O Rio nunca prendeu tanta gente de terno

Nos últimos meses, a Polícia Federal prendeu ou colocou na mira de inquéritos um desembargador federal, um delegado da própria corporação, o presidente da Assembleia Legislativa, um deputado estadual, um ex-secretário estadual, um ex-secretário de Polícia Civil, um ex-prefeito da Baixada Fluminense que se preparava para disputar o Senado, além de bicheiros, um pastor, empresários e policiais militares.
Quem acompanha segurança pública no Rio sabe que essa lista é uma raridade.
O ciclo conhecido, e que costuma ser a regra, era uma operação policial de madrugada, troca de tiros, escola fechada, foto dos fuzis sobre a mesa, entrevista do secretário e, poucos dias depois, a mesma esquina funcionando normalmente com outro gerente.

Ninguém precisava explicar quem tinha despachado aquelas armas do Paraguai, quem lavava o dinheiro daquele ponto de venda de drogas ou quem avisava, de dentro do estado, que a viatura estava subindo.
Em abril de 2025, ao julgar a ADPF 635, que ficou conhecida como ADPF das Favelas, o Supremo Tribunal Federal mexeu nessa engrenagem por um caminho que quase ninguém previu.
Além de tratar das regras para operações policiais, a decisão determinou que a Polícia Federal abrisse um inquérito permanente para mapear as organizações criminosas que atuam no estado, respondendo às perguntas que a política de segurança fluminense nunca teve interesse em responder: quem manda, quem financia, quem protege e por onde circula o dinheiro?
O tribunal também determinou prioridade máxima ao compartilhamento de informações do Coaf, da Receita Federal e da Fazenda estadual, o que significa, em bom português, que o alvo deixou de ser o rapaz armado na laje e passou a ser a contabilidade, o que mantém a engrenagem funcionando.
Efeito dominó
A Operação Zargun foi atrás de lideranças do Comando Vermelho e de suas conexões dentro do estado. Segundo a Polícia Federal, o esquema ia do vazamento de informações sigilosas à importação de armas do Paraguai e de equipamentos da China. Caíram um delegado da PF, policiais militares, um ex-secretário estadual e o deputado estadual TH Joias.
Depois veio a Operação Unha e Carne, que nasceu de uma pergunta que deveria ser óbvia: quem avisou os investigados que a Zargun estava a caminho?
A resposta foi Rodrigo Bacellar, então presidente da Alerj, preso pelos vazamentos. Quando o celular dele chegou às mãos da Polícia Federal, abriu-se uma avenida. Foi por ali que caiu o desembargador federal Macário Júdice Neto, apontado como informante de Bacellar e que era o relator original do caso Zargun no Tribunal Regional Federal da 2ª Região (sim, o mesmo caso).
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A investigação seguiu e desembocou na máfia dos cigarros, com a prisão do bicheiro Adilsinho e do pastor Márcio Poncio, pai da influenciadora e deputada estadual Sarah Poncio.
Em março, a mesma força-tarefa deflagrou a Operação Anomalia e foi atrás do núcleo policial do esquema, prendendo outro delegado federal, Fabrízio Romano, que segundo a investigação agiu para beneficiar um traficante internacional.
A segunda etapa mirou uma delegacia inteira, a 44ª, no bairro Inhaúma, onde caíram o delegado titular, o irmão dele, que era comissário, e um agente.
Mapa da investigação
Uma decisão do STF, cinco operações, uma engrenagem só
Em abril de 2025, ao julgar a ADPF 635, o Supremo determinou que a Polícia Federal abrisse um inquérito permanente sobre o crime organizado no Rio e deu prioridade máxima aos dados do Coaf, da Receita Federal e da Fazenda estadual. O que veio depois foi uma cadeia de operações que parecem separadas no noticiário e não são. Cada nome abaixo caiu por causa do anterior.
Toque em um nome para ver a acusação, a situação processual e a fonte.
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