Guardião protege memórias do sertão mineiro em nove ambientes
Cordisburgo – Brasinha é um homem do sertão mineiro, de corpo e alma, desses que têm a prosa afiada, não perdem a oportunidade de transformar a conversa em momentos de prazer, de usar o chapéu como se estivesse grudado à cabeça no melhor estilo dos personagens do escritor Guimarães Rosa (1908-1967). E, claro, cultivar a respeitável barba. Natural de Sabará, batizado José Osvaldo dos Santos e residente em Cordisburgo desde que se entende por gente – portanto, um conterrâneo declarado e apaixonado pela obra do autor de “Grande sertão: veredas” –, ele mantém um hábito memorável que enche os olhos de quem chega à casa chamada “Recordança – Recordar, Registrar e Compartilhar”.
Em nove ambientes, da varanda ao quintal, Brasinha, como é conhecido, reúne milhares de objetos, e nem adianta perguntar quantos pois já perdeu a conta. Aos 74 anos bem vividos, casado há 50 anos com dona Darci Martins de Castro Santos, pai de Thiago, Guilherme e Miguel formados em medicina com especialidades diferentes, o comerciante aposentado se apressa em explicar o apelido: “Desde a escola, me chamavam assim, pois eu não ficava quieto. Diziam que tinha uma brasa na cadeira que não me deixava ficar sentado. E assim ficou, pois essa brasa esquentou meu desejo de guardar objetos”, conta bem-humorado.
Ao entrar na casa, o visitante, com certeza, se sente em outra dimensão tal a quantidade de rádios, relógios, flâmulas, quadros, esculturas, miniaturas e outras peças garimpadas desde a infância. “Comecei com um palito de picolé...a coleção só foi crescendo. As pessoas descobriram que eu tinha esse dom de guardar as coisas e foram me dando. Não me considero colecionador, mas ‘objeteiro’. Tenho prazer em mostrar tudo às pessoas, com um detalhe: não vendo nada que está aqui.
De ouvido na conversa, uma turista interessada na pequena escultura de Guimarães Rosa pergunta o porquê. Olhando a peça dourada, ele responde que cada uma ali tem sua história. “Guimarães Rosa escreveu que ‘a gente esquece as coisas, mas as coisas lembram-se da gente”, afirma Brasinha, certo de que se um objeto sair da “Recordança”, uma história irá junto.
DE TUDO, UM POUCO
A impressionante quantidade de objetos não para de crescer. Em uma visita da equipe do EM na casa da Rua São José, 566, no Centro de Cordisburgo, Brasinha ganhou de presente uma escultura em cipó, parecida com uma caveira de boi, três armadilhas de pegar tatu e um relógio-despertador. “Valorizo muito o que ele faz, sempre venho aqui trazer algo”, disse o motorista Ramon Ferreira de Souza, morador do município vizinho de Paraopeba.
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Agradecido, Brasinha abraçou os presentes e os levou para dentro da casa. E colocando o despertador perto dos relógios, citou outra frase de Guimarães Rosa, de quem já leu toda a obra: “Tem horas antigas que ficam mais perto da gente do que outras de recente data”. E vem uma explicação: “Coisas de antes de ontem a gente esquece, e o mais antigo você lembra”, observou ajeitando o chapéu.
Para quem pensa que os objetos ficam amontoadas, vai um aviso: a organização impera nos cômodos. Tem a sala com as flâmulas de time de futebol penduradas nas paredes, as malas de viagem empilhadas, os rádios de várias épocas, especialmente os de válvula, antigas latas de biscoito, sabão em pó e banha de porco, canequinhas feitas com latas de massa de tomate (um antigo costume no interior mineiro), engradados de refrigerantes, máquinas de escrever, instrumentos musicais e longo etc.
SONS DA HISTÓRIA
Os olhos atentos encontram um violoncelo em bom estado de conservação, um velho equipamento de cobertura esportiva da Rádio Tupi, do Rio de Janeiro, filtros de água de metal decorado, secador de cabelo que mais parece um capacete espacial e cartaz com o recado do proprietário de um bar aos fregueses folgados: “Todos que gosta (sic) de beber e comer sal tem que carregar o sal no bolço (sic). E aqueles que não gosta (sic) de receber moedas, tem que trazer o dinheiro trocado”.
Mais surpresas curiosas e engraçadas estão no banheiro, cujas paredes têm manequins, alguns deles com máscaras. Já o bidê, peça completamente em desuso, está cheio de moedas. A cada momento, uma nova descoberta, a exemplo de máquina de moer carne, garrafas térmicas de várias cores, jarros, cadeiras do antigo cinema, bicicletas, placas de veículos, retratos, chaveiros.
Há ainda o cartaz de um jogo de futebol, disputado em março de 1942, entre o Cordisburgo E.C. e o Santo Antônio E.C. Brasinha aponta no papel emoldurado o valor do ingresso: Preço único: Cr$ 2,00 (dois cruzeiros) e Belo Sexo: grátis. “Veja só como era naquela época: os homens pagavam, e as mulheres, o belo sexo, não”, observa.
CRIAÇÃO DE RIOBALDO
A visita termina no quintal, com Brasinha mostrando as únicas peças que se encontram à venda: os quadros de metal, pintados com tinta colorida, apresentando frases da obra de Guimarães Rosa. A turista que não conseguiu a estatueta do escritor se mostrou feliz em levar o quadro com a frase dele: “Amar é a gente querer abraçar um pássaro que voa”.
Mais adiante, Brasinha mostra as bandejas que recria com frases do também autor de “Sagarana”, “Primeiras estórias” e “Corpo de baile”. Numa delas, se lê “Quando nada acontece é um milagre que não estamos vendo”. Rápido nas palavras, ressalta que a frase veio de “bandeja” para sua coleção.
Na saída, o dono da “Recordança” agradece a visita e conta que tem lido cada vez mais a obra de Guimarães Rosa, especialmente “Grande sertão: veredas”. “Estou desconfiado de que Guimarães Rosa é uma criação de Riobaldo”, brinca Brasinha, invertendo os papéis de criador e criatura – no caso, o protagonista, com Diadorim, da monumental obra que completa 70 anos de publicação.
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