Dados do IBGE revelam perfil demográfico de territórios históricos do 2 de Julho na Bahia

Jul 2, 2026 - 05:00
 0
Dados do IBGE revelam perfil demográfico de territórios históricos do 2 de Julho na Bahia

Levantamento temático da Superintendência Estadual do IBGE na Bahia divulgado nesta segunda-feira (29/06/2026) relaciona os principais cenários da Independência do Brasil na Bahia, celebrada em 2 de Julho, aos resultados do Censo Demográfico 2022, revelando como territórios decisivos da luta contra as tropas portuguesas preservam, em sua composição populacional, marcas históricas, sociais e raciais da formação baiana. O estudo reúne dados de Cachoeira, da Ilha de Itaparica e de bairros de Salvador vinculados à memória da guerra, como Nazaré, Pirajá, Centro e Lapinha, com informações sobre população, raça/cor, gênero, quilombolas, indígenas, envelhecimento e rendimento domiciliar.

2 de Julho une memória histórica e retrato demográfico da Bahia

O 2 de Julho é reconhecido como a Data Magna da Bahia por marcar a vitória definitiva das forças brasileiras na guerra pela consolidação da Independência no estado. Embora a ruptura política do Brasil com Portugal tenha sido proclamada em 1822, a Bahia ainda enfrentou confrontos terrestres e marítimos até 2 de julho de 1823, quando o Exército Pacificador entrou em Salvador.

A luta envolveu homens e mulheres, pessoas negras libertas e escravizadas, indígenas e brancas, em uma mobilização social que ultrapassou o campo militar. O movimento ganhou força em Cachoeira, no Recôncavo Baiano, a partir de junho de 1822, e avançou por locais estratégicos como a Ilha de Itaparica, o Campo de Pirajá e a região central de Salvador.

Ao associar esses espaços aos dados do Censo 2022, o IBGE fornece uma leitura estatística de territórios que não são apenas referências simbólicas da história baiana, mas também áreas vivas, habitadas por populações que expressam a diversidade racial, social e cultural do estado.

Cachoeira concentra memória da resistência e forte presença negra e quilombola

Cachoeira, identificada historicamente como a “Cidade Heroica”, aparece no levantamento como o berço da resistência baiana contra as tropas portuguesas. O município tem 29.250 habitantes e ocupa a 95ª posição entre as 417 cidades mais populosas da Bahia.

A população feminina corresponde a 52,2% dos moradores, com 15.264 mulheres, enquanto os homens somam 13.986 pessoas, ou 47,8% do total. O dado confirma uma predominância feminina semelhante à observada em outros territórios destacados no levantamento.

O recorte racial é central para a compreensão do município. Cachoeira é o 11º município baiano com maior proporção de pessoas pretas ou pardas: são 27.341 moradores, equivalentes a 93,5% da população. O município também ocupa a 12ª posição estadual em proporção de pessoas quilombolas, com 6.972 habitantes, ou 23,8% do total. Além disso, 242 pessoas, correspondentes a 0,8% da população, declararam-se indígenas.

Ilha de Itaparica teve papel estratégico na guerra e mantém maioria preta ou parda

Formada pelos municípios de Vera Cruz e Itaparica, a Ilha de Itaparica foi base estratégica e refúgio das tropas brasileiras durante a guerra pela Independência. Também foi cenário de combates relevantes no processo que culminou na expulsão das forças portuguesas.

Segundo o levantamento, a ilha reúne 62.318 habitantes, dos quais 42.529 vivem em Vera Cruz e 19.789 em Itaparica. As mulheres representam 52,0% da população, com 32.407 moradoras, enquanto os homens somam 29.911, equivalentes a 48,0%.

O perfil racial segue a tendência observada em Cachoeira. Na Ilha de Itaparica, 56.998 pessoas se declaram pretas ou pardas, o que corresponde a 91,5% do total. O levantamento também registra 412 pessoas quilombolas, ou 0,7% da população, e 1.451 indígenas, equivalentes a 2,3% dos moradores.

Salvador reúne espaços decisivos da guerra e contrastes urbanos atuais

Nazaré preserva memória de Sóror Joana Angélica

No bairro de Nazaré, em Salvador, está o Convento da Lapa, local associado ao assassinato da abadessa Sóror Joana Angélica, em fevereiro de 1822, durante invasão de tropas portuguesas que buscavam combatentes brasileiros. O episódio tornou-se um dos símbolos mais fortes da violência do conflito e da participação religiosa e civil na resistência.

Nazaré tem 9.018 habitantes e ocupa a 102ª posição entre os 170 bairros mais populosos de Salvador. O bairro é o 7º mais feminino da capital: 5.145 moradores são mulheres, ou 57,1%, enquanto os homens somam 3.873, equivalentes a 42,9%.

O levantamento mostra ainda que 27,2% dos moradores têm 60 anos ou mais, proporção que coloca Nazaré entre os bairros com maior presença de idosos em Salvador. A população preta ou parda soma 6.285 pessoas, ou 69,7% do total. A renda média dos responsáveis pelos domicílios é de R$ 3.803,40, a 31ª maior entre os bairros da capital.

Pirajá combina memória militar e vulnerabilidade econômica relativa

O Campo de Pirajá foi palco de uma das batalhas terrestres mais decisivas da guerra pela Independência na Bahia. A vitória brasileira no local teve importância militar e simbólica para o avanço das forças que, meses depois, entrariam em Salvador.

O bairro de Pirajá tem 27.873 moradores, sendo o 19º mais populoso da capital. As mulheres representam 54,3% da população, com 15.127 moradoras, enquanto os homens somam 12.746, equivalentes a 45,7%.

Quase metade da população local é formada por adultos de 30 a 59 anos, faixa que reúne 12.819 pessoas, ou 46,0% do total. O bairro também apresenta forte predominância de pessoas pretas ou pardas: são 25.030 moradores, equivalentes a 89,8%. A renda média dos responsáveis pelos domicílios é de R$ 1.732,40, ocupando a 89ª posição entre os 170 bairros de Salvador.

Centro e Lapinha expressam a dimensão cívica do 2 de Julho

A Praça do Campo Grande, localizada no bairro Centro, é o ponto de chegada do Exército Pacificador em 2 de julho de 1823. O local abriga o Monumento ao Dois de Julho, referência cívica da vitória brasileira sobre as tropas portuguesas e marco central das comemorações oficiais.

O Centro tem 8.042 moradores e é o 112º bairro mais populoso de Salvador. Assim como Nazaré, está entre os bairros mais femininos da capital: 4.589 mulheres, ou 57,1%, e 3.453 homens, equivalentes a 42,9%. Também apresenta elevada proporção de idosos, com 2.349 moradores de 60 anos ou mais, ou 29,2% da população.

A população preta ou parda no Centro soma 5.286 pessoas, correspondentes a 65,7% dos moradores. A renda média dos responsáveis pelos domicílios é de R$ 5.358,50, a 24ª mais alta entre os bairros de Salvador, indicador que contrasta com áreas populares de maior densidade demográfica e menor renda.

A Lapinha, por sua vez, é o ponto de partida do desfile cívico do 2 de Julho e abriga os carros e as estátuas do Caboclo e da Cabocla, personagens centrais das celebrações. O bairro tem 4.085 habitantes, sendo o 141º mais populoso entre os 170 bairros de Salvador.

As mulheres representam 56,1% da população local, com 2.293 moradoras, enquanto os homens somam 1.792, ou 43,9%. O levantamento registra ainda que 22,6% dos moradores têm 60 anos ou mais, o equivalente a 924 pessoas. A população preta ou parda soma 3.272 moradores, ou 80,2% do total, e a renda média dos responsáveis pelos domicílios é de R$ 2.497,21, a 55ª maior da capital.

Dados mostram permanência histórica da população negra nos territórios da Independência

O conjunto de informações reunidas pelo IBGE evidencia que os territórios associados à Independência do Brasil na Bahia são majoritariamente formados por populações pretas ou pardas. Essa característica aparece de forma expressiva em Cachoeira, na Ilha de Itaparica, em Pirajá e na Lapinha, áreas diretamente vinculadas à resistência popular e militar.

A presença quilombola em Cachoeira também amplia a leitura histórica do 2 de Julho. Ao registrar que quase um quarto da população do município é quilombola, o levantamento reforça a conexão entre memória da Independência, território, ancestralidade e permanência de comunidades tradicionais.

Outro dado relevante é a presença indígena, com destaque proporcional para a Ilha de Itaparica, onde 2,3% da população se considera indígena. O indicador ajuda a compreender a pluralidade dos grupos sociais que compõem os espaços associados à formação política da Bahia e à construção da soberania nacional.

Diferenças de renda revelam desigualdades entre bairros históricos de Salvador

A comparação entre os bairros de Salvador mostra que a memória histórica do 2 de Julho convive com realidades socioeconômicas distintas. Enquanto o Centro apresenta renda média domiciliar de R$ 5.358,50, Pirajá registra R$ 1.732,40, diferença que aponta para desigualdades persistentes na capital baiana.

Nazaré, com renda média de R$ 3.803,40, e Lapinha, com R$ 2.497,21, ocupam posições intermediárias, mas também revelam contrastes internos entre áreas centrais, bairros populares, espaços de memória cívica e territórios historicamente associados à resistência.

Esses números não reduzem a importância simbólica dos locais, mas demonstram que o patrimônio histórico precisa ser interpretado em conjunto com indicadores sociais. A preservação da memória do 2 de Julho exige também políticas públicas voltadas à valorização territorial, à proteção dos equipamentos culturais, à mobilidade urbana, ao turismo histórico e à melhoria das condições de vida da população residente.

Memória cívica, desigualdades territoriais e dever de preservação pública

A principal contribuição do levantamento do IBGE está em aproximar história e estatística. Os dados do Censo 2022 mostram que os lugares consagrados pela narrativa da Independência não são apenas cenários de celebração anual, mas territórios marcados por população majoritariamente negra, presença feminina expressiva, comunidades tradicionais, envelhecimento populacional e desigualdades de renda.

A Bahia preserva uma memória cívica poderosa, mas ainda enfrenta o desafio de transformar esse patrimônio em política pública permanente. O 2 de Julho não pode ser tratado apenas como rito comemorativo: sua força histórica exige ações continuadas de educação patrimonial, preservação urbana, valorização das comunidades locais e reconhecimento efetivo dos grupos sociais que sustentaram a luta pela Independência.

O post Dados do IBGE revelam perfil demográfico de territórios históricos do 2 de Julho na Bahia apareceu primeiro em Jornal Grande Bahia (JGB).

Qual é a sua reação?

Como Como 0
Não gosto Não gosto 0
Amor Amor 0
Engraçado Engraçado 0
Nervoso Nervoso 0
Triste Triste 0
Uau Uau 0