Extrema direita conquista maioria no Senado e poder para abrir processo de impeachments de ministros do STF

Out 6, 2026 - 11:00
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Extrema direita conquista maioria no Senado e poder para abrir processo de impeachments de ministros do STF

A extrema direita avançou no plano para dominar o Senado. Não foi com força suficiente para garantir votos para o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal, o STF, sem apoio do Centrão, mas o grupo liderado por PL, PP, Republicanos e Novo conquistou a maioria da Casa, que garante poder para tomar a presidência do Senado em 2027 e dar a largada no movimento para destruir o STF.

A onda de extrema direita no Senado foi avassaladora: 27 senadores do grupo foram eleitos neste domingo, 4 de outubro, e se somam aos 16 que já têm mandato até 2030. No total, serão 43, ou seja, 14 a mais do que os que exerciam mandato até 1º de agosto de 2026. O levantamento do Intercept Brasil considera que pertencem ao grupo os políticos filiados ao PL, PP, Republicanos e Novo.

Foi na região Sul que a extrema direita teve o melhor desempenho: ganhou todas as seis vagas disponíveis no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e no Paraná – se Deltan Dallagnol perder a vaga por decisão do TSE, o ocupante será Alexandre Curi, do Republicanos, outro candidato do mesmo campo político. 

Já no Centro-Oeste e no Sudeste, elegeu seis dos oito senadores possíveis em cada uma dessas regiões – incluindo as duas vagas de São Paulo, Rio de Janeiro, Distrito Federal e Mato Grosso do Sul. O grupo ainda teve desempenho regular no Norte (6 de 14 vagas) e foi muito mal no Nordeste (só 3 de 18).

Dos seis senadores da extrema direita que disputaram a reeleição, três venceram, todos do PL: Márcio Bittar, no Acre, Carlos Portinho, no Rio de Janeiro, e Eduardo Gomes, no Tocantins. Foram derrotados Ciro Nogueira, do PP do Piauí, Angelo Coronel, do Republicanos da Bahia, e Esperidião Amin, do PP de Santa Catarina.

Com a maioria na Casa, a extrema direita não precisará costurar alianças com o Centrão para conquistar a presidência do Senado, o que exige 41 votos, obtendo poderes para fazer avançar processos envolvendo a punição de autoridades, como, por exemplo, dos ministros do STF e do procurador-geral da República.

Considerando que saiu das urnas neste domingo com 43 senadores, faltaram apenas 11 para o grupo conquistar os 54 votos capazes de aprovar o impeachment de ministros do STF – embora muitos eleitos de partidos da centro-direita apoiem a ideia e possam se tornar aliados neste objetivo.

O levantamento do Intercept aponta que o Brasil elegeu 16 senadores de centro-direita – filiados a MDB, Podemos, PSD, PSDB e União Brasil.

Muito enfraquecida e com suas principais apostas perdendo por larga vantagem, a esquerda conquistou somente 6 vagas, todas com o PT — 5 delas no Nordeste, seu maior reduto eleitoral. 

Nas outras regiões, teve apenas uma vitória, em Minas Gerais, com Marília Campos. Já a centro-esquerda terá 5 senadores, representando PSB, Rede e PDT – 4 destas vagas no Nordeste e uma no Espírito Santo.

O primeiro teste da nova configuração do Senado será a eleição para a mesa diretora em fevereiro de 2027, logo após o recesso do Congresso. O comando da Casa é estratégico porque cabe ao presidente do Senado decidir, individualmente, se um processo de impeachment de ministros do STF terá seguimento ou não. 

Em agosto de 2025, por exemplo, a oposição disse ter conseguido 41 assinaturas para levar adiante o impeachment do ministro do STF Alexandre de Moraes, mas o presidente Davi Alcolumbre, do União Brasil do Amapá, não deu a largada no processo. Caso a extrema direita comande o Senado, o resultado pode ser diferente.

O tamanho da força da extrema direita no Senado, entretanto, ainda depende do 2º turno das eleições estaduais. É que Alan Rick, do Republicanos do Acre, está em meio de mandato – foi eleito em 2022 – e ainda pode assumir como governador. O suplente dele, Gemil Junior, é filiado ao PSD, que é de centro-direita.

Outros cinco senadores da extrema direita em meio de mandato tentaram a vaga ao governo do estado. Três perderam em primeiro turno, todos do PL – Wilder Morais, em Goiás, Wellington Fagundes, no Mato Grosso, e Efraim Filho, na Paraíba.

Por outro lado, dois venceram em 1º turno. Cleitinho, do Republicanos, ganhou em Minas Gerais e, com isso, deixará a vaga no Senado para o suplente Alex Diniz, do PL. Já no Paraná, Sergio Moro, do PL, saiu vitorioso – no seu lugar, assumirá o suplente Luis Felipe Cunha, que é filiado ao União Brasil, de centro-direita.

SP e RS contrariam pesquisas e não têm disputas acirradas

Diferentemente da Câmara, onde as vagas de deputado federal são calculadas proporcionalmente à população, no Senado cada estado tem três congressistas. E a análise regional da disputa política mostra como a extrema direita deu passos firmes em 2026.

Enquanto aumentou sua representatividade no Centro-Oeste (de 5 para 10 senadores), Sudeste (de 5 para 9), Norte (de 7 para 9) e Sul (de 5 para 9), houve redução apenas no Nordeste, mas mínima (de 7 para 6).

As pesquisas anunciavam uma disputa marcada por duelos acirrados. Mas, nas urnas, isso não se confirmou. Foi o caso de São Paulo, em que Guilherme Derrite, do Progressistas, e André do Prado, do PL, derrotaram com facilidade Marina Silva, da Rede, e Simone Tebet, do PSB. Agora, o estado tem três representantes da extrema direita, já que Marcos Pontes, do PL, tem mandato até 2030.

Já no Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro não concorreu à reeleição para disputar a presidência. Mesmo assim, o PL demonstrou força nas urnas com Carlos Jordy e Carlos Portinho – que derrotaram a tentativa da esquerda, em especial com Benedita da Silva, do PT, de conquistar ao menos uma das cadeiras.

Outra disputa que se previa equilibrada era a do Rio Grande do Sul – mas não foi o que aconteceu. Como Luis Carlos Heinze, do PP, e Paulo Paim, do PT, não disputaram a reeleição, o estado elegeu dois novos senadores. Ubiratan Sanderson, do PL, e Marcel Van Hattem, do Novo, conquistaram mais de 30% dos votos e tiraram uma vaga antes pertencente à esquerda.

No Norte, porém, fracassou a estratégia da extrema direita de transferir o domicílio de Helio Bolsonaro, do PL, do Rio de Janeiro para Roraima. Mesmo prestigiado à distância pelos aliados, o pupilo de Jair ficou apenas na 5ª posição, com 12,97% dos votos. 

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Por outro lado, em Santa Catarina, Carlos Bolsonaro levou a melhor e garantiu uma das vagas depois de ter deixado o Rio de Janeiro para tentar se eleger no Sul. O filho do ex-presidente venceu o duelo com Esperidião Amin, do PP, que é uma das referências da extrema direita no estado e tentava a reeleição. Carlos conquistou mais de 25% dos votos dos votos e ficou em segundo lugar, atrás de Carol De Toni, também do PL, que era deputada federal e agora vai para o Senado.

O grande destaque da extrema direita na eleição, no entanto, foi Michelle Bolsonaro, do PL. A ex-primeira-dama estreou nas urnas na disputa ao Senado no Distrito Federal e venceu com mais de 29% dos votos. De quebra, teve a companhia da deputada federal Bia Kicis, também do PL, que derrotou Leila do Vôlei, do PDT, que buscava a reeleição.

Por que a extrema direita mira o Senado

A estratégia da extrema direita para dominar o Senado começou em 2024 e sempre teve como objetivo principal fazer uma “limpa no STF”, como disse à época o deputado federal Gustavo Gayer, do PL de Goiás, que foi eleito neste domingo e assumirá uma vaga no Senado em 2027. 

“Dependendo do número de senadores que elegermos em 2026, não será apenas o Alexandre de Moraes que vai sair da Suprema Corte”, afirmou o parlamentar em um post no Instagram, em 2024.

Para chegar ao objetivo em 2027, o primeiro caminho é conquistar o comando do Senado em fevereiro, o que permite não só dar a largada como votar a abertura de processos no plenário, desde que tenha maioria simples – 41 votos. Para efetivar o impeachment de um ministro do STF, no entanto, são necessários 54 votos. 

Mas não é só isso que atraiu a extrema direita para o Senado. Afinal, a Casa tem outro importante e exclusivo poder: processar e julgar outras autoridades por crimes de responsabilidade – incluindo o presidente, o vice-presidente e o procurador-geral da República, por exemplo – e até aprovar uma eventual demissão do PGR antes do fim do seu mandato.

Os senadores ainda são responsáveis por aprovar ou vetar a escolha de autoridades para ocuparem cargos públicos, incluindo ministros de tribunais superiores, ministros do Tribunal de Contas da União, presidente e diretores do Banco Central, o próprio procurador-geral da República, bem como titulares de outras posições importantes (veja a lista completa).

Fora isso, a extrema direita tem interesses políticos com o domínio do Senado. Como os senadores têm oito anos de mandato, os eleitos neste ano têm a chance de concorrer na eleição de 2030 a cargos como governador ou presidente sem ter que botar a vaga em risco – o que acaba sendo um trunfo para conquistar mais poder nos estados.

Outro fator é a aprovação ou rejeição de projetos, independentemente se Flávio Bolsonaro ganhará ou não a Presidência da República. Como o sistema político brasileiro prevê que as propostas legislativas tenham aprovação na Câmara e no Senado, garantir a maioria dos senadores permite, na prática, barrar qualquer proposta em plenário.

Além disso, uma força expressiva no Senado assegura à extrema direita um espaço para colocar em votação pautas que não consegue atualmente fazer avançar na Câmara dos Deputados por conta da complexidade de articular com uma quantidade maior de políticos – afinal, lá são 513 deputados federais, número seis vezes maior do que o total de senadores.

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