El Niño: o fenômeno natural que revela desigualdades no território

Set 25, 2026 - 14:00
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El Niño: o fenômeno natural que revela desigualdades no território
O El Niño, fenômeno de natureza oceânico-atmosférica que se caracteriza pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico Equatorial, é capaz de produzir uma série de repercussões ao longo do Globo. No Brasil, seus efeitos não se distribuem de maneira homogênea pelo mapa. Enquanto o Sul do país frequentemente enfrenta volumes pluviométricos severos, responsáveis por cheias de rios, inundações urbanas e perdas significativas de solo agrícola, o Norte e o Nordeste vivenciam o oposto: secas prolongadas que reduzem o nível dos rios amazônicos, isolando comunidades ribeirinhas ao comprometer o transporte, e aprofundam a vulnerabilidade hídrica no semiárido. No Centro-Oeste e no Sudeste, as oscilações de temperatura e a irregularidade das chuvas impactam desde o ciclo das safras até os reservatórios de geração de energia e abastecimento de água. Contudo, o impacto do El Niño no território não pode ser determinado apenas pela quantidade de milímetros de chuva ou pelos graus a mais nos termômetros. O risco de desfechos negativos frente ao fenômeno é função da exposição (pessoas, animais, infraestrutura e bens presentes na área afetada), da vulnerabilidade (fragilidade sócio-econômica e falta de capacidade de adaptação e de resiliência diante do evento); e da magnitude do próprio evento em si. É aqui que a análise geográfica se faz urgente: o El Niño atua sobre um território previamente desigual. Uma mesma tempestade ou onda de calor possui efeitos distintos em um bairro com infraestrutura consolidada e em uma ocupação periférica em encosta suscetível a deslizamentos. Do mesmo modo, o encarecimento dos alimentos decorrente das quebras de safra afeta desproporcionalmente as famílias de menor renda. O fenômeno é natural, mas a vulnerabilidade e o risco são constructos sociais. Apesar de natural, com gênese ainda não compreendida completamente pela comunidade científica, o El Niño conta, hoje, com um abundante insumo de calor oriundo do aquecimento global de base antrópica. O evento de 2026/2027 atua sobre um oceano e uma atmosfera que já estão mais quentes do que a média histórica, potencializando eventos extremos e tornando suas consequências mais imprevisíveis. O evento atual se configurou rapidamente e ainda não atingiu seu ápice, embora já supere os episódios mais marcantes que se tem registro, como os de 1983, 1997 e 2015. Enfrentar esse cenário exige que o poder público deixe de agir apenas após o desastre e avance para a adoção de políticas permanentes de planejamento territorial, adaptação climática, gestão e prevenção ao risco e promoção de justiça socioambiental. É papel da universidade pública, em especial da ciência geográfica, subsidiar os entes da união com diagnósticos precisos e leituras integradas da paisagem e da sociedade. Somente com investimentos em pesquisa, monitoramento preventivo e ordenamento territorial será possível transformar a produção científica em proteção real para a população brasileira diante da inevitável mudança do clima. (*) Rafael Rodrigues da Franca é professor do Departamento de Geografia da UnB (Universidade de Brasília). 

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