O político e a palavra

Set 5, 2026 - 18:00
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O político e a palavra

Há uma contradição quase insolúvel no comportamento de candidatos que pretendem conquistar um mandato popular, mas se recusam a falar ao público, evitam entrevistas, fogem dos debates e transformam o silêncio em estratégia eleitoral. Política, desde a ágora grega, é palavra, persuasão, confronto de ideias e prestação pública de razões. Aristóteles já identificava no ser humano uma vocação política vinculada à capacidade de comunicar e deliberar sobre o justo e o injusto. Por isso, aquele que pede votos, mas não aceita submeter suas ideias ao escrutínio coletivo, pretende obter do eleitor uma espécie de procuração em branco. Quer a representação sem enfrentar o representado; deseja o poder sem suportar o contraditório. Em tempos de campanhas excessivamente profissionalizadas, nas quais assessorias tentam controlar cada gesto e cada frase, esconder o candidato pode até reduzir riscos imediatos. Mas produz uma pergunta muito mais grave: se ele não consegue falar quando precisa conquistar o voto, como falará quando tiver de defender os interesses daqueles que o elegeram?
Arthur Schopenhauer oferece uma chave particularmente atual para compreender esse fenômeno. Em seus ensaios sobre pensamento, linguagem, leitura e escrita, o filósofo alemão sustentava que o estilo constitui a “fisionomia do espírito”, revelando algo muito mais profundo do que a aparência exterior. A palavra expõe o pensamento. É justamente por isso que alguns políticos talvez a temam. Falar sem roteiro, responder perguntas difíceis e enfrentar um adversário em debate retiram o candidato da proteção das peças publicitárias e revelam sua capacidade de raciocínio, conhecimento, equilíbrio e convicções. Schopenhauer também foi implacável contra a superficialidade intelectual e contra os artifícios utilizados para disfarçar a pobreza das ideias. Transportada para a política contemporânea, sua crítica alcança o candidato fabricado exclusivamente pelo marketing: excelente fotografia, slogans cuidadosamente testados, vídeos editados, redes sociais administradas por profissionais — mas nenhuma disposição para sustentar, diante de perguntas reais, aquilo que pretende fazer com o poder.
A entrevista e o debate eleitoral, portanto, não são espetáculos acessórios da democracia. Constituem mecanismos de controle antecipado do poder. O jornalista Walter Lippmann demonstrou como a opinião pública é formada também pelas imagens e representações que construímos da realidade; Hannah Arendt, por sua vez, compreendeu a política como atividade essencialmente realizada no espaço público, onde pessoas aparecem umas diante das outras por meio de palavras e ações. Jürgen Habermas aprofundaria essa compreensão ao atribuir centralidade à esfera pública e à argumentação na formação democrática da vontade. Quando um candidato foge sistematicamente desse ambiente, empobrece a escolha eleitoral. O cidadão deixa de conhecer não apenas suas propostas, mas seu temperamento diante da divergência, sua capacidade de formular respostas e sua aptidão para justificar decisões. E democracia não significa simplesmente escolher pessoas: significa escolher pessoas depois de submetê-las, tanto quanto possível, ao exame público.
Pode haver circunstâncias pontuais que justifiquem a ausência em determinada entrevista ou debate; o que não pode ser naturalizado é a fuga transformada em método. Quem pretende ser vereador, deputado, senador, prefeito, governador ou presidente terá de argumentar, negociar, prestar contas, enfrentar crises e explicar decisões. A palavra não é ornamento do mandato: é uma de suas principais ferramentas. O silêncio estratégico do candidato pode, assim, antecipar uma preocupante incapacidade política do futuro mandatário. Schopenhauer lembrava que a linguagem deixa transparecer a qualidade do pensamento; talvez por isso seja tão importante ouvir quem pretende governar. O eleitor precisa conhecer não somente a imagem produzida pelos marqueteiros, mas a mente existente por trás dela. Quem pede o direito de falar em nome do povo deve, antes, demonstrar que é capaz de falar com o povo e diante do povo. Afinal, na democracia, fugir da palavra é também fugir do contraditório — e quem foge do contraditório antes da eleição dificilmente poderá reivindicar confiança para exercer o poder depois dela.

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