Quando a censura entra sem precisar pedir licença

Mai 22, 2026 - 05:00
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Quando a censura entra sem precisar pedir licença

A História nos ensina, de forma trágica, que existem mil e uma maneiras de censurar, de calar a boca daqueles que os donos do poder consideram inconvenientes. Não apenas a História, mas também a literatura que, através de obras distópicas, retrata-nos de forma alegórica o quão grande é a criatividade dos tiranos e tiranetes deste mundão para silenciar as vozes que não estão de acordo com sua opereta.

De todas as obras distópicas, o livro “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury, tem um lugar de destaque. Nesta distopia, o autor descreve-nos uma hipotética sociedade futura onde as pessoas não leem mais livros.

Neste universo ficcional, ler é um crime gravíssimo e, por isso, todas as vezes que livros eram encontrados, eles eram queimados, ironicamente, pelo corpo de bombeiros que, com seus lança-chamas, consumia as obras à temperatura de 451 graus Fahrenheit.

Mas por que fazer uma barbaridade dessas? Ora, porque livros são perigosos. Eles são um perigo porque expõem as pobres pessoinhas a diferentes perspectivas sobre a vida; questionam-nas, causando desconforto ao retratar a complexidade da existência humana; e fazem tudo isso exigindo um longo tempo de concentração e reflexão sobre o que foi lido.

E como as pessoas, neste mundo imaginário, chegaram ao ponto de encarar a leitura como algo tão perigoso? Bem, é aí que mora a sutileza desse trem doido: as pessoas desinteressaram-se pela leitura porque estavam saturadas de informações (de serventia pra lá de duvidosa). Todos possuíam em suas casas as tais “teletelas”, que nada mais seriam que televisões que ocupavam praticamente toda uma parede.

Essas estrovengas funcionavam como um sofisticado instrumento de alienação e controle social — ou de entretenimento e lazer, se preferir —, fornecendo para a população uma programação incessante, superficial e interativa, que de um jeito muito bizarro substituía a realidade, as relações genuinamente humanas e, de quebra, sabotava sem dó o pensamento crítico, mantendo os cidadãos em um perene estado de transe, como se estivessem hermeticamente encarcerados em uma bolha midiaticamente edificada.

Graças a Deus que esse trem sinistro existe apenas nas páginas distópicas de Bradbury. Já imaginou viver numa sociedade assim, onde as pessoas preferem bater um lero-lero com uma tela fria de cristal do que olhar no olho de uma pessoa de carne e osso para trocar umas ideias? Pois é…

E esse é o ponto: quando as pessoas vão deixando de lado a prática da leitura — de obras literárias, não de postagens aleatórias e mensagens no WhatsApp —, a atenção dos indivíduos vai gradativamente se esfarelando, a paciência vai se esgotando e o discernimento sendo embotado por um fluxo sem fim de informações desconexas que, ao serem consumidas de forma conspícua, produzem uma estranha sensação de satisfação soberba que, sem pedir licença, vai tomando o lugar daquilo que um dia convencionou-se chamar de pensamento crítico, mas que hoje, francamente, não quer dizer muita coisa, sendo apenas mais uma forma diferente de nominar a nossa soberba satisfação frente ao consumo desregrado de informações de pouca ou nenhuma valia.

Enfim, graças a Deus nosso país está a léguas de distância das páginas desta triste distopia onde os indivíduos não mais tem disposição e paciência para ler um livro, não é mesmo?

(Dartagnan da Silva Zanela – professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “UM GRANDE MONTE DE PÓ E SOMBRAS”, entre outros livros)

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