Daniel Vorcaro diz à PF que conversas com servidores do BC foram institucionais
O banqueiro está preso preventivamente (sem tempo determinado) após fase da Operação Compliance Zero
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O ex-banqueiro Daniel Vorcaro negou que tenha obtido informações privilegiadas do BC (Banco Central) e oferecido vantagens a servidores da autoridade monetária. Em depoimento prestado à Polícia Federal em 28 de agosto, obtido na íntegra pelo UOL, Vorcaro foi questionado sobre trocas de mensagens com dois ex-servidores do BC.O delegado federal Albert Paulo Sérvio de Moura conduziu o interrogatório, que durou mais de 3 horas. Nele, o ex-banqueiro foi diretamente confrontado por capturas de tela de mensagens que teria enviado ao ex-chefe do Departamento de Supervisão Bancária do BC, Belline Santana, e ao ex-diretor de fiscalização do BC, Paulo Sérgio Neves.Em um trecho do depoimento, Vorcaro foi questionado sobre sua relação com Santana e sobre eventual transferência de valores, imóveis ou qualquer outro tipo de vantagem ao servidor.O ex-banqueiro afirmou que teve "conversas institucionais" com ele e negou ter feito transferências diretas com vantagens econômicas ao ex-diretor do BC.Relatou, no entanto, que houve interesse em apoiar um projeto social ligado a Belline, voltado à promoção de pessoas negras em posição de relevância em bancos centrais e instituições financeiras pelo mundo.Nesse momento, Vorcaro afirma que o tema chamou sua atenção durante uma reunião realizada entre o fim de 2023 e 2024. Que ele próprio tinha histórico de atuação em projetos sociais voltados a crianças e jovens, como o Instituto Redut --que encerrou atividades após sua prisão--, e um projeto na África, mantido em parceria com sua filha, então menor de idade.Vorcaro disse que, após a reunião, pediu ao cunhado, Fabiano Zettel, que na época o auxiliava na estruturação dos projetos sociais, que procurasse Belline para avaliar o desenvolvimento da iniciativa. Também teria sido envolvido no contato o advogado Leonardo Palhares, que começava a atuar em outras instituições ligadas às ações sociais do grupo Master."Por isso, quando o delegado pergunta se eu fiz transferência direta de vantagem econômica ao Belline, não houve, a resposta é não, porque houve sim o interesse em apoiar esse projeto", afirmou.O delegado Albert Paulo então pergunta sobre a rede de marketing mantida por Vorcaro com serviços de concierge. A intenção do delegado era entender quais tipos de serviço o ex-banqueiro bancou a Paulo Sérgio Neves em uma viagem aos Estados Unidos.Vorcaro confirmou que o banco mantinha uma estrutura institucional de marketing que incluía serviços de concierge nos EUA, especialmente na Disney, e também na Europa. Segundo ele, a estrutura era custeada anualmente pelo banco e oferecida a dezenas de pessoas, incluindo amigos e conhecidos.Em uma reunião, Paulo Sérgio teria mencionado que faria uma viagem à Disney com a família. Vorcaro disse então que ofereceu o serviço de concierge "como um agrado", que já mantinha a estrutura no local e pediu que um representante procurasse o então diretor do BC.Sobre a proposta de compra do Master pelo BRB, o delegado questiona como foi a atuação de Neves numa tentativa de solucionar o caso."Delegado, eu não sei qual era o pensamento dele, eu sei qual era a postura do Banco Central como um todo, não somente do Paulo Sérgio, como do diretor Ailton [Aquino, diretor de fiscalização do BC], como do próprio presidente [Gabriel] Galípolo, a todo momento era uma postura de concordância e incentivo à conclusão da fusão", respondeu."E depois que a gente faz o pedido e o pleito ali, todas as reuniões que a gente participou sempre eram no sentido de organizar, de solucionar alguns pontos do pleito para que pudesse ser aprovado. Até o final, a gente acreditava que seria aprovado."O delegado então questiona qual o momento em que Vorcaro percebeu que a liquidação do Master seria o caminho mais provável para resolver o rombo financeiro do banco.Vorcaro diz ter percebido logo após sua primeira prisão, em novembro de 2025. Segundo o ex-banqueiro, quando a fusão com o BRB foi negada, ele buscou alternativas no mercado e viajou três ou quatro vezes para os Emirados Árabes Unidos atrás de investidores privados. O objetivo era evitar a tensão midiática gerada pela tentativa de compra pelo BRB.Ainda segundo o UOL, o delegado mostrou capturas de tela de conversas que Vorcaro teria mantido com um contato não identificado dias antes de sua primeira prisão. Albert Paulo não cita que o possível destinatário das mensagens seria o ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal)."No conjunto de notas [mensagens] que já está juntado ao inquérito policial, existe essa nota, o senhor fala sobre uma viagem a Abu Dhabi, fala sobre o Fundo Garantidor de Crédito, continua citando o G e faz referência a outras pessoas, Andrei, Paulo, enfim, eu quero que o senhor explique o que é essa nota", pede o delegado.Vorcaro diz, então, que não se lembra de mensagens em que o contato não é revelado, pois tinha muita interação com diversas pessoas. Ele afirma que conversava muito com pessoas próximas sobre a venda do banco."Então, isso aí, sem dúvida nenhuma, é referente à transação que estava para ser feita do banco com aquelas empresas que eu mencionei, aquelas empresas de investimento", explica o ex-banqueiro.O delegado faz uma nova pergunta sobre quem seriam as pessoas citadas na nota. Ele quer saber a referência ao "G", Andrei e Paulo. Segundo a Polícia Federal, "G" seria Gabriel Galípolo, "Andrei" seria o diretor-geral da PF Andrei Rodrigues, e "Paulo" seria o atual Procurador-Geral da República, Paulo Gonet."Eu teria que me recordar para quem foram as mensagens. Essa mensagem, para eu saber se é quem... (...) Eu não quero fazer inferência aqui sem ter certeza. Eu posso depois responder oportunamente quando eu tiver certeza, para não cometer erro", diz Vorcaro.
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