Empreendedorismo na Bahia: interior concentra 71% das novas empresas em 2026
O mapa do empreendedorismo na Bahia está mudando, e o interior do estado é hoje o principal motor dessa transformação. Dados da Receita Federal mostram que cerca de 71% das empresas abertas no primeiro trimestre de 2026 estão fora de Salvador, mantendo uma tendência já observada no ano anterior, quando o índice chegou a 73%. A força desse movimento está nos pequenos negócios, que representam 98% das novas empresas abertas tanto na capital quanto nas cidades do interior.Mais do que números, essa interiorização se traduz em histórias de quem decidiu apostar em ideias inovadoras longe dos grandes centros, enfrentando desafios estruturais, mas também encontrando oportunidades únicas.
O que você vai ler nesta reportagem
Em 2026, 71% das novas empresas na Bahia foram abertas fora de Salvador, mostrando um crescimento no interior.
Pequenos negócios representam 98% das novas empresas, destacando a importância da interiorização.
O jovem empreendedor Daniel Madureira criou o Raro Bistrô, impulsionando a gastronomia em Valente com pratos inovadores.
A empresa Puba, criada por Acsa Magalhães e Táris Maria, expandiu suas operações a partir de pesquisas acadêmicas.
Setores de comércio e serviços dominam as aberturas de empresas, e o marketing digital se torna essencial na estratégia de negócios.
O crescimento do empreendedorismo no interior da BahiaFoi o que fez o jovem empreendedor Daniel Madureira, que transformouo antigo bar e alambique do avô em um restaurante no município deValente, na região sisaleira. “Aos 20 anos, larguei a faculdade de Administração e decidi me dedicar ao sonho de cozinhar e ter meu próprio restaurante”, conta a A TARDE.Assim nasceu o Raro Bistrô, com funcionamento restrito aos fins de semana e uma proposta gastronômica pouco comum no interior.A ideia surgiu de uma lacuna percebida pelo próprio Daniel. “Eu sentia falta de um lugar de lazer, de comer algo diferente. Não queria só hambúrguer,pizza ou comida regional”, diz. O início foi simples e criativo: um prato diferente a cada fim de semana — do risoto de camarão à comida mexicana — e um espaço montado com ajuda da família, usando soluções econômicas como móveis de pallet.Para o analista de gestão estratégica do Sebrae Bahia, Anderson Teixeira, histórias como a de Daniel ilustram bem um dos principais desafios de empreender fora da capital: o tamanho reduzido do mercado consumidor.“Em cidades menores, o volume de clientes é naturalmente menor,o que exige modelos de negócio mais enxutos ou estratégias para ampliar o alcance”, explica a A TARDE.
O interior da Bahia é o novo motor do empreendedorismo, com 71% das empresas abertas fora de Salvador no primeiro trimestre de 2026.
No caso do Raro Bistrô, a solução foi apostar na experiência e na diferenciação. Daniel passou a oferecer jantares sensoriais, com ambientação temática e cardápios exclusivos. A estratégia funcionou. Hoje, o restaurante abre apenas um fim de semana por mês, sempre com reservas esgotadas, e atrai clientes de cidades vizinhas. “As pessoas vinham pela curiosidade de provar ingredientes que só viam na internet, como cogumelos frescos, alho poró ou aspargos”, afirma.Adaptação é essencialSegundo Teixeira, essa capacidade de adaptação é essencial no interior, onde o consumidor tende a ser mais conservador. “Tendências chegam mais devagar, o que pode dificultar negócios muito inovadores. Por outro lado, quando há aceitação, o impacto pode ser muito forte na formação de novos hábitos de consumo”, diz.Essa mudança de comportamento é perceptível em Valente. Daniel acredita que seu negócio ajudou a elevar o nível de exigência gastronômica na região. “Hoje, produtos que eu só encontrava em Salvador já são vendidos aqui, porque as pessoas passaram a consumir”, afirma.Se, por um lado, há desafios ligados ao mercado e à logística, por outro, o interior também oferece vantagens competitivas importantes. “O principal ativo é a proximidade com o cliente. Em cidades menores, confiança e reputação valem mais que preço”, destaca o analista do Sebrae.Esse vínculo próximo também foi determinante para o crescimento da Puba, empresa criada pelas pesquisadoras Acsa Magalhães e Táris Maria, em Feira de Santana. A startup nasceu em 2022, a partir de pesquisas acadêmicas com ativos naturais da biodiversidade da caatinga e do cerrado.Inicialmente voltada para insumos cosméticos, a empresa expandiu sua atuação após ouvir o mercado. “Em uma feira, nos perguntaram sobre aplicações no agronegócio. A partir disso, começamos a desenvolver um fotoprotetor para frutas”, conta Acsa.O produto, chamado Plantprotek, utiliza extratos vegetais como alternativa a insumos sintéticos.A decisão de manter a empresa no interior, mesmo diante da possibilidade de migrar para Salvador, foi estratégica. “Pensamos em ir para a capital, mas a logística seria difícil. Feira de Santana tem muita movimentação comercial, e percebemos que era possível crescer daqui”, afirma.
Histórias inspiradoras como a de Daniel Madureira, que transformou o alambique do avô em um restaurante inovador, exemplificam o potencial de negócios na região.
Para Teixeira, esse tipo de escolha reflete uma mudança mais ampla no ambiente de negócios. “Cidades como Feira de Santana, Vitória da Conquista e Barreiras vêm se consolidando como polos regionais importantes, com capacidade de sustentar negócios inovadores”, observa.Apesar disso, o caminho não foi simples. Acsa lembra que o principal desafio foi sair do ambiente acadêmico e adaptar o conhecimento científico à lógica de mercado. “Tivemos que mudar a linguagem, participar de programas de aceleração e aprender a pensar em escala”, diz.A empresa começou a faturar em 2024 e hoje investe no desenvolvimento de novos produtos, como biofertilizantes e conservantes naturais, com planos de internacionalização.Comércio e serviçosDe acordo com o Sebrae, os setores de comércio e serviços lideram a abertura de empresas no interior, com destaque para atividades como transporte de cargas, alimentação, beleza e publicidade.Ainda assim, há espaço para negócios mais especializados, especialmente aqueles que conseguem ultrapassar as limitações geográficas.“Existe uma grande oportunidade em modelos híbridos, que operam localmente, mas vendem para fora, seja por meio do digital ou de atuação regional”, afirma Teixeira.Nesse contexto, o uso do marketing digital se torna uma ferramenta indispensável, mas não suficiente. “O digital não substitui o offline. Ele complementa. É importante usar redes sociais para mostrar bastidores, construir confiança e facilitar o contato, especialmente pelo WhatsApp”, orienta.Foi exatamente essa combinação que ajudou Daniel a expandir a marca do Raro Bistrô para além do restaurante. Ele passou a vender cestas de café da manhã, ovos de Páscoa e panetones, ampliando a presença do negócio na região. “Hoje, as pessoas já conhecem o Raro e vêm em busca de algo diferente”, diz.
Qual é a sua reação?
Como
0
Não gosto
0
Amor
0
Engraçado
0
Nervoso
0
Triste
0
Uau
0