O sapo inchado
Você conhece aquela do sapo? Um boi esmagou um deles no brejo. Para que o grupo avaliasse o tamanho do agressor, um sapo mais velho inspirou ar e inchou. “Era deste tamanho?” Os outros disseram que o boi era maior. O sapo dilatou mais, perguntou de novo, recebeu nova negativa, inflou outra vez, até que... arrebentou. A moral é óbvia: tentar crescer além do limite natural termina em desastre.Animais seriam sábios? Esopo narra que uma gralha tentou pegar um carneiro como viu uma águia fazer. Bem menor, ficou enredada na lã do animal e o pastor a pegou para os filhos brincarem. Quando os rebentos perguntaram que pássaro era aquele, o pai ponderou: “Pelo que eu bem sei, é uma gralha, mas pelo que ela pretende, é uma águia”. (Esopo, Fábulas Completas, Cosac Naify, 2013, p. 46)Há ditados similares ao tema: “Passarinho que come pedra sabe o tamanho do c… que tem”. Em francês, existe algo mais forte: “Péter plus haut que son cul”, que se traduziria como pretender soltar gases acima do diâmetro do próprio orifício anal. Vulgares e verdadeiros, todos dizem o mesmo: cuidado com sua pretensão.Quase toda a moral popular sugere acomodação na sua origem social. A prudência caracteriza histórias contadas de avô para neto. No caminho inverso, o coach contemporâneo manda desejar mais, ambicionar muito, buscar o infinito e além. Humildade vira defeito. Modéstia é “crença limitante”. “Você tem limites”, insinuam os mais velhos; “você é infinito”, argumentam conselheiros de carreira. Quem está errado: o senso comum dos provérbios ou alguns gurus das redes?Mudando de sapo para rei: Creso governava a Lídia, na atual Turquia. Heródoto conta (livro 1 das Histórias) que ele enriqueceu expandindo-se sobre as cidades gregas do litoral, como Éfeso. Animado, consultou o oráculo de Delfos a respeito de uma guerra contra os persas. A Pítia profetizou na vaguidão de praxe: “Se atravessares o Rio Hális, destruirás um grande império”. Creso interpretou a frase como anúncio da queda do inimigo, armou seu exército e atacou. Ciro, o imperador persa, capturou-o em Sardes, em 547 ou 546 a.C. Desapareceu, de fato, um grande império: o do próprio Creso. Ele havia ignorado o conselho de Sólon: “Nenhum homem pode se considerar feliz enquanto respirar”. O dia seguinte muda tudo. Duas lições práticas de um sapo ao rei expansionista: cuidado com expansão excessiva e nunca considere definitiva uma situação.Volto a Creso. Em um primeiro tempo, a ambição real funcionou. O ouro do Rio Pactolo fez da Lídia pioneira no uso de moedas, e o templo de Ártemis, em Éfeso, atestou o poder da dinastia e seria lembrado como uma das “sete maravilhas do mundo”. Creso sonhou alto, cresceu, e por um instante se considerou feliz. Em um segundo tempo, a mesma ambição excedeu sua prudência. A campanha contra os persas exigiria planejamento e novas alianças. Creso se apressou e perdeu. Os gregos chamavam de hybris essa falta de medida que conduz à tragédia. Ele não foi derrubado pelo desejo, e sim pela imprudência para atingi-lo. Acumulara vitórias e julgou que elas o autorizavam a tomar tudo.Sucesso inicial não é salvo-conduto eterno. Os pessimistas costumam errar por sentimento de inferioridade, ambicionando de menos. Os otimistas podem errar por entusiasmo desmedido. Creso permitiu que a ganância o cegasse diante de um oráculo que, afinal, lhe oferecia 50% de chance de ser ele a vítima. Como em um chá de revelação de bebê, o sim e o não equilibram-se em exata simetria.A ganância pode ser uma virtude, desde que dialogue com a realidade de quem ambiciona. Voltando aos ditados: avalie riscos sempre. Ao disparar a arma pesada, você suporta o “coice”? Introduzo a autoridade do apóstolo Paulo: “Tudo me é permitido, mas nem tudo convém” (1Cor 6,12). Querer e poder são verbos parecidos, nem sempre ligados por causa e efeito. Sim, Paulo de Tarso é o anti-coach.O alerta vale também para outro erro: a comparação. Fulano “se deu bem” com criptomoedas? Talvez você não consiga reproduzir o êxito alheio. O jogo financeiro raramente é ganha-ganha.A lição talvez seja: deseje mais do que tem ou é, mas reflita sobre etapas, recursos e tempo disponíveis. E nunca coloque todos os ovos na mesma cesta. Não se engane com dois maus conselheiros: o fracasso e o sucesso. Ambos distorcem o real. Expanda com realismo e tenha otimismo prudente com ações estratégicas resilientes.“E o sapo, Leandro, como ele poderia imaginar o tamanho do inimigo?” Sugiro que desenhasse para os colegas do brejo, em vez de inchar o próprio corpo. Maquetes, no planejamento, são recurso seguro. Esboce, imagine, escreva, pinte, filme. Depois faça, sabendo qual é o seu limite. Cresça, sim, mas jamais imagine que é boi se nasceu sapo. Alegre-se com as vitórias e saiba que sucesso só nasce de algo feito no passado e jamais é passaporte oficial para o avanço certo a um porvir glorioso. Ouça o conselho de Sólon: enquanto vivo, o homem lida com a contingência. Só a morte traz a lição final. Tenha esperança no estudo e desconfie de benefícios extraordinários. De graça, só queijo na ratoeira, como dizia minha avó, que, aliás, nunca leu Heródoto ou Esopo.
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