O sistema que fabrica corrupção no governo do Rio não quer ser desmontado

Mai 30, 2026 - 19:00
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O sistema que fabrica corrupção no governo do Rio não quer ser desmontado

Todos os governadores eleitos no Rio de Janeiro nos últimos 30 anos foram presos, cassados ou renunciaram para escapar da cadeia. Todos. Sem exceção.

Sérgio Cabral: preso. Pezão: preso enquanto ainda governava. Rosinha Garotinho: presa. Anthony Garotinho: preso. Witzel: impeachment. Cláudio Castro: renunciou um dia antes de ser cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral, o TSE,  e foi cassado mesmo assim, com inelegibilidade de oito anos. Esta semana, o Supremo Tribunal Federal, o STF, autorizou busca e apreensão na casa de Castro por conta das investigações relacionadas ao caso Master.

Todos os governadores do Rio de Janeiro nos últimos 30 anos foram presos, cassados ou renunciaram.

O estado que elegeu todos esses governadores está, hoje, sendo administrado por um desembargador no qual ninguém votou. E, ao que parece, ele está fazendo mais em dois meses do que muitos fizeram em anos.

Ricardo Couto assumiu o Palácio Guanabara em março porque não havia mais ninguém na fila. O vice virou conselheiro do Tribunal de Contas do Estado. O presidente da Assembleia Legislativa do Rio, a Alerj, foi afastado pela Polícia Federal sob investigação de envolvimento com o Comando Vermelho. Castro renunciou. A linha sucessória foi desmontada peça por peça — cada peça, por um motivo diferente, mas todas pelo mesmo sistema. Organograma — Crise política do Rio de Janeiro 2026

Intercept Brasil — Infográfico interativo

Quem é quem na crise política do Rio de Janeiro

O mapa de alianças e conflitos que moldaram a disputa pelo governo do estado após a renúncia de Cláudio Castro em março de 2026. Clique em cada caixa para saber mais.

Campo Castro / Bolsonaro
Campo Lula / Paes
Judiciário / árbitro
Removido / cassado
clique em qualquer caixa para aprofundar
CAMPO CASTRO / BOLSONARO CAMPO LULA / PAES arbitra indica substituiu aliados conflito apoia aciona STF causou queda investiga STF / TSE Árbitro central da crise Nunes Marques Min. STF — pediu vista Cláudio Castro Ex-gov. (PL) — renunciou mar/2026 Douglas Ruas Pres. Alerj (PL) — quer o governo Presidência PL-RJ Pedreira — conflito de interesse Rodrigo Bacellar Ex-pres. Alerj — cassado Eduardo Paes Prefeito Rio — pré-candidato ao gov. Governo Federal Lula — aliado de Paes Ricardo Couto Gov. interino — pres. TJ-RJ sem partido — não pode se candidatar Escândalo Ceperj R$ 220 mi em espécie — origem da crise

Troca de favores

Couto é presidente do Tribunal de Justiça do Rio. Nunca disputou uma eleição. Não tem partido. Não tinha base. Em dois meses exonerou mais de 2.700 cargos comissionados, aqueles criados para indicações políticas e preenchidos por aliados — cargos que eram moeda de troca do grupo de Castro –, distribuídos entre deputados, familiares e apoiadores. Disse que vai dar autonomia para perícias da polícia — algo demandado e recomendado há anos por diferentes órgãos e organizações da sociedade civil. Couto começou a desmontar uma estrutura que havia sido construída, tijolo por tijolo, ao longo de anos de trocas e favores.

A reação foi imediata.

Deputados estaduais — eleitos, com mandato, representantes do povo — ameaçaram divulgar uma lista de amantes de desembargadores que ocupariam cargos na Alerj sem trabalhar. Uma ameaça claríssima.

Ao mesmo tempo, a Assembleia Legislativa foi ao Supremo Tribunal Federal pedir que Douglas Ruas, presidente da Alerj e aliado de Castro, assumisse o governo no lugar de Couto. O argumento com verniz jurídico — a ordem de sucessão — mostra o interesse político de retomar o controle da máquina para que as coisas continuem como sempre estiveram. Porém, no final de abril, o ministro Cristiano Zanin decidiu que o presidente do TJ permaneceria no cargo até nova deliberação da Corte.

Ruas foi além. Em agenda política na Região dos Lagos nesta semana, criticou a “judicialização” da linha sucessória e disse que “lamentavelmente, o partido político leva aquilo que deveria ser a discussão da arena política para as vias judiciais.” Isso, vindo do mesmo partido que foi ao STF para tentar tomar o governo pela via judicial.

Jogo de interesses

E, enquanto tudo isso acontecia, O Globo revelava que uma pedreira pertencente à família do presidente estadual do PL vendia material para obras contratadas pelo governo — obras ligadas ao grupo de Ruas.

O funcionamento da máquina pública desenhado: partido controla legislativo, legislativo tenta controlar executivo, executivo distribui contratos para empresas de aliados do partido.

Quem observa tudo isso de perto — e com interesse — é Eduardo Paes, prefeito do Rio e principal pré-candidato ao governo do estado. Na sexta-feira, 08 de maio, Couto exonerou Rodrigo Coelho, indicado pelos deputados aliados de Castro, Márcio Canella e Antônio Rueda (ambos do União Brasil), da presidência do Detran-RJ, e nomeou no lugar o coronel da reserva Carlos Eduardo Sarmento, ex-comandante do Bope — batalhão de elite da Polícia Militar conhecido pela caveira no símbolo. 

Paes foi ao X, antigo Twitter, na mesma hora: “Caveira! Eles adoram fingir que gostam e prestigiam policiais. Aguardem as cenas se o coronel for ‘pra dentro’. Vai ter ‘tiro na cabecinha’, usando a expressão do padrinho do Castro, o ex-governador impichado por desvios na saúde, Witzel!” As pesquisas mais recentes mostram Couto com aprovação relevante.

Mas como chegamos aqui? Por que políticos condenados continuam se elegendo?

Intercept Brasil — Infográfico explicativo

Por que políticos condenados continuam se elegendo?

A Lei da Ficha Limpa existe desde 2010. Mas uma série de brechas no sistema garante que quem tem dinheiro para bons advogados raramente seja barrado de verdade. Clique em cada item para entender.

Imagina que a Lei da Ficha Limpa é uma cerca. Ela foi construída para impedir que políticos condenados entrem no campo das eleições. Mas a cerca tem porteiras, buracos e atalhos. E quem tem dinheiro para pagar bons advogados aprende a usar todos eles.

As brechas — clique para expandir

E por que o povo continua votando?

Resumindo em uma frase

A Ficha Limpa é uma lei real, mas incompleta — e funciona melhor para quem não tem dinheiro para contratar advogado. Para quem tem, o sistema judicial brasileiro é lento o suficiente para que uma carreira política inteira caiba dentro de um processo.

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