Mercado farmacêutico no Brasil entra em ponto de inflexão com pressão de margens, digitalização e risco de consolidação

Feb 22, 2026 - 22:00
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Mercado farmacêutico no Brasil entra em ponto de inflexão com pressão de margens, digitalização e risco de consolidação

Domingo (21/02/2026) — O mercado farmacêutico brasileiro vive um momento de inflexão estrutural, marcado por pressão intensa sobre preços, avanço acelerado da digitalização e da Inteligência Artificial (IA), mudanças tributárias e risco de consolidação em todos os elos da cadeia. É o que revela o estudo “Visão 360º do mercado farmacêutico no Brasil”, elaborado pelo Instituto Febrafar de Pesquisa e Educação Corporativa (IFEPEC) .

A pesquisa ouviu médicos, representantes, executivos da indústria, distribuidores e varejistas independentes, além de consumidores digitais, com o objetivo de mapear percepções e expectativas sobre o presente e o futuro do setor. Segundo o editorial do estudo, trata-se de um levantamento isento, baseado em entrevistas qualitativas e quantitativas, grupos de foco e análise temática estruturada .

O retrato que emerge é o de um setor resiliente — impulsionado pelo envelhecimento populacional e pela demanda estrutural por medicamentos —, mas tensionado por margens comprimidas, transformação tecnológica e disputas competitivas cada vez mais agressivas.

Médicos reduzem relevância das visitas presenciais e ampliam uso de IA

Entre os médicos, a pesquisa aponta uma mudança clara na relação com representantes da indústria. Embora parte dos profissionais ainda considere importante receber visitas, especialmente de “algumas indústrias” ou das “melhores indústrias”, a tendência predominante é de redução do tempo e da frequência desses encontros .

Os dados mostram:

  • Crescente uso de revistas científicas, congressos e plataformas digitais como fontes prioritárias de atualização ;
  • Adoção rotineira de plataformas de Inteligência Artificial para consulta sobre medicamentos e tratamentos ;
  • Percepção de que a visita tradicional tende a ser reduzida ou substituída por canais digitais .

Nos grupos de foco, médicos afirmaram que a indústria continua sendo fonte relevante de informação, mas reconheceram o risco de viés comercial e a necessidade de senso crítico .

A autonomia profissional foi reiterada como valor central, ainda que alguns participantes admitam a existência de influências indiretas decorrentes da exposição repetida a determinadas marcas .

Propagandistas enfrentam obsolescência do modelo tradicional

Do lado dos representantes, o diagnóstico é ainda mais contundente. O estudo descreve uma “revolução silenciosa” na propaganda médica, com perda da função tradicional do representante como principal fonte de informação .

Segundo os entrevistados:

  • A digitalização reduziu drasticamente a receptividade médica;
  • O tempo disponível para visitas tornou-se mínimo;
  • A motivação para receber o propagandista está mais ligada a amostras grátis e acesso a congressos do que à busca de conhecimento .

A conclusão do capítulo é clara: o propagandista, em sua forma tradicional, está em processo de transformação. O futuro aponta para um perfil mais consultivo, especializado e focado em produtos de alto valor agregado .

Indústrias enfrentam guerra de preços e migram para segmentos de maior valor

Executivos da indústria relataram um cenário de “cultura do menor preço”, com compressão de margens em toda a cadeia .

Os principais pontos identificados incluem:

  • Crescimento dos genéricos em volume, mas com redução contínua de margens;
  • Distanciamento de multinacionais da “guerra dos genéricos”;
  • Migração estratégica para segmentos hospitalares, oncológicos e biológicos, de maior valor agregado;
  • Expansão digital, especialmente na categoria Dermo.

A diversificação de portfólio foi apontada como imperativo estratégico. Segundo os executivos, empresas com portfólio restrito a genéricos e produtos de baixo custo terão dificuldades crescentes para sustentar rentabilidade .

Distribuidores sob pressão da reforma tributária e da consolidação

No elo da distribuição, o ambiente é descrito como de forte pressão competitiva, agravada por juros elevados, endividamento e incertezas tributárias .

A iminente reforma tributária gera apreensão quanto:

  • Ao fim de benefícios fiscais estaduais;
  • Ao favorecimento potencial de grandes redes;
  • À necessidade de atualização tecnológica complexa e custosa .

Distribuidores estimam que cerca de 60% das vendas ainda passam por esse canal, mas reconhecem que o modelo enfrenta desafios estruturais e risco de consolidação, especialmente para players regionais com menor escala .

Varejo farmacêutico cresce em lojas, mas não em rentabilidade

O varejo é descrito como um dos elos mais tensionados. Apesar da expansão física das grandes redes, a rentabilidade não acompanha o crescimento .

Entre os pontos críticos destacados:

  • Fragilidade financeira de pequenas e médias farmácias;
  • Concentração de receita nas grandes redes;
  • Crescente digitalização do consumo;
  • Entrada de plataformas e marketplaces no canal Farma .

A ascensão do delivery, do WhatsApp como canal de relacionamento e da IA como potencial interface direta entre consumidor e produto indicam uma ruptura no modelo relacional tradicional do setor .

Principais dados da pesquisa

1. MÉDICOS

Relação com representantes

  • Redução da relevância das visitas presenciais
  • Tempo médio dedicado às visitas entre 5 e 15 minutos
  • Médicos recém-formados demonstram maior resistência ao atendimento presencial

Fontes de informação

  • Revistas científicas
  • Congressos e seminários
  • Plataformas digitais especializadas
  • Uso crescente de Inteligência Artificial (IA)

Prescrição

  • Predominância da prescrição por princípio ativo
  • Decisões baseadas em evidência científica
  • Reconhecimento de influência indireta por exposição recorrente a marcas

Tendência futura

  • Redução adicional das visitas presenciais
  • Expansão do uso de canais digitais e IA

2. REPRESENTANTES / PROPAGANDISTAS

Mudança estrutural

  • Perda do papel tradicional como principal fonte de informação
  • Redução da receptividade médica

Motivações para manutenção das visitas

  • Distribuição de amostras grátis
  • Convites para congressos
  • Informações práticas de mercado (especialmente preços)

Perspectiva futura

  • Transformação do perfil profissional
  • Migração do modelo de divulgação para consultoria especializada
  • Foco em produtos de alto valor e lançamentos

3. INDÚSTRIAS

Pressão competitiva

  • Cultura do menor preço
  • Compressão generalizada de margens
  • Crescimento de genéricos com rentabilidade decrescente

Estratégias de adaptação

  • Migração para segmentos de maior valor agregado
    • Hospitalar
    • Oncológico
    • Biológicos
  • Expansão digital, especialmente na categoria Dermo

Estrutura de mercado

  • Alta concentração no segmento de genéricos
  • Necessidade de diversificação de portfólio

4. DISTRIBUIDORES

Participação no mercado

  • Aproximadamente 60% das vendas passam pelo canal de distribuição

Principais desafios

  • Juros elevados
  • Endividamento
  • Reforma tributária
  • Fim de benefícios fiscais estaduais
  • Risco de favorecimento de grandes redes

Tendência estrutural

  • Consolidação do setor
  • Vulnerabilidade de distribuidores regionais
  • Necessidade de modernização tecnológica

5. VAREJO FARMACÊUTICO

Estrutura

  • Crescimento no número de lojas
  • Fragilidade financeira crescente em pequenas e médias farmácias

Concentração

  • Grandes redes concentram parcela significativa da receita

Digitalização

  • Crescimento do delivery
  • Uso do WhatsApp como canal de relacionamento
  • Avanço de marketplaces
  • Potencial da IA como novo canal de acesso

Risco estrutural

  • Consolidação progressiva
  • Resistência cultural à inovação em parte dos independentes

6. DIGITALIZAÇÃO E INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Impactos principais

  • Substituição gradual de interações presenciais
  • Otimização de processos
  • Personalização da comunicação com consumidores
  • Possível interface direta entre IA e consumidor

Desafio central

  • Velocidade da transformação tecnológica superior à capacidade de adaptação de parte do setor

7. CENÁRIO ECONÔMICO E ESTRUTURAL

Pressões externas

  • Reforma tributária
  • Instabilidade política
  • Câmbio
  • Entrada de supermercados e marketplaces

Dinâmica estrutural

  • Margens comprimidas
  • Guerra de preços
  • Consolidação competitiva

8. PERSPECTIVA DE LONGO PRAZO

  • Setor considerado resiliente
  • Envelhecimento populacional como vetor estrutural de crescimento
  • Demanda por medicamentos tende a se expandir

Os três vetores dominantes do mercado farmacêutico brasileiro são a pressão de margens, a digitalização acelerada e a consolidação competitiva. O ambiente não é de retração estrutural, mas de seleção estratégica entre os players.

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