Produtora de ‘Dark Horse’ esconde da Ancine quem mandava no dinheiro de Vorcaro

Set 5, 2026 - 00:00
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Produtora de ‘Dark Horse’ esconde da Ancine quem mandava no dinheiro de Vorcaro

A produtora responsável por rodar “Dark Horse” no Brasil está tentando se livrar de uma punição da Agência Nacional do Cinema, a Ancine, com uma estratégia no mínimo inusitada. Em defesa administrativa para escapar da multa por ter filmado o longa-metragem sobre a vida de Jair Bolsonaro sem cumprir as normas do setor, a Go Up Entertainment Ltda diz que atuou apenas como prestadora de serviços locais e que quem contratou e pagou o elenco principal do filme foi uma “empresa estrangeira”, nunca nomeada pelos advogados no documento.

O nome não aparece porque essa empresa é a Goup Entertainment LLC, com sede em Miami, Flórida — cuja sócia-administradora é a mesma da Go Up brasileira, a jornalista Karina Ferreira da Gama. Ainda que as duas empresas tenham registros em países diferentes, a dona é a mesma: Karina. Também há apenas um site para divulgar o trabalho da produtora, em versões em inglês, português e espanhol.

Logo, a Go Up Ltda não é prestadora de serviços de terceiros — é o braço brasileiro de uma estrutura que ela mesma controla, e que, por isso, tinha obrigação de comunicar as filmagens à Ancine antes de começar, conforme previsto nas regras.

Documentos obtidos pelo Intercept Brasil mostram que a estrutura da produção de “Dark Horse” foi formalizada em contrato assinado em novembro de 2023 com os produtores executivos Mario Frias, deputado federal do PL e candidato à reeleição, e Eduardo Bolsonaro, que era deputado federal do PL na época. 

O contrato prevê a Goup LLC como responsável pelo “desenvolvimento, pré-produção, produção do filme, pela decisão sobre a forma de distribuir ou da distribuidora, pós-produção e por todos os aspectos relacionados à comercialização do ativo cinematográfico”. 

E a Go Up brasileira já sabia disso muito antes de apresentar sua defesa. No dia 17 de julho, Karina e Michael Brian Davis, na condição de acionistas e diretores da Goup nos EUA, assinaram em Miami um Memorando de Entendimento e Declaração de Relação Jurídica dirigido à própria Ancine, no mesmo processo administrativo em que a defesa seria protocolada, em agosto. 

Nele, a Goup LLC é nomeada expressamente como “Licenciante e titular declarada dos direitos sobre a Obra”. A cláusula 5.1 declara, “de forma expressa e para fins de resposta à exigência administrativa”, que a produção “foi realizada parcialmente no território da República Federativa do Brasil”.

Ou seja, a produtora sabia o nome – porque é ela mesma, só que do outro lado da fronteira – e o disse à Ancine quando quis — em julho, para tratar de licenciamento de distribuição, e não em agosto, quando o assunto passou a ser a multa.

Nós procuramos a Go Up e Karina Ferreira da Gama, mas não houve resposta até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto.

Quando tudo começou

Reportagem publicada pelo Intercept em maio deste ano denunciou que o filme biográfico de Jair Bolsonaro foi rodado no Brasil de modo irregular. Após a publicação, a Ancine lavrou auto de infração em 28 de julho, imputando à Go Up a conduta de produzir no Brasil a obra cinematográfica estrangeira “Dark Horse” sem comunicar previamente o fato à agência reguladora, em violação às normas do setor. 

A defesa protocolada em agosto é o primeiro documento oficial em que a produtora reconhece que essa estrutura estadunidense existe e opera desta forma, dividida entre EUA e Brasil.

A admissão de que a operação financeira principal do filme aconteceu nos Estados Unidos importa por dois motivos. Primeiro, porque essa é a mesma pergunta que a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República tentam responder desde maio: para onde foram os milhões que o banqueiro Daniel Vorcaro remeteu para bancar “Dark Horse”?

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Se a estrutura principal estava fora do Brasil, sob controle de uma empresa da mesma dona da produtora brasileira, o dinheiro passou por uma jurisdição que a Ancine não tem competência para fiscalizar. Além disso, reforça que a fronteira entre “financiar um filme sobre Jair Bolsonaro” e “bancar a vida de Eduardo Bolsonaro no exterior”, o que está sob investigação, fica indistinguível sem quebra de sigilo internacional. 

O segundo motivo é porque a mesma empresa que admite à agência reguladora ter operado o filme fora do alcance dela pede para limitar a multa ao mínimo legal de R$ 2 mil — 0,003% do que a própria perícia da produtora atesta ter sido gasto no longa. O valor da autuação ainda não está definido e pode chegar a até R$ 200 mil.

A conta que não fecha

Embora a Go Up tenha dito à Ancine que a operação financeira principal do filme aconteceu nos Estados Unidos, não há como mensurar quanto foi gasto, de fato, com o longa. 

Segundo a revista piauí, o laudo contratado de uma empresa de perícia privada pela própria Go Up — de 32 páginas — “não desdobra os valores, nem identifica gastos específicos”. “Não se sabe quanto recebeu cada ator, diretor ou produtor, quais empresas foram contratadas, os serviços que prestaram, nem em que datas os pagamentos foram feitos.”. 

A perícia atesta que a produtora no Brasil recebeu 3,7 milhões de dólares do Havengate Development Fund, fundo texano administrado pelo advogado de Eduardo Bolsonaro, Paulo Calixto, equivalentes, no câmbio da época, a R$ 20,93 milhões. Outros 9,7 milhões de dólares, porém, teriam permanecido nos EUA – assim, o total seria de 13,4 milhões de dólares, o que a perícia afirma corresponder às despesas totais do filme. 

A quantia é semelhante ao que Flávio Bolsonaro cobrava, em áudios revelados pelo Intercept, diretamente de Vorcaro: “Imagina a gente dando calote num Jim Caviezel, num Cyrus, os caras, pô, renomadíssimos lá no cinema americano e mundial. Pô, ia ser muito ruim”.

A perícia, porém, segundo apuração de O Globo, não teve acesso aos documentos do fundo Havengate. O laudo não discriminou os custos de produção nos Estados Unidos, limitando-se a mencionar um número total. E os especialistas ouvidos pela piauí consideram que não é possível falar em prestação de contas a partir das informações apresentadas. 

Distribuição brasileira

No mesmo memorando assinado em Miami em julho por Karina e Michael, a Goup LLC licencia à Cannes Produções Ltda, empresa sediada em Barueri, os direitos de distribuição e exploração comercial do filme no Brasil. Quem assina pela Cannes é Wilson Feitosa, com e-mail da Europa Filmes, distribuidora que planeja o lançamento comercial.

O Certificado de Registro de Título do longa-metragem junto à Ancine, também obtido pelo Intercept, foi requerido pela Cannes no dia 31 de agosto de 2026 — o mesmo dia em que a Go Up brasileira protocolou a defesa administrativa.

Nas considerações feitas junto à Ancine, a produtora alega boa-fé e diz que “procurou previamente a SPCine e o Sindcine-SP para obter orientação e apoio quanto ao formato de contratação da equipe local e às condições de realização das filmagens”.

“Se tivesse agido de boa-fé, eu não teria pedido fiscalização no Ministério do Trabalho”, diz Sônia Teresa Santana, presidente do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria Cinematográfica e do Audiovisual dos Estados de São Paulo, Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Tocantins e Distrito Federal — o Sindcine. Sua resposta é categórica. Ela reitera que a produtora “não enviou contratos, não provou ter feito seguros, não provou ter pago horas extras”. 

A presidente do Sindcine lembra ainda que eles entraram em ação após terem recebido denúncia de trabalho precarizado de pessoas que atuaram no filme e notificaram a produtora, “que não respeitou o sindicato”.

O circuito americano do dinheiro

Um acordo de delação premiada recém-firmado pode ajudar a trazer respostas sobre o destino dos milhões de dólares que saíram do Brasil para bancar “Dark Horse”.

O Estadão e o Globo revelaram, em 3 de setembro, que Antônio Carlos Freixo Júnior, dono da Entre Investimentos e operador financeiro apontado como homem de confiança de Vorcaro, assinou acordo de colaboração com a Procuradoria-Geral da República. 

Conhecido como Mineiro, o operador entregou extratos e comprovantes de transferência do Brasil para o Havengate Development Fund LP. Diálogos e comprovantes do celular de Vorcaro registraram pagamentos de ao menos 10 milhões de dólares ao Havengate, o equivalente na época a R$ 61 milhões. A investigação da revista piauí revelou o pagamento de mais uma parcela, que leva o total a ultrapassar 12 milhões de dólares, e mensagens indicam que teria havido outro aporte, porém sem confirmação de valor.

O hoje candidato a presidente Flávio Bolsonaro, do PL, pediu 24 milhões de dólares a Vorcaro sob a justificativa de que seriam para financiar o filme sobre a vida do pai. Mineiro detalhou, segundo a delação, ter montado uma operação que poderia ser caracterizada como evasão de divisas para repassar os recursos. E o fluxo só foi interrompido com a prisão de Vorcaro.

O advogado que responde pela produtora

Em 2 de setembro, a revista piauí revelou que a nota de esclarecimento oficial que a Go Up enviou à publicação, em resposta a perguntas sobre a prestação de contas do filme, foi criada pelo próprio Paulo Calixto, responsável pelo fundo Havengate. Duas horas antes de a revista receber a nota, ele havia gerado o PDF do documento, deixando seus dados registrados nos metadados do arquivo. 

Confrontada pela piauí sobre a presença do advogado nos metadados, Karina Ferreira da Gama primeiro disse que o texto “saiu da Go Up com informações de Calixto”. Indagada sobre quais informações, respondeu: “Que Calixto? Quem é o Calixto?”. Encerrou a conversa dizendo que a produtora “não sabe dizer” quem escreveu o documento.

Formalmente, Paulo Calixto não é produtor, executivo ou integrante da Go Up e não tem qualquer papel no filme “Dark Horse”, mas, na prática, seu nome aparece nos metadados da resposta oficial que a produtora deu sobre um dinheiro que passou pelo fundo que ele administra.

Quando o Intercept publicou as relações entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, em maio, o presidenciável prometeu que daria satisfação sobre o orçamento do filme em 30 dias. Mais de 100 dias depois, não apresentou nenhuma informação. Agora, com a delação de Mineiro e a ligação do advogado de Eduardo Bolsonaro com a produtora, a Polícia Federal terá mais pistas para investigar o caso.

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