Planeta pode ter 40% das terras em áreas secas até 2100; Brasil está entre regiões mais afetadas
O Brasil está entre as regiões do planeta onde o processo de secamento pode ser mais intenso até o fim deste século. A projeção faz parte de um estudo publicado em 1º de setembro na revista científica Environmental Research Letters, que aponta que mais de 40% das terras do mundo poderão ser classificadas como áridas ou semiáridas entre 2071 e 2100.
Além do Brasil, Austrália e norte da África aparecem entre as áreas com maior tendência de aumento da aridez. O avanço, no entanto, não deverá ocorrer de maneira uniforme e dependerá, entre outros fatores, do nível de emissão de gases de efeito estufa nas próximas décadas.
Áreas secas podem superar 40%
Os pesquisadores analisaram as mudanças na distribuição das áreas secas entre 1960 e 2023 e fizeram projeções para o período de 2071 a 2100, considerando diferentes cenários de emissões.
Entre 1994 e 2023, as regiões áridas e semiáridas correspondiam a aproximadamente 38,58% da superfície terrestre. Até o fim do século, essa proporção poderá variar entre 39,31% e 40,28%.
No cenário de maiores emissões, as áreas secas chegariam a 40,28% das terras do planeta. Isso representa uma expansão de aproximadamente 2,37 milhões de quilômetros quadrados em relação ao período utilizado como referência.
Os números, porém, não significam que 40% das regiões atualmente úmidas se tornarão secas. O percentual corresponde à participação total das áreas classificadas como áridas ou semiáridas na superfície terrestre, incluindo regiões que já apresentam essas características atualmente.
Brasil aparece entre áreas de maior avanço
Embora a expansão global projetada seja menor do que a indicada por estudos anteriores, algumas partes do mundo devem enfrentar mudanças mais acentuadas. O Brasil está entre elas, ao lado da Austrália e do norte da África.
O estudo indica que o avanço da aridez deverá ocorrer de maneira desigual entre os continentes, com determinadas regiões apresentando tendência de secamento mais intensa do que a média mundial.
Uma das diferenças da nova pesquisa está na forma como os cientistas calcularam a relação entre o aumento da concentração de dióxido de carbono (CO₂) e a vegetação.
Com uma concentração maior de CO₂ na atmosfera, as plantas podem reduzir a abertura dos estômatos — estruturas presentes nas folhas e responsáveis pelas trocas gasosas. Esse processo diminui a perda de água pela transpiração.
Ao incorporar esse mecanismo aos cálculos, os pesquisadores chegaram a uma expansão das áreas secas menor do que a estimada por modelos que não consideravam essa resposta da vegetação.
Projeções anteriores chegavam a 56%
Estudos anteriores chegaram a indicar que as regiões secas poderiam representar até 56% das terras do planeta em 2100. A nova pesquisa reduz consideravelmente essa estimativa, mas mantém o alerta para mudanças importantes em determinadas partes do mundo.
Os próprios autores ressaltam que as projeções ainda têm limitações. O modelo considera principalmente fatores climáticos e não incorpora diretamente efeitos provocados pelo uso da terra, retirada de água subterrânea, irrigação e mudanças na cobertura vegetal.
Essas atividades podem interferir diretamente na disponibilidade de água e agravar ou modificar os efeitos projetados pelas condições climáticas.
Por isso, os pesquisadores defendem que estudos futuros combinem as projeções climáticas com fatores relacionados à atividade humana para avaliar com maior precisão como a expansão das regiões secas poderá afetar os recursos hídricos nas próximas décadas.
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