Macacos e crianças têm intuição geométrica semelhante, aponta estudo
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Pesquisa publicada na PNAS reforça que a base do pensamento matemático surgiu muito antes da espécie humana e que a educação aperfeiçoa uma capacidade já presente na evolução, afirma neurocientista
Da MP Press Global – Um estudo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) trouxe novas evidências de que o pensamento geométrico não é uma característica exclusivamente humana. Pesquisadores da Carnegie Mellon University demonstraram que macacos conseguem reconhecer formas geométricas mesmo quando elas são apresentadas em diferentes tamanhos e orientações, desempenho semelhante ao observado em crianças antes do início da educação formal.
A pesquisa comparou o desempenho de macacos rhesus e babuínos com crianças norte-americanas em idade pré-escolar e adultos indígenas Tsimane’, da Bolívia, que tiveram pouca escolarização formal. Os resultados indicam que a capacidade intuitiva de compreender propriedades geométricas já existe antes do ensino da matemática, sendo posteriormente refinada pela educação.

Para o neurocientista Dr. Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues, formado em Biologia no Brasil e PhD em Neurociências pela Universidade Azteca, no México, o estudo reforça uma visão cada vez mais aceita pela Neurociência Evolutiva: a inteligência humana não surgiu de maneira abrupta, mas foi construída sobre mecanismos cognitivos ancestrais compartilhados com outros primatas.
“Esse estudo mostra que a matemática não nasce na escola. O que a escola faz é organizar e potencializar capacidades que já estavam presentes no cérebro muito antes da nossa espécie existir. A evolução não criou um cérebro totalmente novo para os humanos. Ela aperfeiçoou circuitos que já existiam em nossos ancestrais.”
Segundo o pesquisador, reconhecer relações espaciais, proporções e formas representa uma vantagem adaptativa importante para diversas espécies, permitindo identificar caminhos, calcular distâncias, manipular objetos e interpretar o ambiente.
“A percepção geométrica possui enorme valor adaptativo. Um primata que consegue interpretar melhor o espaço aumenta suas chances de sobrevivência. O que diferencia o ser humano não é apenas perceber essas relações, mas transformá-las em linguagem simbólica, fórmulas, engenharia e ciência.”
Durante os experimentos, os participantes precisavam identificar figuras geometricamente idênticas, ainda que apresentadas em tamanhos diferentes ou rotacionadas. Enquanto adultos escolarizados recorriam a conceitos abstratos como simetria, paralelismo e ângulos, macacos e crianças demonstravam resolver a tarefa principalmente por meio de um processamento intuitivo.
Para Fabiano de Abreu, esse resultado evidencia que a educação formal modifica profundamente a forma como o cérebro representa o conhecimento.
“O cérebro infantil e o cérebro dos outros primatas parecem utilizar estratégias perceptivas semelhantes. A escolarização promove uma reorganização dessas representações, permitindo que o pensamento deixe de depender apenas da percepção visual e passe a operar simbolicamente.”
Na avaliação do neurocientista, os resultados também contribuem para desfazer a ideia de que existe uma separação absoluta entre a cognição humana e a dos demais primatas.
“Existe uma tendência histórica de imaginar que determinadas capacidades surgiram exclusivamente na nossa espécie. A Neurociência mostra um cenário diferente. Muitas habilidades cognitivas possuem continuidade evolutiva. O que muda é o grau de sofisticação alcançado pela linguagem, pela cultura e pelo aprendizado acumulado ao longo das gerações.”
O pesquisador ressalta que o estudo não diminui a singularidade humana, mas ajuda a compreender como ela surgiu.
“A inteligência humana provavelmente não apareceu como uma inovação isolada. Ela foi construída sobre capacidades cognitivas ancestrais que compartilhamos com outros primatas. A grande diferença foi a capacidade de transformar essas habilidades em conhecimento acumulativo por meio da linguagem, da cultura e da educação.”
Os autores do estudo concluem que o ensino formal não cria o pensamento matemático do zero. Em vez disso, fortalece e expande mecanismos cognitivos que vêm sendo moldados pela evolução há milhões de anos, oferecendo novas evidências de que as bases da cognição abstrata são muito mais antigas do que se imaginava.
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