Indústria calçadista projeta estabilidade para 2027; veja os números

Out 3, 2026 - 05:00
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Indústria calçadista projeta estabilidade para 2027; veja os números

Após registrar retração de 5,5% na produção entre janeiro e julho de 2026, na comparação com o mesmo período do ano passado, a indústria calçadista brasileira deve apresentar uma redução no ritmo de queda nos últimos meses do ano. A projeção da Associação Brasileira da Indústria e Comércio de Calçados (Abicalçados) aponta para uma retração média de 2,1% na produção em 2026. Para 2027, a expectativa é de crescimento de 0,5%, indicando um cenário de estabilização da atividade.

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Os números foram apresentados no Análise de Cenários, realizado pela Abicalçados no dia 1º de outubro, em formato on-line, com apoio da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil). Durante o encontro, a economista e coordenadora de Inteligência de Mercado da entidade, Priscila Linck, analisou o desempenho recente da indústria e as perspectivas para os próximos meses.

Segundo ela, a expectativa é de uma recuperação gradual da produção no encerramento de 2026. “Para o quarto trimestre, a expectativa é de crescimento de 4%, movimento favorecido também por uma base mais fraca de comparação. Já para o primeiro trimestre de 2027, a previsão é de incremento de 1,6%”, afirmou.

Números da indústria calçadista foram apresentados no Análise de Cenários
Divulgação Números foram apresentados no Análise de Cenários

Exportações da indústria calçadista devem recuperar ritmo

No mercado internacional, a perspectiva também é de melhora gradual, impulsionada principalmente pela diversificação dos destinos das exportações brasileiras. Uma eventual redução das tarifas adicionais aplicadas pelos Estados Unidos aos produtos brasileiros poderia contribuir para esse movimento.

Até agosto, as exportações de calçados recuaram 7,5% em pares, segundo dados elaborados pela Abicalçados. Para o quarto trimestre, a entidade projeta uma redução do ritmo de queda, para 3,2%. Já no primeiro trimestre de 2027, a expectativa é de crescimento de 7,4% nas exportações.

Importações atingem maior nível da série histórica

Enquanto a produção e as exportações enfrentam um cenário de retração, o mercado brasileiro segue pressionado pelo avanço das importações. Até julho, o consumo aparente de calçados apresentou queda de 4,3%.

Entre janeiro e agosto, o Brasil recebeu 33 milhões de pares de calçados importados, volume 9,6% superior ao registrado no mesmo período de 2025. De acordo com a Abicalçados, trata-se do maior nível de importações desde o início da série histórica, em 1997.

A pressão sobre a indústria também é ampliada pelas compras internacionais realizadas por meio de plataformas de comércio eletrônico. Até agosto, as pequenas remessas de calçados movimentaram US$ 424,9 milhões, alta de 67,5% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Considerando as pequenas remessas e as importações regulares, a entrada de calçados no País alcançou US$ 854,6 milhões no período. O valor supera em US$ 313 milhões o total exportado pela indústria calçadista brasileira.

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Cenário internacional segue marcado por incertezas

O evento também apresentou uma análise do ambiente macroeconômico internacional e brasileiro. O doutor em Economia Marcos Lélis destacou a volatilidade da economia global, com pressões sobre os preços de energia contribuindo para manter a inflação acima das metas em importantes economias e restringindo o espaço para cortes de juros.

Esse contexto tem impacto especialmente sobre o consumo de bens considerados discricionários, entre eles os calçados. Estados Unidos e Argentina, dois importantes destinos do produto brasileiro, enfrentam cenários de inflação elevada.

Segundo Lélis, a inflação acumulada em 12 meses nos Estados Unidos chegou a 3,4% em agosto, enquanto na Argentina o índice está em torno de 30%. No mercado norte-americano, além dos efeitos sobre o consumo, permanece a incerteza relacionada à política comercial. Atualmente, produtos brasileiros, incluindo calçados, estão sujeitos a uma tarifa adicional de 37,5% para ingressar no país.

No Brasil, o PIB cresceu 1,9% no primeiro semestre de 2026, impulsionado principalmente pelos setores agropecuário e extrativo. Para o fechamento do ano, a previsão apresentada no evento é de crescimento de 1,88%. Para 2027, a expectativa é de expansão de 1,43%.

Endividamento limita consumo das famílias

Outro ponto de atenção apresentado durante o Análise de Cenários foi o comportamento do consumo das famílias. Apesar da redução do desemprego para 5,3% e do aumento do rendimento médio real, que chegou a R$ 3.644 no trimestre de maio, junho e julho de 2026, o elevado endividamento limita a capacidade de expansão do consumo.

De acordo com dados do Banco Central do Brasil, em junho, mais de 10% da renda das famílias era destinada ao pagamento de juros das dívidas. O comprometimento total da renda com dívidas chegou a quase 30%.

A percepção de endividamento também atingiu nível recorde na série histórica medida pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), com 82% das famílias declarando possuir dívidas. “Esse maior comprometimento da renda é um dos efeitos do ambiente de juros elevados e acaba reduzindo o espaço no orçamento das famílias para o consumo”, explicou Lélis.

Mercado internacional abre novas oportunidades para a indústria calçadista

Além dos indicadores econômicos, o Análise de Cenários apresentou oportunidades para a indústria calçadista brasileira no mercado internacional diante da reorganização dos fluxos comerciais, da maior instabilidade e do crescimento desigual entre países e regiões.

Na América Latina, a proximidade geográfica ganha importância diante da volatilidade e do aumento dos custos do frete internacional. Nesse cenário, fatores como menor tempo de entrega, flexibilidade, conhecimento dos mercados e capacidade de reposição podem favorecer os fornecedores brasileiros.

Na Europa, Bélgica e Polônia aparecem como mercados de atenção. Os dois países registraram crescimento nas importações de calçados no primeiro semestre de 2026, na contramão do movimento observado entre os demais grandes importadores mundiais do produto.

O cenário apresentado pela Abicalçados aponta, portanto, para um fim de 2026 ainda desafiador para a indústria, mas com expectativa de redução do ritmo de retração e sinais de estabilização para 2027.

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