Onde houver trevas

Out 4, 2026 - 13:00
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Onde houver trevas
Ele desejou se despojar de tudo. Tinha amado a pobreza. Agora, sentindo o fim, solicitou ser colocado no chão frio em pleno outono da Úmbria. A capela testemunhou o corpo débil de 44 anos, magro, olhos cauterizados com ferro quente para tratar o tracoma, com estômago debilitado por jejuns intensos. Talvez estivesse sofrendo efeitos de malária malcurada. O corpo estava inchado. Fígado e baço falhavam.Os estigmas que Francisco lutara para esconder desde a visão no Monte Alverne estavam bem expostos na agonia. Pediu que lessem a cena do lava-pés de Jesus na Última Ceia, no Evangelho de João. Seu círculo mais próximo entoou o Cântico das Criaturas, ao qual o “poverello” tinha acrescentado uma estrofe saudando a Irmã Morte.Ele mantinha notável serenidade diante das dores físicas e do fim próximo. Dado humano: pediu alguns panos de sepultamento e biscoitos de amêndoa a sua amiga, a nobre Jacoba de Settesoli. Antes que a mensagem fosse despachada para a rica dama, ela apareceu trazendo o pedido, algo considerado o último milagre dele em vida. Os irmãos cantaram o Salmo 142 (na numeração da Vulgata, 141). Assim ele completou o “transitus” (trânsito) para sua Páscoa eterna.Era o fim do dia 3 de outubro de 1226. Há 800 anos, falecia São Francisco de Assis. A festa oficial, como era costume, ficou para o dia seguinte. Ao redor da modesta capela da Porciúncula, foi construída a imensa basílica de Santa Maria dos Anjos.Há um paradoxo que o santo encarnou como poucos: o homem que renunciou a tudo virou relíquia. De 22 de fevereiro a 22 de março de 2026, a Basílica de São Francisco, em Assis, abriu pela primeira vez, de forma prolongada, os restos mortais do santo ao público. Imagine o que ele diria. Provavelmente, nada. Francisco era mestre do silêncio e do gesto.A Igreja celebra os 800 anos de sua morte com um Ano Santo Franciscano. Uma data redonda convoca cerimônias, e cerimônias evocam corpos. Quase 400 mil pessoas reservaram vaga para ver as relíquias; 80% são italianas, mas há brasileiros, americanos, croatas, eslovacos e franceses na fila da fé. A peregrinação é antiga. O que muda é o protagonismo da imagem: vivemos a época em que até a santidade precisa ser fotografada.Francisco renunciou ao sobrenome e ao patrimônio. Abraçou o que se chamava então de “leprosos”. Teria conversado e amansado um lobo em Gubbio. Pregou aos pássaros. Escreveu (ou ditou) o Cântico das Criaturas quando já estava doente e exausto. E agora, em pleno século 21, seus ossos são objeto de contemplação global. Há algo de profundamente franciscano e, ao mesmo tempo, de absolutamente antifranciscano nesse espetáculo. A hagiografia sempre foi uma arte do contraste.O túmulo foi redescoberto em escavações de 1818, e os restos haviam sido exibidos apenas uma vez, em 1978, por um único dia, para um grupo restrito. A escala é tudo no nosso tempo. Ele, que caminhava descalço, teria estranhado a logística digital dos agendamentos. Ou talvez não: sabia, melhor que ninguém, que o Evangelho se move por multidões.Há ainda outro dado recente que escapa ao noticiário turístico. Em 2022, o historiador e frade capuchinho polonês Aleksander Horowski apresentou, na revista Frate Francesco, uma oração inédita atribuída ao santo, encontrada no Arquivo Histórico Nacional de Madri. Era uma invocação, atualíssima, à paz. Os textos litúrgicos eram, para Francisco, a matéria-prima da oração pessoal. Ele rezava com os outros e a partir dos outros. A santidade, ali, não se constrói no isolamento, mas na comunhão com a comunidade.O século 13 produziu um homem que amava a pobreza como se fosse uma noiva. O século 21 produz peregrinos que agendam online a visita ao seu esqueleto. Entre uma coisa e outra, oitocentos anos de Ocidente, de cruzadas, de capitalismo, de encíclicas, de um papa argentino que adotou seu nome e morreu em 2025. A história é essa trança improvável entre o santo que queria desaparecer e a instituição que insiste em mostrá-lo.Francisco venceu. Não do jeito que a lógica deste mundo entende vencer. Venceu porque ainda incomoda. Venceu porque seu corpo, mesmo reduzido a ossos, faz o peregrino parar, silenciar, talvez chorar. Num tempo em que tudo se consome em segundos, um esqueleto medieval detém o olhar.Estudei em colégio franciscano, o São José, de São Leopoldo. Criança, emocionei-me com o filme Irmão Sol, Irmã Lua (Franco Zeffirelli, 1972), a versão romantizada para plateias contemporâneas. Chorei na primeira vez que fui a Assis. A história de Francisco atravessa minha biografia. Ele virou santo e eu não. Ambos amamos biscoitos de amêndoa e animais. Ele morreu no chão. Eu morrerei (com sorte) em uma UTI com aparelhos frios fazendo bip. Francisco é o santo da esperança em outro mundo possível, mais humano e solidário. Talvez seja essa, no fim, a lição da sua vida: ela não terminou em 1226. Como diz a oração que ele jamais escreveu: “Onde houver trevas, que eu leve a luz”. Houve.PS: agradeço as indicações inteligentes da minha amiga Paola Prestes.

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