Indústria de energia renovável ignora impacto ambiental e impulsiona data centers no Brasil de olho no lucro

Agos 12, 2026 - 08:00
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Indústria de energia renovável ignora impacto ambiental e impulsiona data centers no Brasil de olho no lucro

Essa reportagem foi publicada em parceria com Mongabay e produzida com o apoio do AI Accountability Network do Pulitzer Center

O apetite global por inteligência artificial está levando o Brasil a protagonizar um movimento inédito no mundo no setor de data centers. Enquanto ao redor do planeta as big techs sofrem para encontrar energia para alimentar instalações onde armazenam e processam dados, no Brasil a história se inverte: quem projeta data centers para consumir eletricidade é a própria indústria de energia — mais precisamente a de energia renovável.

Um levantamento realizado por Intercept Brasil e Mongabay mostrou que 65% dos pedidos de conexão de data centers à rede básica de energia protocolados junto ao Ministério de Minas e Energia até dezembro de 2025 partiram de empresas de energia renovável. Até esta data, foram registrados 68 pedidos de conexão em 37 municípios brasileiros.

Um conjunto de fatores explica esse fenômeno, a começar pelo volume extraordinário de eletricidade necessário para fazer funcionar os data centers. A Agência Internacional de Energia projeta que o consumo global de energia de data centers deve dobrar nos próximos anos, podendo chegar a 945 TWh até 2030, o equivalente a todo o consumo do Japão — a inteligência artificial responderá por 40% do total.

Com uma matriz energética majoritariamente renovável, o Brasil se tornou um destino atrativo para os empreendimentos. “Somos um grande celeiro de oportunidades para quem quer investir na descarbonização das matrizes [energéticas]”, propagandeou o ministro de Minas e Energia do Brasil, Alexandre Silveira, em janeiro de 2025, durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, para onde viajou com a missão de vender o Brasil para investidores globais, em especial do setor de data centers.

Complexo de energia solar da Atlas em Paracatu, Minas Gerais. Jerônimo Gonzalez/Intercept Brasil e Mongabay
Complexo de energia solar da Atlas em Paracatu, Minas Gerais. Foto: Jerônimo Gonzalez/Intercept Brasil e Mongabay

Além disso, o país produz hoje mais energia renovável do que consegue distribuir pelo território — o que pode desequilibrar a rede, levando a apagões. Por isso, as usinas de renováveis frequentemente têm que desligar a geração a mando do Operador Nacional do Sistema Elétrico. É o que  se chama tecnicamente de curtailment e, para as empresas, isso significa prejuízo. No primeiro semestre de 2025, o curtailment levou a perdas de R$ 3,2 bilhões ao setor.

Consumidores vorazes e estáveis de energia, os data centers são apresentados como solução para utilizar esse excedente de eletricidade que acaba “desperdiçado” – mas, na prática, as empresas estão mais preocupadas com o lucro que podem obter do que com a melhoria da rede de transmissão ou do uso sustentável desta energia.

Em 2025, a empresa de energia solar Atlas teve de reduzir a geração em uma de suas usinas de Paracatu, Minas Gerais, em quase 40% devido aos cortes determinados pelo ONS — no final do ano, a empresa apresentou ao Ministério de Minas e Energia, o MME, um plano para erguer no local um complexo de data centers de 1 GW.

“Visando otimizar a relação entre oferta e demanda locais e mitigar eventuais restrições de geração, a Atlas planeja implantar um data center no município”, justifica a empresa em ofício ao MME ao qual Intercept e Mongabay tiveram acesso, que trata do primeiro dos três empreendimentos previstos.

A Associação Brasileira de Energia Eólica, que representa a indústria e as empresas do setor no país, entrou em campo para defender que o Brasil “apresenta um cenário ideal para a instalação de data centers” cuja principal vantagem é sua matriz elétrica, “uma das mais limpas do mundo”. Em abril, a entidade promoveu um encontro com a participação da Associação Brasileira de Data Centers, que reúne desenvolvedoras de data centers e empresas de tecnologia, com uma mesa cujo título era “Data centers e o meio ambiente – menos impacto do que você imagina”.

Na avaliação de especialistas e ativistas ouvidos pela reportagem, a aliança entre os dois setores é pautada pela oportunidade e pelo lucro — e não necessariamente por compromissos com a transição energética.

“As empresas de renováveis conseguem assinar contratos de compra de energia de longo prazo com os data centers e com as big techs”, observa Mikaelle Farias, engenheira de Energias Renováveis pela Universidade Federal da Paraíba, a UFPB, tecnóloga em Geopolítica Energética pelo Instituto de Pesquisa e Tecnologia do Rio de Janeiro, e ativista pelo clima. “Com isso, têm a garantia de venda desse excedente por 15 ou 20 anos sem precisar colocar no sistema interligado e sem perder essa energia”.

Hoje, os data centers são clientes que dão mais confiabilidade financeira do que outros setores, como a eletrificação de automóveis, explica Farias, e dão às empresas de energia receitas maiores do que teriam distribuindo e vendendo energia no Brasil. 

O MME, em resposta aos questionamentos enviados pela reportagem, disse que “vem trabalhando na construção de políticas públicas efetivas para consolidar o Brasil como um importante polo mundial de investimentos em data centers” e que o país tem vantagens “com usinas solares fotovoltaicas e eólicas em franco crescimento, domínio histórico das fontes hidráulicas, e segurança jurídica para o investidor”. 

A pasta ainda informou que o perfil de consumo dos data centers “contribui para um melhor aproveitamento da geração renovável já instalada, mitigando os cortes de geração por sobreoferta de energia elétrica que hoje representam um desafio crescente na operação do SIN.” Leia a resposta do ministério na íntegra

A Atlas Renewable Energy esclarece que sempre avalia oportunidades de potenciais projetos, entre os quais poderá considerar investimentos em data centers. No entanto, ressalta que o projeto em questão encontra-se em uma fase de estudos muito preliminares. Leia a resposta na íntegra.

Energia contratada por data centers é mais barata

No ano passado, o setor de renováveis brasileiro viu uma recuperação da crise de contratação de energia graças à chegada de data centers.

Em novembro de 2025, a empresa de energia eólica Serena anunciou uma parceria com a NextStream para fornecer eletricidade produzida em Gentio do Ouro e Xique-Xique, na Bahia, para data centers da empresa, inclusive um em Tamboré, na região metropolitana de São Paulo. Um ano antes, a Serena já havia ampliado seu fornecimento em 135% para a Odata, neste caso acionando seus parques em Xique-Xique.

Algumas empresas de data centers têm optado por comprar participações em empreendimentos de energia, tornando-se sócias das empresas geradoras — um formato intitulado de “autoprodução”. Com isso, elas são ao mesmo tempo investidoras e consumidoras dessa demanda.

A Scala Data Centers, por exemplo — uma das principais empresas de data centers baseada no Brasil — formalizou “uma parceria significativa com uma empresa de energia renovável, com o objetivo de garantir energia limpa por meio de um modelo de autoprodução” em 2024. Em seu relatório de sustentabilidade de 2024, a empresa diz que vai utilizar duas usinas em operação na Bahia, que são ligadas à Serena.

“Essa abordagem reforça a posição da Scala como participante em projetos de energia renovável, garantindo acesso direto a uma fonte sustentável”, observa a empresa em seu relatório de sustentabilidade.

Nos contratos diretos e nas sociedades de autoprodução, as empresas consumidoras negociam valores mais baixos diretamente com o produtor. Na prática, os data centers pagam mais barato pela energia.

Historicamente, o valor da energia contratada diretamente é muito menor do que a tarifa paga por consumidores comuns. Enquanto, nos últimos 22 anos, a tarifa de energia paga pelo consumidor brasileiro subiu 269% — alcançando R$ 310 por MWh em 2024 —, no ambiente de contratação livre esse aumento foi de 90%, com as empresas pagando R$ 147 por MWh em 2024, segundo dados de um estudo da Associação Brasileira de Comercializadores de Energia, a Abraceel, publicado em junho de 2025.

Outro modelo de negócio observado são empresas que até então atuavam apenas com energias renováveis mudando seus objetos sociais para desenvolver data centers próprios. É o caso da Casa dos Ventos, que construiu e desenvolveu o data center do TikTok em Caucaia, no Ceará, e de outras dezenas de empresas: a reportagem identificou que pelo menos 36 empresas protocolaram pedidos de acesso à rede básica de energia junto ao Ministério de Minas e Energia até dezembro de 2025 para esse fim.

Subestação de energia em Paracatu, Minas Gerais. Jerônimo Gonzalez/Intercept Brasil e Mongabay
Subestação de energia em Paracatu, Minas Gerais. Foto: Jerônimo Gonzalez/Intercept Brasil e Mongabay

Uma delas é a Atlas, que propõe um projeto em Paracatu. “A titularidade da nova unidade consumidora, embora distinta daquelas vinculadas ao complexo gerador, pertencerá à Atlas, assegurando que tanto a carga quanto a geração permaneçam sob o mesmo grupo econômico”, escreveu a Atlas em um requerimento enviado ao MME.

Renováveis são incompatíveis com data centers

Estimativas do Ministério da Fazenda sugerem que, ao transferir um data center para o Brasil, uma empresa pode reduzir em até 75% a pegada de carbono do seu processamento de IA.

É por isso que o Brasil brilha aos olhos destas empresas. O país não só dispõe de energia, como de energia renovável – e barata. Para as big techs, é uma via para bater metas de sustentabilidade, limpar suas reputações e ainda por cima economizar.

O problema é que data centers demandam uma carga estável de energia de maneira intermitente, enquanto as usinas de energia renovável não geram de forma contínua, apenas enquanto dura o período em que o recurso natural — ventos ou sol — está disponível. À noite, por exemplo, ou em dias sem brisa, usinas solares e eólicas não têm capacidade de gerar.

Logo, o padrão de consumo intenso dos data centers, que devem operar 24 horas por dia, 7 dias por semana, é incompatível com a natureza das renováveis enquanto não houver baterias para armazenar a energia gerada em momentos de pico e utilizá-la quando não há geração — um leilão de baterias deve ocorrer no país em dezembro. Mas, por enquanto, o armazenamento ainda é uma realidade distante no Brasil.

“Na prática, o aumento estrutural da carga, dependendo do caso, pode exigir capacidade estável adicional, incluindo a associada ao despacho de usinas termelétricas, com possíveis repercussões ambientais e tarifárias”, alerta um relatório parlamentar publicado no Rio Grande do Sul.

Ainda que o discurso das empresas seja o de que estão usando energia renovável para alimentar seus data centers, isso não passa de uma forma de greenwashing, observa Ketan Joshi, um analista de clima independente dedicado a estudar a transição energética. 

“Se há demanda nova, mas não há geração de energia nova, o resultado final é que todos os produtores que estão na rede, sejam renováveis ou não, vão gerar um pouco mais”, diz. “Então, as emissões sobem, mas as empresas de tecnologia dizem ‘não olhem para nós, nós compramos energia limpa’”, pontua. 

Complexo eólico em Gentio do Ouro, município baiano que pode receber, em breve, dezenas de data centers trazidos por empresas de renováveis. Thomas Bauer/Intercept Brasil e Mongabay
Complexo eólico em Gentio do Ouro, município baiano que pode receber, em breve, dezenas de data centers trazidos por empresas de renováveis. Foto: Thomas Bauer/Intercept Brasil e Mongabay

Não é só uma questão reputacional, mas também de estratégia e custo. Em entrevista ao site InvestNews, o CEO da Omnia, empresa responsável pelo data center do TikTok no Ceará, disse que “poucos países conseguem competir com o Brasil em custo de energia renovável”. 

“Nessa crise toda de petróleo, depender de sistemas de energia que são fósseis é um risco muito grande. As guerras recentes escancararam isso. A energia renovável, além de ser sustentável, é barata”, disse Rárisson Sampaio, assessor político no Instituto de Estudos Socioeconômicos, o Inesc, e membro da Comissão de Direito Ambiental da Ordem dos Advogados do Brasil, a OAB, do Ceará.

“Fosse sustentável ou não, eles iam fazer contratos com energias renováveis no Brasil porque é mais barato”, acrescentou. 

Diferencial do Brasil virou moeda de troca no tarifaço

A vantagem brasileira na oferta de energia virou barganha no tarifaço dos Estados Unidos contra o Brasil. Na rodada de negociações que antecedeu as tarifas que entraram em vigor em meados de julho de 2026, data centers foram tema de negociação em reuniões com big techs, segundo o vice-presidente Geraldo Alckmin

O Brasil planeja conceder incentivos fiscais e desonerações para data centers que sigam parâmetros de eficiência hídrica, entre outros aspectos ambientais. O problema é que não está claro o que o país tem a ganhar com os agrados que está disposto a oferecer.

Em abril deste ano, a Apex Brasil, agência governamental focada na atração de investimentos estrangeiros para o Brasil, organizou uma missão para os Estados Unidos com um objetivo claro: atrair investimentos estrangeiros em data centers sustentáveis. 

Já em junho, a embaixada dos Estados Unidos organizou um evento fechado em São Paulo sobre “inovação e tecnologia em distribuição de energia” para abordar, entre outros temas, “a preparação das redes para novas demandas, como eletrificação e data centers”. Servidores da Agência Nacional de Energia Elétrica, a Aneel, foram convidados para participar. 

“Ainda que data centers possam incentivar bolsões de crescimento de energias renováveis aqui e ali, elas não nos ajudam em uma transição sensível, inteligente e bem-planejada para longe dos combustíveis fósseis”, defende o analista de clima Joshi. 

Expansão para data centers amplia impactos ambientais existentes

Outro aspecto relevante é o impacto socioambiental da indústria de renováveis, também frequentemente negligenciado sob o discurso de “energia limpa”.

Há pelo menos duas décadas, desde a chegada das primeiras usinas eólicas no Nordeste, comunidades denunciam os impactos causados pelos empreendimentos aos seus territórios, seus modos de vida e sua saúde. É nesta região do país, onde está concentrada a maior capacidade de geração de energia renovável, que grande parte do excedente de energia gerada é desperdiçada.

Os problemas começam na implantação das usinas, com denúncias de grilagem de terras, desmatamento e detonações para acomodar os aerogeradores e abertura de estradas para acessá-los, o que impacta a fauna silvestre e domesticada. Moradores vizinhos de empreendimentos relatam rachaduras nas casas ligadas às explosões.

Já na operação, o principal impacto é o barulho dos aerogeradores. O incômodo é tão recorrente que ganhou nome próprio: síndrome da turbina eólica. É uma doença que se apresenta na forma de distúrbios do sono, dores de cabeça, tonturas e questões mentais. 

Em março deste ano, moradores do agreste pernambucano ingressaram com uma ação civil pública contra empresas eólicas, incluindo a Casa dos Ventos, e contra o governo estadual pela instalação e operação de um complexo com oito parques e 126 aerogeradores que atravessam quatro municípios. 

Na Paraíba, tramita um projeto de lei para impor uma distância mínima de 1,5 quilômetro entre aerogeradores e residências, escolas ou outros equipamentos públicos. Se aprovada, será uma legislação pioneira – não existe hoje no Brasil nenhuma proteção do tipo para comunidades vizinhas a esses empreendimentos.

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Ainda assim, a ativista pelo clima Mikaelle Farias alerta que há chance de agravamento dos problemas em todo o Nordeste com a expansão das renováveis e a chegada de data centers. 

Há ainda uma camada que deixa tudo mais complexo: o levantamento feito pela reportagem indica que há pelo menos 29 municípios com territórios quilombolas com processos de regularização abertos pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, o Incra, até dezembro de 2025 ou terras indígenas (demarcadas ou em estudo) para os quais há data centers previstos. Em outras palavras, 78,3% dos 37 municípios que tinham previsão de instalação de data center têm um dos tipos de território protegido regularizado ou em regularização.

Um destes municípios é Gentio do Ouro, uma cidade de 11 mil habitantes na Bahia, onde há uma comunidade remanescente de quilombolas que aguarda a titulação do Incra. Lá, a empresa Serena pediu autorização ao Ministério de Minas e Energia para conectar nove data centers. Ao menos um já está em operação. Nós entramos em contato com a empresa, mas não houve resposta. O espaço segue aberto. 

O Incra disse que, até o momento, acompanha apenas um caso no município de Caucaia, onde o TikTok está construindo um data center, e que o processo está em fase de análise se sobreposição com áreas de comunidades e territórios quilombolas. O instituto acrescentou que não participou de “conferências, fóruns ou espaços de diálogo interinstitucional especificamente dedicados à discussão da expansão de data centers no país”. Leia a resposta do Incra na íntegra. 

A Fundação Nacional dos Povos Indígenas também disse que acompanha dois casos em Caucaia, no Ceará. Em um deles, a Funai pediu a suspensão da licença de instalação até a regularização do componente indígena do licenciamento, bem como uma reunião no território Anacé. O órgão disse que não houve resposta do órgão ambiental do Ceará quanto ao pedido de suspensão e à reunião. Leia a resposta na íntegra.

Comunidade Remanescente de Quilombo do Pacheco, em Gentio do Ouro, Bahia. Thomas Bauer/Intercept Brasil e Mongabay
Comunidade Remanescente de Quilombo do Pacheco, em Gentio do Ouro, Bahia. Foto: Thomas Bauer/Intercept Brasil e Mongabay

“A energia renovável não é infinita – ela tem restrições sociais, físicas, impactos ambientais. Ainda há capital político por trás dela. Então, é preciso pensar com sabedoria em como usá-la”, enfatiza Joshi.

Para o analista de clima, que hoje vive na Noruega, essa estratégia das empresas não é nova. “As empresas dizem ‘olha como nós estamos destravando essa energia renovável’, mas não detalham a finalidade. Por que você não construiu uma linha de transmissão, ou uma bateria, ou algo para que essa energia possa ser usada pela sociedade para substituir combustíveis fósseis?”, questiona. 

“Alimentar data centers com energia renovável não é a meta. A meta é garantir que estejamos protegendo a sociedade dos perigos da energia que não é segura, como carvão e gás e queimar petróleo no sistema de transporte”, conclui. 

Data centers podem encarecer conta de luz dos brasileiros

Além dos efeitos socioambientais, o modelo que os data centers vêm adotando em sua proliferação desenfreada, que inclui fazer contratos ou sociedades com empresas geradoras de eletricidade, pode ter impacto direto no bolso dos brasileiros.

Embora barateie a energia utilizada pelas infraestruturas de tecnologia, esse plano pode encarecer a conta de luz da população. Isso porque a migração de grandes clientes para o mercado livre, de contratação direta, reduz o número total de consumidores no mercado cativo — aquele vinculado às distribuidoras locais. 

O mercado cativo reúne consumidores como você, que paga contas de luz para distribuidoras locais, como a Enel. Grandes consumidores, como indústrias e agora data centers, costumam ficar em outro mercado – o livre, no qual pagam pela energia diretamente para quem a produz.

Consumidores no mercado livre são isentos de alguns encargos, como as bandeiras tarifárias, e possuem descontos em outros, como a tarifa do sistema de distribuição. Com menos gente para dividir a conta, o custo individual, aplicado sobre os consumidores do mercado cativo, aumenta.

Tem mais: como a quantidade de energia para abastecer data centers é enorme, há necessidade de reforçar o sistema de transmissão para acomodar essas estruturas, sob o risco de a rede não suportar as cargas elevadas. Mas, na prática, essas obras de infraestrutura, que ganham ainda mais importância diante do aumento da conexão de data centers à rede básica, estão tendo seus custos repassados aos consumidores.

É o que foi apontado pelas concessionárias Enel e pela EDP em uma tomada de subsídios promovida pela Aneel sobre o aprimoramento das regras de acesso ao sistema de transmissão de energia elétrica.

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A Enel afirmou que, como o sistema de transmissão hoje não dispõe de regras sobre os custos pagos por quem se conecta à rede, “os custos de expansão acabam sendo socializados entre todos os consumidores, inclusive aqueles que não se beneficiam diretamente dessas obras, gerando uma assimetria regulatória e subsídios cruzados indesejados”.

Como exemplo, a empresa citou a conexão de um grande data center na região metropolitana de São Paulo que está demandando reforços estruturais em uma subestação. “Apesar de se tratar de uma necessidade associada a um único acessante, os custos tendem a ser repassados aos consumidores do sistema como um todo, o que não se mostra adequado sob a ótica de eficiência e equidade”, informou a Enel.”

A EDP fez um apontamento semelhante ao destacar que “o crescimento de novos empreendimentos de grande porte, especialmente projetos de data centers, hidrogênio verde e outras cargas eletrointensivas, tem, em diversos casos, demandado reforços e ampliações relevantes na rede de transmissão para viabilizar o acesso, cujos custos acabam sendo socializados entre todos os usuários do sistema, ainda que decorram de necessidades específicas de determinados acessantes”.

Na prática, isso significa que consumidores comuns estão custeando obras de infraestrutura para permitir que data centers de empresas privadas, muitas delas estrangeiras, se conectem à rede básica. 

Em resposta a questionamentos enviados pelo Intercept, a Aneel disse que “eventuais reforços ou ampliações necessárias para além do ponto de conexão, na infraestrutura de transmissão denominada ‘Rede Básica’, tem seu custo rateado por todos os usuários do sistema” e que isso se aplica para todos os usuários, sejam mineradoras ou data centers ou concessionárias de distribuição. 

A agência também informou que as contribuições à tomada de subsídios estão sendo analisadas pela área técnica e que “não há, até o momento, identificação de um problema de rateio de custos provocado por data centers”. Leia a resposta na íntegra

Nos Estados Unidos, que concentra a larga maioria dos data centers no mundo, poucos assuntos unem estadunidenses dos diferentes lados do espectro político como data centers: sete a cada dez pessoas se opõem à construção destas infraestruturas em suas vizinhanças, segundo uma pesquisa Gallup de março. O tema já virou assunto eleitoral, com candidatos tentando capitalizar nos sentimentos pró e contra data centers.   

Um dos principais motivos do descontentamento é justamente o aumento vertiginoso nas contas de energia decorrente da instalação dessas megainfraestruturas. 

No fim de julho, o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou que mais de 200 empresas, incluindo concessionárias de energia assinaram um acordo para evitar que os preços da eletricidade subam por causa dos data centers. É verdade que o acordo é simbólico e difícil de implementar, considerando o atual sistema de distribuição de energia estadunidense, mas é uma sinalização de que até Trump entendeu que essa é uma questão crítica que eleitores levarão para as urnas nas eleições de meio de mandato, previstas para novembro deste ano.

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