Jovem que morreu em recinto de leoa vai ter história contada em livro de escritor paraibano
O escritor e jornalista Phelipe Caldas prepara um novo projeto sobre a história de Gerson de Melo. O jovem morreu em novembro de 2025 após invadir o recinto da leoa e ser atacado pelo animal, no Parque Arruda Câmara, a Bica, em João Pessoa, Caldas é autor do livro 'O menino que queria jogar futebol', que inspirou ‘Inexplicável’, filme que chegou ao Top 3 global da Netflix.
Depois do sucesso do livro 'O menino que queria jogar futebol', o autor iniciou uma nova pesquisa. De acordo com Phelipe, a motivação inicial para a escrita do livro foi buscar aprofundar o caso após se frustrar com a forma limitada como o assunto foi abordado.
“Eu fiquei muito impactado com tudo o que aconteceu, a forma como o assunto foi explorado. Vi muito profissional de imprensa fazendo uma cobertura de uma forma que eu considero irresponsável, com muita pressa em trazer conclusões, em trazer respostas, então promove muita violência, muito preconceito e muito estigma”, explicou em entrevista ao Jornal da Paraíba.
A ideia de transformar a história em um livro-reportagem surgiu do jornalista Luiz Fernando Dalpian. Phelipe conta que, ao ver a sua frustração, o colega incentivou a investigar o caso sem a pressão do jornalismo diário.
“Ele é da teoria que tem certos assuntos que o jornalismo cotidiano não consegue dar conta, mesmo o jornalismo mais sério, porque é pouco tempo para apurar tudo, é pouco espaço para dizer tudo, e ele comentava comigo que tem algumas questões que só um documentário, um livro-reportagem, uma pesquisa de longa duração é capaz de responder”, contou.
Com a mudança de olhar sobre o caso, Phelipe Caldas mergulhou na pesquisa sobre o assunto. O objetivo não é tratar apenas da morte de Gerson. Segundo o autor, o livro busca reconstruir a trajetória de vida do jovem, marcada por pouco convívio familiar e por passagens em instituições de acolhimento.
“Nesse trabalho de pesquisa eu já entrevistei 40 pessoas, provavelmente vou entrevistar mais algumas. Outra fonte de pesquisa são os documentos públicos, já analisei mais de 10 mil páginas de documentos que tratam da vida de Gerson, e ajudam a contar muito da história dele”, detalhou.
Outro ponto característico da produção é o debate sobre questões centrais na trajetória de Gerson, como saúde mental, tratamento psicológico e a lei antimanicomial.
“Para além da vida de Gerson, que vai ser contada em detalhes, algumas temáticas que cruzem a vida dele de alguma forma serão aprofundadas, também vai haver uma reflexão sobre isso”, destacou.
Previsão de lançamento
A produção, que teve início em 9 de dezembro de 2025, ainda não tem editora, data de lançamento nem título definido. A expectativa do autor é publicar o livro até novembro, quando completa um ano da morte de Gerson.
O autor afirmou que espera estimular reflexões sobre a história de Gerson. Para ele, o caso revela um cenário mais amplo de abandono e vulnerabilidade social.
“Me parece que casos como o de Gerson são muito mais frequentes do que nos parece, que o caso de Gerson só veio à tona de uma forma diferente do que as outras devido à forma trágica como se deu a morte dele. Mas que tantos outros Gersons morrem cotidianamente vítimas de um estado e uma sociedade que é incapaz de lidar corretamente com as pessoas que possuem doença mental. Então, se o livro de alguma forma promover esse debate e de alguma forma conseguir evitar que outros Gersons morram, ele já terá cumprido o seu objetivo”, concluiu.
Inquérito arquivado
A 1ª Vara Regional de Garantias arquivou o inquérito que investigava a morte de Gerson de Melo, na última quarta-feira (11). A decisão foi proferida pela juíza Michelini Jatobá.
No documento, a Justiça destaca que não enxerga o crime como influenciado por terceiros, já que o jovem teria entrado voluntariamente no recinto da leoa, ignorando os avisos dos guardas.
“Os relatos sobre o histórico de saúde mental da vítima, trazidos pela Conselheira Tutelar Verônica Silva de Oliveira, indicam um quadro de vulnerabilidade psíquica que, infelizmente, pode ter contribuído para a tomada de decisão que levou ao fatídico evento. Contudo, sob a ótica estritamente penal, tal circunstância reforça a ausência de dolo ou culpa de terceiros.”, detalhou a decisão.
A decisão também detalha que um relatório do Ibama confirmou que o Parque Arruda Câmara segue as normas de segurança exigidas, com muros de cerca de 8 metros e telas inclinadas para impedir invasões.
A juíza responsável pelo inquérito também afirmou que a 2ª Delegacia Distrital de João Pessoa ouviu guardas municipais, funcionários do parque, familiares e uma conselheira tutelar que tinha relação com o jovem. Também foram feitos laudos periciais, incluindo exame do corpo e perícia no local.
Relembre o caso
Gerson de Melo Machado, de 19 anos, morreu no dia 30 de novembro de 2025, após invadir o recinto de uma leoa e ser atacado por ela no Parque Arruda Câmara, conhecido como Bica, em João Pessoa. O jovem tinha esquizofrenia, mas mesmo com o diagnóstico, não recebia acompanhamento psicológico contínuo.
A família de Gerson também tinha histórico de transtornos mentais. Ele foi afastado do convívio familiar ainda na infância. A mãe perdeu o poder familiar por causa da esquizofrenia. O pai era ausente e os quatro irmãos foram adotados. A avó, responsável por ele, também tem transtornos mentais.
Gerson, que nunca chegou a ser adotado, passou a viver em instituições de acolhimento até completar a maioridade. Após completar 18 anos, o jovem perdeu esse espaço e passou a viver por conta própria, acumulando passagens por complexos psiquiátricos e pelo sistema prisional.
Um mês antes da morte de Gerson, a Justiça havia determinado que o jovem fosse internado em instituições de longa permanência para tratamento psicológico. Na decisão, o juiz Rodrigo Marques de Silva Lima afirmou que o tratamento ambulatorial era insuficiente diante da gravidade do caso.
A decisão nunca chegou a ser cumprida. Uma semana antes do acidente na Bica, ele foi detido após atirar uma pedra em uma viatura da Polícia Militar. Segundo uma prima, ele fazia isso para se sentir seguro.
“Das vezes que ele foi preso, a maioria era por jogar uma pedra na viatura, porque ele queria se sentir seguro. Muitas vezes ele falava: ‘Se eu tiver preso, as pessoas na rua não vão dar em mim, porque eu peguei tal coisa em troca do almoço e fulano deu em mim’. Ele sempre tinha medo de as pessoas baterem nele. Tiraram ele como uma pessoa agressiva, e ele não era. Uma pessoa marginal ele não era. Era um menino neurodivergente que tinha mentalidade de 4 anos”, ressaltou.
*Sob supervisão de Erickson Nogueira
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