Governo Trump exclui pesquisadores de discussão global de surtos de vírus

Mai 25, 2026 - 19:00
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Governo Trump exclui pesquisadores de discussão global de surtos de vírus

Autoridades responsáveis por liderar pesquisas dos Estados Unidos sobre ameaças de doenças infeccionas foram impedidas de se comunicar diretamente com a OMS (Organização Mundial da Saúde), de acordo com documentos e múltiplas fontes que falaram à CNN.

Efetivamente, isso excluiu alguns deles das discussões globais sobre surtos de vírus.

O governo de Donald Trump emitiu a diretiva que impede indivíduos do Niaid (Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos EUA, na sigla em inglês) de se comunicarem com a OMS.

A subagência federal de saúde foi liderada por décadas pelo doutor Anthony Fauci e supervisionou o desenvolvimento de tratamentos para emergências de saúde pública, incluindo HIV/AIDS e Covid-19.

Essa proibição permanece em vigor em meio a um surto de hantavírus ao qual alguns americanos foram expostos.

As restrições de comunicação foram ligeiramente relaxadas na última semana, à medida que outro surto de vírus — uma epidemia de Ebola em desenvolvimento centrada na República Democrática do Congo — se intensificou.

Agora, alguns integrantes do Niaid podem participar de reuniões virtuais da OMS, mas apenas em pequenos grupos e em “capacidade de escuta”, de acordo com um e-mail de 18 de maio de um alto funcionário do instituto que foi enviado para a equipe, ao qual a CNN teve acesso.

Qualquer acompanhamento dessas reuniões seria feito pelo Departamento de Saúde e Serviços Humanos, agência-mãe do Niaid.

“Operaremos da mesma forma para o Ebola como temos feito para o Hantavírus, reunindo um pequeno grupo de especialistas — não mais do que três — para participar”, dizia o e-mail.

“Caso tenhamos perguntas legítimas de pesquisa ou ideias para testes de contramedidas, podemos apresentá-las por meio da cadeia de comando adequada”, adicionava o texto.

As restrições prejudicam a cooperação rápida com contrapartes globais, avaliaram diversos funcionários e ex-funcionários da área de saúde. Uma das fontes classificou a situação como algo inédito durante emergências de saúde pública.

Recuo dos EUA de participação em fóruns de saúde

A diretriz faz parte de um recuo mais amplo da administração Trump da participação em fóruns globais de saúde — os EUA se retiraram da OMS em janeiro, por determinação do presidente, uma medida amplamente criticada por autoridades de saúde pública.

Além disso, muitas agências de saúde dos EUA operam atualmente com chefes interinos.

Entre os cargos vagos estão o diretor da agência de doenças infecciosas; o cirurgião-geral; o chefe da FDA (Food and Drug Administration); o secretário adjunto de saúde; e o chefe dos CDC (Centros de Controle e Prevenção de Doenças) — um vácuo de liderança que observadores dizem ser sem precedentes.

Um porta-voz do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos afirmou que o órgão “se envolve com a OMS para apoiar o compartilhamento de informações e a coordenação durante surtos de doenças infecciosas” por meio do CDC — que está presente nos surtos de doenças — e está “totalmente equipado para proteger os americanos e mitigar riscos”.

“Equipes em todo o departamento coordenam as principais áreas de resposta, incluindo rastreamento de contatos, diagnósticos e contramedidas médicas, para evitar duplicação e reduzir a confusão nos esforços de resposta a surtos”, disse o porta-voz.

Vácuo de liderança na saúde

Quando passageiros americanos de um navio de cruzeiro afetado por um surto de hantavírus desembarcaram no Nebraska, foi o secretário-assistente de Saúde, Brian Christine, quem foi enviado ao hospital de Omaha, onde os pacientes estavam sendo monitorados.

Christine não está no comando da resposta do governo ao hantavírus, mas foi enviado como o rosto público da administração federal porque um funcionário de saúde de nível mais alto não estava disponível, de acordo com uma fonte.

No início deste mês, Trump indicou seus terceiros candidatos tanto para cirurgião-geral quanto para diretor do CDC.

O cargo de cirurgião-geral — comumente conhecido como o médico da nação — nunca foi preenchido neste governo. O único diretor confirmado do CDC serviu por menos de um mês.

É improvável que os cargos sejam preenchidos em breve. A documentação para confirmação pelo Senado ainda não foi protocolada para nenhum dos dois, e não há plano imediato para levar os indicados a audiências na Casa legislativa, de acordo com pessoas familiarizadas com a logística.

A FDA perdeu seu comissário neste mês, e vários altos funcionários do CDC deixaram a agência no ano passado e não foram substituídos.

O fato de tudo isso acontecer ao mesmo tempo é um momento sem precedentes para a liderança nacional de saúde, disse o doutor. Dan Jernigan, ex-funcionário do CDC que renunciou após o secretário de Saúde dos EUA, Robert F. Kennedy Jr., destituir a doutora Susan Monarez, a única diretora da agência confirmada deste governo, no último mês de agosto.

“Em meus 31 anos no CDC” não houve um momento como este, afirmou Jernigan, observando que uma série de outros cargos de alto escalão também estão vagos.

As restrições impostas ao Niaid chegam em um momento em que o departamento também está sem liderança.

O instituto havia sido dirigido por um diretor interino, o patologista doutor Jeffery Taubenberger, desde abril de 2025 — mas dois senadores democratas revelaram em uma audiência na semana passada que ele havia deixado o cargo. O departamento de Saúde dos EUA recusou-se a comentar sobre a saída de Taubenberger.

Questionado sobre as vagas de liderança, o porta-voz do departamento afirmou que a agência fez um progresso “histórico” no último ano e que o departamento de saúde “aguarda com expectativa a rápida confirmação dos atuais indicados”.

Cadeias de resposta rompidas

A cooperação limitada com a OMS é um resquício da frustração de Trump e dos republicanos com a forma como a organização lidou com a pandemia de Covid-19, disse Jeremy Konyndyk, presidente da Refugees International e ex-funcionário do Departamento de Estado nos governos Obama e Biden.

As cadeias de comunicação que existiam anteriormente, mas que agora foram eliminadas, teriam alertado as autoridades de saúde dos EUA mais cedo sobre a crise do Ebola em desenvolvimento, pontuou Konyndyk.

“Temos lideranças de saúde pública neste país agora que descartaram a maioria das instituições de saúde global”, ressaltou ele.

Ao mesmo tempo, várias das organizações médicas presentes na República Democrática do Congo e nos países vizinhos foram gravemente prejudicadas.

Elas eram anteriormente financiadas pela US Agency for International Development, uma divisão do Departamento de Estado que foi desmantelada em meio aos cortes abrangentes realizados pelo Doge (Department of Government Efficiency) no ano passado.

“Se houvesse múltiplos parceiros de saúde do governo dos EUA identificando agrupamentos de febre hemorrágica viral inexplicável, eles teriam encaminhado isso pela cadeia hierárquica”, comentou.

“Exceto que eles realmente não tinham mais ninguém para quem encaminhar isso na hierarquia”, disse Konyndyk.

Um alto funcionário do Departamento de Estado rejeitou o argumento de que a retirada dos EUA da OMS, os cortes de financiamento americanos ou o desmantelamento da USAID teriam prejudicado a identificação ou a resposta ao surto de Ebola.

O secretário de Estado Marco Rubio culpou diversas vezes a OMS por não ter alertado o público sobre o surto de Ebola mais cedo.

Na semana passada, a agência da ONU elevou sua avaliação do nível de risco do surto de Ebola de “alto” para “muito alto” na República Democrática do Congo. O risco internacional permanece baixo.

Nenhum caso foi registrado nos EUA, mas voos com destino ao território americano transportando passageiros que estiveram recentemente na região afetada pelo Ebola devem, dependendo do horário de partida, pousar em um de três aeroportos selecionados para triagem:

  • o Aeroporto Internacional Dulles, próximo a Washington
  • o George Bush Intercontinental, em Houston
  • ou o Hartsfield-Jackson International, em Atlanta

Um americano, médico, contraiu a doença na África. Ele está sendo tratado em um hospital alemão, onde sua família também está em quarentena. Outro americano está sendo monitorado.

O CDC afirmou que estava trabalhando “ininterruptamente” com parceiros para enfrentar o surto de Ebola e planejava enviar sete especialistas de Atlanta para a República Democrática do Congo e Uganda para prestar auxílio.

Nenhum caso de hantavírus foi identificado nos EUA, mas 18 pessoas que eram passageiras no navio onde ocorreu o surto permanecem em quarentena no Nebraska.

Dezenas de outras pessoas que desembarcaram do navio antes da confirmação do surto estão sob monitoramento, assim como pessoas que estiveram em voos com casos confirmados.

*Adam Cancryn, Jennifer Hansler, Brenda Goodman e Jamie Gumbrecht, da CNN, contribuíram para esta reportagem

O que sabemos sobre o surto de Ebola que a OMS declarou emergência global

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