Flávio Bolsonaro e Ronaldo Caiado deixam golpismo à mostra

Abr 5, 2026 - 11:00
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Flávio Bolsonaro e Ronaldo Caiado deixam golpismo à mostra

Na semana de aniversário do golpe de 64, não faltou gente para acender as velinhas do bolo. Os presidenciáveis que pagam tributos ao golpismo saíram da toca e se sentiram livres, leves e soltos para desfilar o seu desprezo pela democracia. 

Primeiro foi o candidato do golpismo, Flávio Bolsonaro, que chegou aos Estados Unidos de joelhos para oferecer as terras-raras brasileiras para bajular o golpista americano Donald Trump. Durante participação em um convescote da extrema direita americana, o filho do ex-presidente golpista manteve o legado entreguista do seu pai e ofereceu o Brasil como solução para os EUA. “O Brasil é a solução para que os Estados Unidos não dependam mais da China em terras-raras e minerais críticos”, disse, enquanto balançava o rabinho para o Tio Sam. 

Flávio Bolsonaro discursa durante Conferência de Ação Política Conservadora, CPAC, nos Estados Unidos. Foto: Reuters/Folhapress
Flávio Bolsonaro discursa durante Conferência de Ação Política Conservadora, CPAC, nos Estados Unidos. Foto: Reuters/Folhapress

É incrível a capacidade que o bolsonarismo tem de nos surpreender, mesmo quando já estamos esperando o pior. Nem os ditadores militares chegaram nesse nível de sabujice! Havia alguma dignidade patriótica nos velhos facínoras, ainda que meramente performática. Já os seus herdeiros não sentem a menor vergonha em rastejar e desnudar o seu patriotismo de fachada. 

O discurso inteiro foi essencialmente entreguista e golpista. O bolsonarista implorou para que os EUA voltem a impor as sanções contra o país: “Apliquem pressão diplomática para que nossas instituições funcionem adequadamente”. Ele não diz o que seria exatamente essa “pressão diplomática”. Seria a volta do Xandão para a Lei Magnitsky? Seriam aqueles bombardeios no Rio de Janeiro que ele pediu? Ou seriam as bombas atômicas caindo em solo brasileiro, coisa que ele já cogitou?  

Aproveitou para atacar o ex-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, dizendo que ele interferiu nas eleições brasileiras para “instalar um socialismo que odeia a América” — um devaneio bem ao gosto dos maluquinhos do MAGA. O sabujo estava mesmo desesperado por alguma migalha de atenção de Trump.

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A focinheira invisível da grande imprensa

Na imprensa, o discurso de Flávio deveria ser tratado como escândalo, afinal de contas, temos um pré-candidato à presidência da República, muito bem posicionado nas pesquisas de intenção de votos, prometendo entregar um tesouro brasileiro para uma potência estrangeira em troca de interferência nas eleições. Golpismo, entreguismo e palavras similares deveriam estar em todas as manchetes e análises sobre o assunto. Mas, como sabemos, a onda na imprensa agora é tratar “Flávio” como um homem moderado, o mais equilibrado da família, um Bolsonaro de focinheira. 

Mesmo assim, eu esperava alguma contundência jornalística diante do absurdo. O que se viu foi o mais puro jornalismo declaratório, com manchetes que reproduziam com naturalidade um crime de lesa-pátria sendo preparado à luz do dia. Vejamos algumas manchetes: “Flávio Bolsonaro segue os passos do pai e planta sementes da desconfiança eleitoral”; “Nos EUA, Flávio Bolsonaro pede pressão diplomática para que eleições tenham ‘valores de origem americana’”; “Nos EUA, Flávio Bolsonaro compara pai a Trump, critica Lula e diz liderar corrida eleitoral”. Tudo foi suavizado nas manchetes. 

Foi um evento gravíssimo, perigoso para a soberania do país e ameaçador à democracia. Mas, como diria Gilmar Mendes, foi tratado como “um domingo no parque”. O único veículo que não seguiu a boiada foi o site Meio, que manchetou: “Flávio Bolsonaro pede intervenção dos EUA no Brasil”. Fez o arroz e feijão do jornalismo e destacou a única coisa que merecia ser destacada.  

Caiado quer anistiar golpistas

Outro evento escandalosamente golpista e que também foi tratado como algo corriqueiro foi o lançamento da candidatura presidencial de Ronaldo Caiado. No seu discurso, ele prometeu que seu primeiro ato como presidente eleito será a “anistia ampla, geral e irrestrita”, incluindo para o líder da gangue golpista Jair Bolsonaro. Temos aqui o governador do estado de Goiás prometendo soltar os bandidos que destruíram os prédios dos Três Poderes e tentaram um golpe de estado. Isso não deveria ser tratado como algo normal, mas é.

As poucas críticas que se veem geralmente são cheias de dedos, com muita moderação, por medo de desagradar a parte relevante da população que chafurda nessa lama ideológica. Vivemos tempos em que um governador, historicamente alinhado aos golpistas de 64, não se sente constrangido em defender a soltura de golpistas que a democracia prendeu.  

Ronaldo Caiado lança sua candidatura à presidência em São Paulo. Foto: Agência Efe/Folhapress
Ronaldo Caiado lança sua candidatura à presidência, em São Paulo. Foto: Agência Efe/Folhapress

Caiado disse que a anistia servirá para pacificar o país e livrá-lo da tal “polarização”. É como se ele fosse um outsider e não alguém que está alinhado à direita mais reacionária desde o início da carreira política. A “polarização” é um conceito tão banalizado pela imprensa que Caiado não teme a contradição de prometer livrar golpistas da cadeia e, ao mesmo tempo, se apresentar como uma terceira via. Em tempos de golpismo, a polarização essencial é entre democratas e golpistas, o resto é perfumaria. O polo do Caiado sempre foi bem claro.

Ninguém mais tem vergonha de ser golpista no Brasil. Desde a redemocratização até a chegada do bolsonarismo, essa direita que odeia a democracia não tinha coragem de colocar as asinhas pra fora. Hoje temos pelo menos duas candidaturas presidenciais cujo principal projeto de governo é livrar da cadeia os canalhas que tentaram destruir a democracia. Mas na imprensa parece que está tudo normal. O noticiário segue neutro. o colunismo segue majoritariamente isentão e covarde. E, assim, o golpismo vai sendo naturalizando como corrente política.

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