a denúncia de mais um soldado que esteve no Brasil, Omri Turgeman, integrante do batalhão Shaked da brigada Givati. Seu batalhão está envolvido na destruição sistemática de infraestrutura civil na Cidade de Gaza, no ataque à mesquita Al-Taqwa, e no ataque ao hospital Al-Shifa, onde o IDF foi responsável pela morte e prisão de pacientes e médicos, pelo corte de eletricidade da unidade e pela destruição generalizada da infraestrutura.

Também há posts de Turgeman em redes sociais que celebravam a atuação do exército. A organização pede que o país não seja um abrigo seguro para esses soldados, porém, sem uma arquitetura cuidadosa que avalie melhor os israelenses que entram no país, o Judiciário brasileiro até poderá agir, mas será burlado pelo corpo diplomático israelense e pelos planos de fuga que executam para os seus soldados.

Como proteger espaços e demonstrar solidariedade aos palestinos?

Iniciativas da sociedade civil buscam algum nível de proteção, seja para blindar-nos da presença de soldados que possivelmente cometeram alguma atrocidade recente, seja simplesmente em solidariedade aos palestinos. 

O movimento de Boicote, Desinvestimento e Sanções está ciente do problema ao redor do mundo, e propõe a construção de “espaços livres de apartheid”, também chamados de ELA. Pessoas interessadas podem encontrar mais informações aqui. Há também voluntários, como donos de acomodações, que têm exigido que hóspedes assinem declarações de que não participaram de crimes de guerra, como o caso do japonês Ace Kishi, que eventualmente foi banido das plataformas de AirBnB e Booking – que não possuem problema algum com anfitriões israelenses anunciando acomodações em terra palestina e síria roubada.

Nessa linha, o BDS também lançou o “No room for genocide”, ou“Não há espaço/quarto para o genocídio”, em português. A campanha traz orientações para a sociedade civil, mas sem abrir mão das demandas aos estados, que devem findar a cumplicidade que permite o trânsito livre dos criminosos de guerra, como encerrar os acordos de isenção de visto com Israel e realizar a checagem adequada de israelenses em fronteiras imigratórias para investigar possível envolvimento em crimes de guerra.

Além das campanhas, pessoas podem se voluntariar diretamente com uso de bandeiras palestinas dentro de estabelecimentos e adesivos colados em vitrines e janelas, sinalizando sua preocupação. O envolvimento da população geral com o BDS ainda é uma ferramenta pacífica poderosa, que incomoda autoridades israelenses e governos aliados, porque revela quão conectados os fluxos de colaboração capitalista e política são na cumplicidade com a opressão colonial aos palestinos, sírios, libaneses, e demais povos na região que ousam existir no caminho de Israel. Além disso, mostra que quando governos falham, é possível agir como povo organizado, ora marchando pela Palestina nas ruas da sua cidade, ora assegurando que seu pedaço favorito da praia não será ocupado por quem tem as mãos manchadas de sangue.

Um agradecimento a Bruno Huberman, Gabriel Casnati, Lucas Febraro e Erahsto Felício por comentários ao texto antes de sua publicação.

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