Maior varejista da Europa entra na disputa por serviços de nuvem
Quando o empresário Bernd Wagner caminha pela nova sede da empresa, fica entusiasmado e diz coisas como “7 vezes mais aço do que foi utilizado na construção da Torre Eiffel” ou “cabos suficientes para ir daqui até Nápoles”.
Wagner é o responsável pela área de computação em nuvem e vendas da Schwarz Digits. Essas enormes quantidades de aço e cabos foram empregadas na construção da nova sede, que será oficialmente inaugurada na 3ª feira (21.jul.2026).
O complexo, projetado para 3.500 funcionários e equipado com creche, restaurante e área fitness, lembra as sedes da Amazon, da Apple ou do Google: localizado numa elevação, é composto por 5 edifícios de vidro de vários andares, com formas suavemente curvas e estrutura em formato de colmeia. No centro do chamado Campus Schwarz Digits, há um pequeno lago, muito verde e bancos à sombra.
“Isso aqui é uma declaração de intenções. Não precisamos nos esconder do Google nem de ninguém”, afirma Wagner.
DO VAREJO PARA A TECNOLOGIA
Essa sede não fica na Califórnia (EUA), mas em Bad Friedrichshall, uma pequena cidade no sul da Alemanha, a poucos quilômetros de Heilbronn, a cidade natal daquele que é apontado por revistas especializadas como o homem mais rico da Alemanha: Dieter Schwarz, de 86 anos.
Foi a partir de Heilbronn que ele construiu o império Lidl, uma das redes de supermercados mais conhecidas da Alemanha e presente em vários países da Europa. Mais de 600 mil pessoas trabalham em empresas do Grupo Schwarz em todo o mundo.
O conglomerado cresceu sobretudo graças às redes de supermercados Lidl e Kaufland. Mas, como o Grupo Schwarz prefere fazer tudo por conta própria, expandiu-se para diversas áreas.
Atualmente, a empresa também atua com:
- produção de alimentos;
- gestão de resíduos;
- reciclagem;
- digitalização e TI (Tecnologia da Informação).
Em 2025, o Grupo Schwarz registrou um faturamento de quase 185 bilhões de euros –mais do que SAP, Mercedes ou Bayer. Só a montadora Volkswagen faturou mais entre as empresas alemãs.
INDEPENDÊNCIA DIGITAL DA EUROPA
O Grupo Schwarz sempre foi conhecido pela discrição. Quase nunca se fala sobre seu fundador, Dieter Schwarz. Há poucas fotografias públicas dele. Diz-se que ele consegue andar por Heilbronn sem ser reconhecido.
Mas agora o Grupo Schwarz está nas manchetes com uma nova narrativa, que começa com a Schwarz Digits e gira em torno da independência digital e da valorização da Alemanha como polo tecnológico.
“Se você não está sentado à mesa, acaba fazendo parte do cardápio”, diz Wagner em seu escritório climatizado.
Se nos últimos anos a Schwarz Digits cuidou sobretudo da infraestrutura de TI dos 14.500 supermercados do grupo ao redor do mundo, agora oferece seus serviços de nuvem e segurança digital também para empresas privadas e órgãos públicos.
Segundo Wagner, o objetivo é fazer com que a Alemanha e a Europa voltem a ter protagonismo e deixem de depender totalmente das tecnologias dos Estados Unidos ou da China. “Queremos devolver à Europa sua capacidade de agir”, afirma.
Esse posicionamento está dando resultados. Nos últimos tempos, a empresa vem conquistando grandes contratos. Entre seus clientes e parceiros estão governo da Holanda, ministérios alemães e DFB (Federação Alemã de Futebol).
Na região de Spreewald, ao sul de Berlim, a Schwarz Digits está construindo um centro de dados. Ao custo de 11 bilhões de euros, trata-se do maior investimento individual da história do grupo. O valor investido na nova sede em Bad Friedrichshall não foi divulgado.
A instalação foi concebida para manter os talentos de TI na Alemanha e atrair novos profissionais. A mensagem é clara: por que se mudar para o caro Vale do Silício se é possível trabalhar num setor do futuro no sul da Alemanha?
POLO DE HEILBRONN E PROJETO DE IA
Quem passeia por Heilbronn vê claramente como a cidade está formando os seus talentos. Um exemplo é o campus educacional da Fundação Dieter Schwarz, onde diversas instituições de ensino e pesquisa alemãs formam cerca de 8.000 estudantes. A expectativa é de que o número ainda vá crescer.
Nas proximidades está o Experimenta, que se apresenta como o maior centro de ciência da Alemanha e virou símbolo da cidade e atração turística. Lá os visitantes podem vivenciar na prática tecnologias e aplicações de inteligência artificial. O prefeito de Heilbronn, Harry Mergel, participou da iniciativa que levou à construção do local há cerca de 20 anos, tendo a Fundação Dieter Schwarz como principal financiadora.
A transformação da cidade, que tem 130 mil habitantes, já é visível. Além disso, há um megaprojeto que deverá tornar Heilbronn internacionalmente conhecida nos próximos anos: o Ipai (Innovation Park Artificial Intelligence).
Com esse parque de inovação, a cidade pretende competir com centros tecnológicos como Londres e Paris. A expectativa é que até 5.000 pessoas trabalhem e pesquisem no complexo. Os primeiros edifícios serão inaugurados em 2027.
Os custos não foram divulgados, mas o Ipai já opera como rede de colaboradores desde 2022, e cerca de 140 empresas e parceiros desenvolvem projetos. Mergel, cujo mandato vai até 2030, é taxativo: “O futuro está sendo construído em Heilbronn”.
DESAFIO CONTRA AS BIG TECHS
Wagner vai na mesma linha: “A nossa região em breve se tornará o maior polo de formação em inteligência artificial da Alemanha e da Europa”. E a Schwarz Digits pretende ocupar um papel importante nesse cenário.
Mas será que a empresa consegue competir com as gigantes da tecnologia? A Amazon faturou US$ 135 bilhões só no seu negócio de computação em nuvem no último ano. A Schwarz Digits, considerando todas as suas atividades, alcança cerca de 2,2 bilhões de euros em receita.
Mesmo assim, Wagner demonstra confiança. Segundo ele, as oportunidades surgem naturalmente, já que a Europa precisa urgentemente de soluções independentes.
O Grupo Schwarz também não é por acaso o maior varejista da Europa e o 4º maior do mundo. Dieter Schwarz já demonstrou paciência estratégica e faro para grandes oportunidades. Por isso, é perfeitamente possível que sua nova grande aposta acabe se revelando um sucesso.
A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas. O texto foi publicado em 9 de julho de 2026 e adaptado para o padrão do Poder360.
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