EUA fazem guerra psicológica com sites falsos em árabe

Al-Fassel e Pishtaz News parecem sites de notícias típicos. Eles têm páginas iniciais com um design bem feito e perfis ativos nas redes sociais, onde compartilham matérias e vídeos sobre geopolítica do Oriente Médio em árabe e farsi, respectivamente, além do inglês. O perfil do Al-Fassel no X afirma que a missão da publicação é “investigar acontecimentos de grande relevância que muitas vezes são deixados de lado pela imprensa local e regional, e lançar luz sobre eles”. Já a conta do Pishtaz News no X afirma ter sido criada “para investigar e ampliar notícias importantes que a imprensa local e regional muitas vezes ignora”.
Essas histórias esquecidas compartilham a mesma inclinação ideológica e orientação editorial: as da Casa Branca. A conta do Al-Fassel no YouTube, por exemplo, tem milhões de visualizações de vídeos em árabe elogiando as políticas do governo Trump em Gaza e estimulando o Hamas a deixar de “receber ordens do governo iraniano” e libertar os prisioneiros israelenses. No Pishtaz News, uma enquete na página inicial perguntava, recentemente: “como você descreveria sua crença sobre a atual situação de saúde do Líder Supremo e seu paradeiro”? As possíveis respostas iam de “em boa saúde, mas escondido” a “desfigurado” e “morto”. Um tema recorrente é a excelência das lideranças sauditas ou dos Emirados Árabes, ambos parceiros militares próximos dos EUA.
Mas há um motivo para essa cobertura ecoar os pontos de discussão da política externa dos Estados Unidos: Al-Fassel e Pishtaz News são, na verdade, parte de uma rede de sites e perfis de redes sociais que se passam por legítimos veículos de notícias do Oriente Médio, mas na verdade são fábricas de propaganda política financiadas pelo governo dos EUA, segundo revelou uma investigação do Intercept.
Apenas na parte inferior dos sites, dentro de um link “Sobre” que a maioria dos leitores informais provavelmente não vê, os veículos informam que são “produto de uma organização internacional de mídia com financiamento público do orçamento do Governo dos Estados Unidos”. A filiação ao governo não é divulgada nas redes sociais, como o Instagram, embora haja uma política da plataforma que exige a identificação dos veículos de imprensa estatais para evitar o consumo involuntário de propaganda política do governo.
É pouco provável que a recente fixação dos sites em derrotar o Irã seja coincidência: ambas as publicações compartilham diversas conexões com um portfólio de redações falsas, que surgiram como campanha de operações militares psicológicas contra usuários de internet estrangeiros.
A Al-Fassel e a Pishtaz News não responderam aos pedidos de comentários, nem o Comando Central dos EUA (CENTCOM) ou o Departamento de Defesa.
Em 2008, o Comando de Operaçõe Especiais dos EUA abriu um edital de contratação de fornecedores para ajudar a operar a chamada Iniciativa Web Transregional, TRWI, um projeto que ofereceria “disseminação rápida, sob demanda, de produtos e ferramentas de influência na web, em apoio a metas e objetivos estratégicos e de longo prazo do Governo dos EUA”. Em outras palavras: propaganda estatal promovida pelo Pentágono.
Disfarçados de redações independentes, os sites do programa contratavam “freelancers nativos de conteúdo” para escrever artigos “que os Comandos Combatentes (COCOMs) possam usar conforme necessário, em prol da Guerra Global ao Terror”. O contrato, que foi concedido à empresa General Dynamics Information Technology, resultou em 10 sites que canalizaram argumentos de política externa dos EUA para públicos do Oriente Médio e do Sul da Ásia, publicando de tudo, desde ensaios banais sobre a coexistência interreligiosa até, como noticiado pela revista Foreign Policy em 2011, artigos com o objetivo de “limpar a imagem das ditaduras da Ásia Central”. Em 2014, os sites foram considerados um fracasso pelo Congresso, e perderam o financiamento.
Oito anos depois, uma equipe de pesquisadores publicou um relatório incomum. Após as eleições de 2016, a maior parte do interesse da mídia ocidental na propaganda online estava concentrado nas campanhas de influência atribuídas à Rússia, à China e a outros rivais geopolíticos dos Estados Unidos. Mas o relatório de 2022 do Observatório da Internet de Stanford e da Graphika, uma empresa de análise de internet comercial e fornecedora da área de guerra da informação do Pentágono, descobriu uma rede de falsas contas de Twitter e Facebook “pró-ocidente”, que divulgavam artigos de sites de pseudonotícias. O relatório não chegou a atribuir formalmente a campanha aos EUA, mas observou que Meta e Twitter o fizeram. Os pesquisadores concluíram que os perfis em questão tentaram coordenar a disseminação de artigos de uma rede de sites de notícias falsos criados pelo Comando de Operações Especiais dos EUA.
O relatório mostrou que, apenas alguns anos após a aparente morte da Iniciativa, muitos dos sites simplesmente fizeram um rebranding, agora trazendo um aviso escondido que menciona que eles são administrados pelo Comando Central dos EUA. Após as descobertas de Stanford e da Graphika, alguns desses sites foram encerrados, e outros continuaram. Apuração subsequente do Washington Post descobriu que as embaraçosas revelações levaram o Pentágono a conduzir uma “ampla auditoria sobre a forma de condução da guerra de informação clandestina”.
Uma análise do Internet Archive mostra que, após o relatório de Stanford, os sites da iniciativa TRWI que continuavam em operação mudaram a linguagem dos seus alertas. Os sites não mencionam mais o financiamento do CENTCOM, e agora declaram que são “financiados publicamente pelo orçamento do Governo dos Estados Unidos”. O texto do alerta usado pelo restante da rede de sites de propaganda do CENTCOM é uma cópia do que o Intercept encontrou escondido nas páginas Sobre, dos sites Pishtaz News e Al-Fassel.
Esse não é o único indício que permite supor uma vinculação a essa rede de sites de propaganda militar.
Desde que começaram a publicar, em 2023, os sites Al-Fassel e Pishtaz News citam ou resumem regularmente os comunicados de imprensa do CENTCOM, divulgando operações regionais e sucessos de batalha, assim como os veículos mencionados no relatório Stanford/Graphika. O uso de comunicados de imprensa do comando combatente, em particular, é uma estratégia editorial que remonta à rede TRWI original, administrada pelo Comando de Operações Especiais.
Na rede X, a conta do Pishtaz News segue apenas três outros usuários; dois deles são contas oficiais do CENTCOM para públicos falantes de farsi e árabe. A conta do Pishtaz News no Instagram, que não tem nenhum alerta sobre a natureza governamental do perfil, segue apenas um outro usuário: “US CENTCOM FARSI”.
Intencionalmente ou não, as postagens do Al-Fassel no X frequentemete são georreferenciadas como tendo sido enviadas de Lutz, no estado da Flórida, a poucos passos do quartel-general do CENTCOM e do Comando de Operações Especiais em Tampa, além de uma multidão de fornecedores militares que atendem a ambos.
Os sites também compartilham elementos de design com publicações associadas à rede TRWI, o que sugere que tenham sido criados ou operados pelo mesmo fornecedor.
“Esses sites são semelhantes em estilo às campanhas ostensivas de informação do Departamento de Defesa que já conhecíamos anteriormente” explicou ao Intercept o ex-pesquisador de Stanford e coautor do relatório de 2022, Renée DiResta. “Vimos anteriormente esse padrão de um texto mais claro de afiliação aos EUA na página Sobre do domínio, mas pouca ou nenhuma transparência nos perfis das redes sociais.”
Há outros sinais sutis do verdadeiro propósito dos sites: as URLs das versões em inglês de cada um deles estão indicadas como “en_GB”, ou Grã-Bretanha. Em uma análise pormenorizada conduzida em 2015 sobre a rede TRWI, o doutorando Roy Revie, da Universidade de Bath, observou que os sites da rede de propaganda militar estadunidense marcavam expressamente suas versões em inglês como britânicas, porque “o Comando de Operações Especiais busca evitar qualquer impressão de que seus sistes estejam voltados para o público dos EUA”.
No jargão da guerra de informação, essas formas de propaganda são consideradas “abertas” e não “disfarçadas”, porque seu vínculo estatal é divulgado, tecnicamente. Mas no artigo de 2015, Revie argumenta que esses sites de operações psicológicas ainda assim tentam enganar. Eles usam o jornalismo online como uma espécie de camuflagem, segundo o pesquisador, porque a maioria dos leitores não acessa a página Sobre de um site para saber mais sobre sua forma de financiamento. O design desses sites “permite que o Departamento de Defesa alegue total transparência e mantenha a legimitidade, depositando sobre o usuário o ônus de se informar sobre a fonte”, escreve Revie.
A produção de ambos os sites consistentemente glorifica os EUA e Israel, além dos aliados dos EUA no Golfo. Eles regularmente depreciam o estado iraniano, apresentando relatos completamente enviesados em tempos de guerra. “Os EUA afirmam que não estão em busca de um conflito aberto com Teerã”, diz um artigo de 2 de março no site Al-Fassel. Ambos os sites mencionam reiteradamente matérias de uma publicação chamada Iran International, que é financiada pela Arábia Saudita, é pró-Israel e defende a monarquia no Irã, e tem um longo histórico de apresentar um jornalismo deturpado. Uma matéria de 31 de março no Pishtaz News, por exemplo, baseada em uma publicação da Iran International que só inclui fontes anônimas, afirma que as forças de segurança iranianas teriam estuprado enfermeiras em Teerã.
‘Especialistas disseram ao Intercept que o apresentador era provavelmente criação de IA generativa, não uma imagem genuína.’
Não se sabe ao certo quem escreve o que aparece nesses sites. A maioria dos artigos aparece sem autoria, e outras matérias são publicadas com nomes que é difícil encontrar mencionados em qualquer outro lugar da internet. Parte da equipe pode simplesmente não existir. Um vídeo publicado pelo Al-Fassel no YouTube em janeiro, com um panorama geral de recentes manchetes regionais, era narrado em árabe por um homem vestindo um blazer azul ajustado. Especialistas disseram ao Intercept que o apresentador era provavelmente criação de IA generativa, não uma imagem genuína. “O principal indicativo é que os olhos praticamente não piscam”, disse ao Intercept o professor e pesquisador Sejin Paik, da Universidade de Georgetown, especializado em deepfakes. Zuzanna Wojciak, pesquisador de mídia sintética na Witness, uma organização de defesa dos direitos humanos, chegou à mesma conclusão, mencionando anomalias na pele, nas mãos e nos dentes da imagem.
Alguns artigos deturpam ou falseiam completamente os fatos. Um artigo de 15 de abril no Al-Fassel, sobre as “ameaças de crimes de guerra” do Irã contra a Universidade Americana de Beirute, omitiu o fato de que essas ameaças foram feitas em resposta aos repetidos ataques aéreos dos EUA e de Israel contra escolas iranianas. Um artigo no Al-Fassel descreveu os houthis como “quebrados” e “praticamente desintegrados”, capazes de oferecer apenas “apoio verbal” ao Irã. No dia seguinte, o grupo iemenita lançou mísseis de cruzeiro contra Israel.
‘Vocês serão sistematicamente aniquilados.’
Outros artigos nem tentam se passar por jornalismo, e soam mais como advertências diretamente de Washington: “os Estados Unidos estão totalmente preparados para proteger suas forças no Oriente Médio”, dizia uma manchete de junho de 2025 no Pishtaz News. “Com recursos tecnológicos avançados e pessoal altamente treinado, os Estados Unidos mantêm uma das forças militares mais capazes do mundo, adaptando-se constantemente aos desafios de segurança em curso para manter a ordem e a estabilidade”. Um tweet do Pishtaz News em 27 de março foi ainda mais direto. “Vocês serão sistematicamente aniquilados”, ameaçava, em farsi. “Seus comandantes estão se escondendo em abrigos antiaéreos. Eles mandaram sua família e suas riquezas para o exterior – por que vocês ainda estão lutando por eles?”
Antes da guerra no Irã, uma das maiores prioridades em ambos os sites era fazer publicidade dos planos de Israel para o futuro de Gaza. A mensagem é essencialmente um resumo do consenso entre os EUA, Israel e os países do Golfo: que todo o sofrimento dos palestinos é causado pelo Hamas, não pelos últimos três anos de bombardeios israelenses, e que o “Conselho de Paz” criado por Trump representa uma era de prosperidade sem precedentes para os palestinos.
Após as eleições de 2016 e o pânico em torno dos esforços russos de propaganda, as principais plataformas estadunidenses de redes sociais começaram a adicionar rótulos para os perfis de veículos de mídia controlados por governos. Vídeos da conta da Al Jazeera em inglês no YouTube, por exemplo, são exibidos com um aviso de que “a Al Jazeera é financiada, integral ou parcialmente, pelo governo do Catar”. Embora o X tenha abandonado essa política em 2023, ela ainda está prevista na documentação da Meta, proprietária do Facebook e do Instragram, e do YouTube.
No entanto, não há alertas nas publicações do instagram, nem nos perfis do Al-Fassel, nem do Pishtaz News. Os vídeos de ambas as contas no YouTube não incluem nenhum aviso sobre financiamento pelos EUA; no entanto, um curto alerta pode ser encontrado nas páginas principais, escondido na seção Sobre, que precisa ser expandida para ser lida.
Nenhum dos sites parece ter um público especialmente grande nas redes sociais. Ambos têm poucos seguidores no X – o Al-Fassel tem 2.400, e o Pishtaz News, apenas 132 – e muitos desses são aparentemente contas de spam, com nomes acompanhados de longas sequências de números, que adotam comportamentos de publicação comuns em redes de spam. O Al-Fassel tem um engajamento modesto no Instagram, onde tem mais de 7.700 seguidores. Embora o Pishtaz News tenha apenas 475 seguidores no Instagram, suas postagens às vezes viralizam; uma publicação de 18 de maio, de imagens do CENTCOM filmadas no convés de um porta-aviões, por exemplo, teve mais de 1.100 curtidas.
Emerson Brooking, pesquisador do Laboratório de Pesquisa Forense Digital do centro de pesquisas Atlantic Council, e ex-consultor do Pentágono em políticas cibernéticas, acredita que o CENTCOM deve estar por trás dos sites, e que seu alcance, de forma geral, é precário. No que se refere à propaganda política na internet, ele diz, os EUA “poderiam aprender algumas lições com o Irã”. Os esforços iranianos de propaganda – em geral produzidos rapidamente com slop de IA – chamaram atenção na internet de uma forma que as redações de mentira dos EUA não conseguiram.
Uma rede de sites de propaganda raramente lidos não parece ter muito propósito. Mas, segundo Brooking, é o tipo de coisa que as autoridades podem apresentar, quando questionadas sobre seu trabalho para combater o Irã no “espaço da informação”. “Sucessivas lideranças do SOCOM ou do CENTCOM, ou outros de alto escalão, podem apontar para o fato de que estão mantendo essa rede de sites”, diz.
Nota da Editora: O artigo original foi resumido para simplificar a leitura do público brasileiro. O original pode ser encontrado no site do Intercept EUA.
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