Migração em massa de marroquinos à Espanha vira munição para extrema direita

Agos 7, 2026 - 02:00
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Migração em massa de marroquinos à Espanha vira munição para extrema direita

Na semana passada, mais de 50 mil pessoas arriscaram suas vidas para atravessar a fronteira entre o Marrocos e Ceuta, o minúsculo enclave espanhol no norte da África, na esperança de chegar à Europa continental.

A grande maioria delas já foi devolvida ao Marrocos; permanecem em Ceuta menos de 2 mil refugiados, que, segundo as notícias locais, precisam urgentemente de comida e abrigo. Mais de 80 pessoas teriam morrido durante a travessia, a maioria delas por afogamento.

A crise que diz respeito às pessoas que tentaram entrar na Europa por Ceuta na semana passada, incluindo as que foram mandadas de volta, já foi enquadrada em um asqueroso viés político de extrema direita. Como a ampla gama de respostas à situação em Ceuta deixou claro, o compromisso com regimes rigorosos de gestão de fronteiras não é reduto apenas da extrema direita.

Mais uma vez, liberais e centristas que supostamente repudiam os posicionamentos anti-imigração da direita estão, eles mesmos, tratando os imigrantes como uma ameaça de que é preciso se proteger.

Para a extrema direita internacional, as imagens de milhares de jovens homens africanos desesperados adentrando o território da União Europeia – embora Ceuta não esteja, de fato, no continente europeu – se tornaram munição para o previsível sensacionalismo racista, com apelos para um controle extremista das fronteiras. Os líderes da extrema direita atribuíram a culpa das travessias aos planos extremamente razoáveis do governo de esquerda da Espanha, de regularizar mais de um milhão de imigrantes sem documentos que já vivem e trabalham na Espanha há pelo menos cinco meses.

“É terrível. Lembrem-se dessa imagem. Seremos nós daqui a três anos se o lado errado assumir”, disse o presidente Donald Trump à Fox News, em uma tentativa infundada de usar o sofrimento em Ceuta a seu favor. Um porta-voz da Casa Branca criticou a nova proposta espanhola de regularização da imigração como “políticas globalistas de extrema esquerda”.

Enquanto isso, líderes conservadores e de direita em toda a Europa e no Reino Unido reiteraram sentimento semelhante, evocando a velha mentira de uma “invasão” que confronta o Ocidente. A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, propôs que a Espanha seja suspensa do espaço Schengen. Um total de 22 líderes da UE, incluindo Meloni e o primeiro-ministro alemão Friedrich Merz, escreveram uma carta conjunta à Comissão Europeia, manifestando “sérias preocupações” sobre como a decisão da Espanha de conceder status jurídico aos imigrantes serviu como “fator de atração”.

Em resposta a esses ataques e críticas, vários políticos, instituições e veículos de mídia liberais e centristas se manifestaram. Análises publicadas no New York Times e na The Atlantic destacaram, por exemplo, que nenhuma das pessoas que atravessou para Ceuta conseguiu chegar à Europa continental. Essas respostas são consideradas um contraponto às críticas de direita ao primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez.

Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, também defendeu Sánchez contra os ataques de direita, elogiando a “ação rápida” das autoridades espanholas para “impedir com sucesso a movimentação ilegal em direção à Espanha e à Europa continental”.

O próprio Sánchez adotou uma linha de argumentação semelhante.

“Em menos de 48 horas, meu governo conseguiu retomar completamente o controle sobre a fronteira”, escreveu ele no sábado, em resposta às críticas dos outros líderes europeus.

A defesa oficial contra o sensacionalismo da extrema direita, portanto, foi simplesmente uma regurgitação da premissa anti-imigração da direita. Deter imigrantes que foram obrigados a adotar rotas irregulares, segundo essa lógica, é uma coisa boa. O erro da extrema direita, da perspectiva desses centristas e liberais, não era o racismo violento, mas a alegação de uma “invasão” à Europa, que não seria factualmente correta.

“As respostas centristas da Espanha e da Alemanha foram ‘garantir’ à UE que as fronteiras estão reforçadas”, escreveu no Instagram a militante e acadêmica sobre migração Harsha Walia. “Essa resposta simplesmente reforça a premissa da securitização das fronteiras.”

Ainda não se conhecem totalmente as razões para a onda de travessias; há muita especulação sobre o papel das forças marroquinas e de outros países. Algumas coisas, no entanto, estão claras: a desinformação se espalhou nos dias anteriores pelas redes sociais, insinuando falsamente que uma decisão recente da Suprema Corte na Espanha impediria que as autoridades espanholas devolvessem imigrantes.

Em um mundo onde a migração em massa é crescente e inevitável, é um fracasso moral tratar a rápida remoção de migrantes como uma vitória. Essa narrativa é um presente para a extrema direita, que continuará a se beneficiar de um consenso político que trata a imigração como uma coisa ruim.

Apenas algumas vozes da esquerda europeia voltaram o foco para o lugar a que pertence: o apoio aos imigrantes que permanecem em Ceuta.

“O que está acontecendo em Ceuta não é um desastre natural, mas o resultado de decisões políticas”, disse Clara Bünger, do Die Linke, ou Partido de Esquerda, na Alemanha. “A Alemanha e a UE têm o dever de ajudar no atendimento aos refugiados e acolher aqueles que buscam proteção.”

“As pessoas estão fugindo da guerra, da pobreza, e da crise climática”, observou. “Muros mais altos não as impedirão; eles apenas tornarão a fuga mais perigosa. A coisa mais importante agora é que ninguém mais morra.”

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