É possível derrotar o capitalismo?

Agos 25, 2026 - 11:00
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É possível derrotar o capitalismo?

Há décadas, as narrativas dominantes sobre este sistema em que vivemos o apresentam como o único possível: glorificado pelas direitas ou aceito com resignação por aqueles que se apresentam como seus adversários políticos, mas que apenas propõem introduzir algumas regulações episódicas e limitadas à tirania dos grandes capitalistas. Às maiorias nos é reservado o consumo sob demanda de filmes e séries distópicas em plataformas de streaming monetizadas: ficções povoadas por personagens extravagantes que encarnam os ressentimentos de milhões, vinganças planejadas por heróis solitários ou futuros atrozes que nos convidam a aceitar, com resignação, o presente tal como é. 

Então, é possível saltar o cerco desses sentidos estabelecidos, atravessar a fronteira que nos impõe esse discurso dominante e deixar a imaginação voar de verdade? É possível derrotar esse pessimismo que nos prefere conformistas, céticos ou cínicos e liberar a capacidade de projetar outra vida, outra sociedade, outras relações, que hoje estão enclausuradas?

Podemos desafiar a cosmovisão das classes dominantes que se estabelece como o senso comum de toda a sociedade? Somos capazes de imaginar e fazer outros imaginarem a possibilidade de uma nova hegemonia impulsionada pela classe majoritária que move o mundo, encabeçando uma aliança com os setores das classes médias, com a juventude que se rebela, com os movimentos sociais que lutam contra as opressões e a depredação do planeta, para finalmente derrotar o capitalismo? Em diferentes momentos da história, também artistas, cientistas e até personalidades que vêm das classes acomodadas, mas renegam a ordem social que consideram repugnante, abraçam as revoluções que libertam também a criatividade e sensibilidade humanas. 

Este texto é um trecho inédito do recém-lançado livro de Myriam Bregman ‘Moderada nunca’.

Somos de esquerda porque foi assim que a história batizou aqueles que carregam as bandeiras do novo, quando, na grande Revolução Francesa de 1789, a assembleia constituinte debatia calorosamente qual deveria ser o poder do rei Luís XVI. E enquanto os nobres, o clero e os leais à coroa se sentavam à direita de quem presidia a assembleia, os assentos da esquerda eram ocupados pelos representantes do povo, que exigiam uma transformação radical. Uma divisão espacial fortuita, cujo significado continua vigente: entre aqueles que querem conservar os privilégios das classes dominantes e aqueles como nós, que queremos revolucionar tudo.

Somos de esquerda porque, nessa vida que vivemos, imaginamos outra que realmente merece ser vivida e lutamos por ela. Porque rejeitamos a destruição do planeta e que o desperdício de uns poucos se sustente na fome de milhões. Porque nos opomos ao crescimento do racismo, ao machismo que mata, ao trabalho que nos adoece e ao fato de que a solidão e as crises sejam nossos únicos destinos. Porque nos recusamos a naturalizar as injustiças, as desigualdades e iniquidades, e tampouco aceitamos que sejam imutáveis. Porque estamos alertas também contra a maquinaria infernal da (des)informação, que, de tanto nos bombardear com a espetacularização do horror, nos entorpece, adormece e anestesia diante de tanta crueldade inadmissível. Porque não aceitamos de braços cruzados que a desigualdade alcance níveis obscenos, insuportáveis, trágicos; nem que nos convidem a descarregar a angústia e a ira que isso nos provoca em outros mais frágeis e vulneráveis. Porque sentimos repulsa por essa degradação infinita das democracias, com corrupção e negociatas entre a casta política e o empresariado, suas limitações para as maiorias populares, que não mandam nem decidem. Porque lutamos por uma democracia de outro tipo, verdadeiramente radical, que só pode ser alcançada com base na igualdade política e econômica. E porque rejeitamos, também, aqueles que apenas pregam o conformismo, a resignação ou a submissão. 

Somos de esquerda porque tudo isso nos revolta e nos impulsiona a querer transformá-lo. E porque percebemos que é necessário nos organizar para travar as batalhas que nos são impostas, do outro lado, por aqueles que contam seu patrimônio em bilhões de dólares, diamantes, ouro, propriedades, investimentos, grandes extensões de terra e, sobretudo, tempo: o tempo que roubam, cotidianamente, das nossas vidas.

Nós, que somos de esquerda, costumamos ser caricaturados como utópicos, otimistas irrefreáveis, que acreditam que “a revolução virá” e que o futuro socialista da humanidade é inevitável. Para dizer a verdade, algumas vertentes de esquerdas pensaram assim durante o século XX, mas esse não é o nosso caso. Porque, se sustentássemos isso, então sentaríamos placidamente para esperar que os acontecimentos se desenrolassem! Que sentido teria sermos militantes ativos em nossas ideias se o socialismo estivesse inscrito em um devir predeterminado?

Ao contrário, não está definido de antemão como terminarão essas batalhas entre nós e eles. Ainda é preciso travá-las, para honrar a memória das gerações passadas, para legar um mundo melhor às gerações futuras; mas, sobretudo, para defender a alegria em um presente colonizado pelas paixões tristes. Não é verdade que nossas reivindicações sejam impossíveis, como querem nos fazer acreditar. Existem condições materiais para erguer uma sociedade sem exploração nem opressão. Sua concretização dependerá do resultado da luta. Por isso, é preciso ser de esquerda. Além disso, como sustentar a vitalidade do presente senão conspirando coletivamente, todos os dias, para impedir que essa pequena minoria de privilegiados que nos domina consiga o que quer?

Ficha técnica

Moderada nunca: Apontamentos contra a resignação, a submissão e o conformismo, de Myriam Bregman (Editora Iskra, 2026; trad. Vanessa Dias).

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