Renovar o Congresso, inimigo do meio ambiente, é essencial para vencer a crise climática

Set 18, 2026 - 03:00
 0
Renovar o Congresso, inimigo do meio ambiente, é essencial para vencer a crise climática

A Nexus publicou uma pesquisa, em agosto de 2026, sobre a percepção dos brasileiros em relação ao Super El Niño. Os resultados apontaram que 91% dos entrevistados se preocupam, em algum grau, com a possibilidade de o fenômeno afetar a economia do país. Uma maioria também se preocupa com os impactos na saúde, além de outras questões como o abastecimento de água e o preço da conta de luz. 

A pesquisa foca no El Niño de maneira parecida com o que a  grande imprensa faz. Já que os eventos climáticos extremos deste ano são notáveis e já deixaram um rastro de tragédias ao redor do mundo, não há como negá-los.

Porém,  a narrativa isola o El Niño, como fenômeno natural, esquecendo o pano de fundo que o potencializou ao ponto de ganhar o apelido de Super: as mudanças climáticas.

Trata-se de uma posição conveniente. Se culpamos o El Niño por tudo, podemos cobrar posturas de adaptação e resposta emergencial, sem outras mudanças radicais na economia e nos projetos políticos para a sociedade.

Lembrar de que estamos sob emergência climática é também recordar que uma transição socioecológica, que confronte o capitalismo e o autoritarismo contra pessoas e natureza, é imprescindível.

‘Muita gente sofre os impactos sem ser responsável pelas causas. Além disso, há vários grupos interessados em lucrar com os impactos, apresentando respostas parciais e mercadorizando soluções’.

Diferente do El Niño, a crise climática é resultado da ação de seres humanos. A minoria mais rica e poderosa do planeta destrói as condições de vida, explora povos inteiros e acumula cada vez mais fortuna enquanto empurra a Terra ao extremo. De fato, já ultrapassamos sete de nove limites planetários, o que significa que produzimos, consumimos e vivemos fora de uma zona segura de condições ecológicas.

Tanto a crise climática quanto os demais limites ultrapassados – o prejuízo ao ciclo de água doce ou a extinção de várias espécies – se refletem nas desigualdades. Muita gente sofre os impactos sem ser responsável pelas causas. Além disso, há vários grupos interessados em lucrar com os impactos, apresentando respostas parciais e mercadorizando soluções

Então, quando as pessoas dizem se preocupar com o El Niño, mas não conectam os impactos à crise ecológica e à desigualdade econômica, encontramos um grande problema. Políticos e corporações se aproveitam do cenário para intervir na sociedade, sem precisar se responsabilizar pelos danos que eles mesmos têm causado.

Negacionismo nas eleições

É nesse contexto que estamos prestes a passar por mais uma eleição federal no Brasil. Chama a atenção como várias candidaturas à Câmara dos Deputados e ao Senado abordam ou deixam de abordar a crise ecológica, muitas vezes reduzida à “questão ambiental” e nada mais. Os candidatos são negligentes com a importância da natureza para a vida, e   apresentam propostas fracas, fantasiosas, desconectadas da realidade, sem pé nem cabeça.

O reducionismo já é tanto que não é preciso ser especialista em ecologia para se assustar com a resposta de Flávio Bolsonaro na sabatina do Jornal Nacional. Quando Renata Vasconcellos o questionou sobre um artigo de 2019, em que ele afirmou não existir aquecimento global e alegou que “o mundo estaria passando por um resfriamento”, a resposta chocou, por soar como uma dissociação cognitiva.

Flávio respondeu que “o que acontece hoje são eventos climáticos extremos. Excesso de calor, excesso de chuva, excesso de seca. Eu acredito que são efeitos cíclicos”. O candidato, então, sugeriu que “a melhor forma que nós temos de proteger o meio ambiente é oferecer saneamento básico para a população”.

A fala parece estranha, mas faz parte de uma lógica que está se consolidando na extrema direita.

‘O debate despolitizado sobre o El Niño está sendo instrumentalizado por negacionistas climáticos para que possam atender às cobranças de administrar os impactos sem que precisem lidar com as causas das crises ‘.

Na coluna do mês passado, trouxe, inclusive, que o governo de Donald Trump está se aliando ao governo do novo presidente colombiano, Abelardo de la Espriella, para até mesmo oferecer apoio humanitário em caso de eventos extremos, mas, claro, classificando-os como resultado do El Niño. Daí a ideia de tratar como algo cíclico, que faz parte de fenômenos naturais que vêm e vão.

O debate despolitizado sobre o El Niño está sendo instrumentalizado por negacionistas climáticos para que possam atender às cobranças de administrar os impactos sem que precisem lidar com as causas das crises — até porque, muitas vezes, são eles as causas dos problemas.

Um Congresso da devastação

Se na época de Jair Bolsonaro, o então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, se aproveitou da pandemia para passar a boiada, o atual Congresso Nacional conseguiu implodir ainda mais a política ambiental brasileira. 

O maior destaque é, sem dúvidas, a aprovação do PL da Devastação em 2025. A lei removeu requisitos de estudo de impacto e criou a Licença Ambiental Especial, que se aplica mesmo quando o empreendimento causa degradação significativa da natureza. Por trás disso tudo estavam o deputado Zé Vitor, do PL de Minas Gerais, e a senadora Tereza Cristina, do PP do Mato Grosso do Sul, como relatores, e Hugo Motta, do Republicanos da Paraíba, que, como presidente da casa, conduziu a votação na calada da noite.

Já o PL do Veneno conta uma história de fraqueza da base do governo no Congresso, o uso do projeto como moeda de troca em negociações, as limitações impostas pelas tramitações longas de projetos e a dificuldade dos partidos aliados em convocar a população sobre o tema. O projeto teve a oposição de importantes instituições, como o Instituto Nacional do Câncer, a Fiocruz e a Anvisa. Lula sancionou o texto, com alguns vetos.

O Congresso, em resposta, derrubou parte deles entre 2024 e 2025. Trata-se de uma das grandes vitórias da Bancada Ruralista nos últimos anos. A Frente Parlamentar da Agropecuária, a FPA, conta com 345 parlamentares no total. Seus 297 deputados já formam, apenas entre si, maioria na Câmara. 

Considerando que a maioria esmagadora da FPA é composta por partidos do centro à extrema direita, seria necessária uma renovação radical do Congresso para que embarcássemos em uma rota de reparações ambientais e políticas realmente orientadas ao combate às mudanças climáticas.

Os interesses do agronegócio são dominantes em diversas agendas do parlamento e membros da bancada ruralista também são ativos contra os direitos reprodutivos, as proteções de gênero, raciais e de sexualidade, além de agirem para reforçar o estado penal e punitivista.

Nossos problemas com a bancada agregada da bíblia, do boi e da bala aumentam a cada eleição. Há pouco interesse dos outros poderes em realmente frear propostas absurdas, abrindo espaço para articulações cada vez mais perigosas.

O Marco Temporal – tese que exclui povos indígenas da demarcação de muitos de seus territórios – revelou um verdadeiro cabo de guerra entre o legislativo, o executivo e o judiciário nos últimos anos:

– O STF derrubou a tese por inconstitucionalidade duas vezes, em 2023 e em 2025. 

– O presidente Lula também vetou parte da Lei 14.701/2023, que validaria a regra.

-Em resposta, o Congresso derrubou o veto presidencial e hoje está ainda mais ousado. Passou a tramitar a PEC 48/2023, para inserir o marco temporal na Constituição. O projeto já foi aprovado no Senado em 2025.

Mesmo trabalhando incessantemente contra a natureza, povos indígenas, trabalhadores rurais, e, consequentemente, pela chance de presente e futuro saudáveis pro povo brasileiro, o agronegócio segue financiado e privilegiado na economia brasileira.

LEIA TAMBÉM:

explorei no Intercept Brasil a recusa do sistema político em desinvestir do agro, o que deve ser considerado quando falamos de eleições. Por mais que entendamos que candidaturas contrárias à natureza dominam as opções dos eleitores em todas as unidades federativas, sabemos que falta coragem de partidos de centro esquerda para romper alianças com quem degrada, polui e mata.

Entre o ambientalismo tímido e a boiada sem limites

Isso indica a presença de um problema mais profundo. Além de lidarmos com uma direita destruidora, temos um sistema político enfraquecido, entregue aos trâmites do capitalismo, que favorece visões parciais e distorcidas sobre o papel da natureza em nossa vida.

Uma análise do Observatório do Clima sobre seis das candidaturas à presidência revela um panorama preocupante: nem mesmo Lula, que se destaca em algumas promessas sobre conservação e apoio a comunidades tradicionais, apresentou um plano específico para lidar com o El Niño. Mais que isso, já que o El Niño é realmente um fenômeno cíclico, a abordagem do atual governo é insuficiente para fazer a transição climática justa de que o Brasil tanto precisa.

O problema é que, do outro lado, a política é muito, muito pior. Candidaturas como a de Flávio Bolsonaro, de Ronaldo Caiado e de Renan Santos refletem como os parlamentares eleitos por seus partidos e coligações agirão nos próximos anos.

Estamos em um cenário eleitoral apertado, que certamente tem chacoalhado figurões na campanha de Lula que estavam, há pouco, menosprezando preocupações da base e atuando em clima de “já ganhou”.

Caso Lula ganhe, é provável que a vitória venha com pequena margem, como em 2022. O presidente terá, mais uma vez, que lidar com um Congresso avassalador. E como foi praxe nos três mandatos de Lula, a opção será por governar em sistema de presidencialismo de coalizão, abaixando bandeiras importantes para negociar outras na Câmara e no Senado.

Caso Flávio se eleja, as portas do inferno se abrirão novamente para que a direita parlamentar faça a festa sem pudor, sem restrições e sem vetos. Nada impede, por exemplo, que uma presidência de Flávio Bolsonaro retome a perigosa PEC 3/2022, a “PEC das Praias”, que ainda tramita no Senado sob sua relatoria.

A gestora ambiental Letícia Camargo, atuante na defesa dos oceanos, alerta que a retomada da PEC das Praias representaria a vitória dos interesses privados, da especulação imobiliária e da exploração econômica sobre o interesse público e o patrimônio nacional, em detrimento especial dos povos e comunidades tradicionais que vivem e cuidam desses territórios.

Ainda, é preciso destacar o que se passa com o PL dos Minerais Críticos. A postura de Lula é, infelizmente, fraca e irresponsável. Prevalece no governo e na esquerda desenvolvimentista uma visão sobre mineração que confunde soberania com royalties e projetos de cooperação em industrialização.

O presidente fala da exploração de terras raras, por exemplo, como se o impacto fosse mínimo, facilmente compensado, e tolerado pelas populações atingidas. A ideia de zonas de sacrifício e a importância de preveni-las passam longe de Lula. Uma discussão de qualidade sobre a transformação do modo de produção brasileiro para tentar conciliar soberania em mineração e soberania ecológica é inexistente.

É preciso honrar a verdade: o discurso do governo de que esse PL é chave para a soberania brasileira não se sustenta na prática. Ainda sim, movimentos e organizações da sociedade civil veem na reeleição de Lula uma necessidade, pois ajuda a manter algum nível de diálogo com a base governista no Congresso.

Além disso, tratando-se de Flávio Bolsonaro, o cenário consegue ser ainda pior. Sua turma quer facilitar contratos com os Estados Unidos para a exploração direta de minérios, desmantelando ainda mais o licenciamento e a fiscalização para fortalecer a atuação das mineradoras.

Considerando que Trump tem articulado o Pax Silica, como aliança comercial imperialista e neocolonial que garanta o acesso aos recursos da cadeia produtiva de inteligência artificial e tecnologias militares, sob Bolsonaro, o Brasil pode se tornar peça-chave da engrenagem bélica trumpista.

A reeleição de um Congresso da devastação, protegido por Flávio, é o que falta para desmontar de vez o Código de Mineração e destruir as proteções dadas a territórios indígenas.

A importância do legislativo nesse contexto

‘Dessa casa poderia sair um grande plano de transformação ecológica do Brasil, de modo a influenciar onde Lula tem falhado e até restringir Flávio caso fosse ele o presidente’.

O cuidado com a natureza não é um imperativo moral ou algo bonito para se admirar no Dia da Terra ou do Meio Ambiente. Trata-se das condições mais básicas para vivermos em segurança. Eleger quem vê a natureza como prioridade e conecta nossa economia à isso deveria estar no centro das escolhas da população.

Isso conta para a presidência, para os governos estaduais, mas talvez conte ainda mais para o legislativo. É dessa casa que tem saído as maiores aberrações destrutivas dos últimos anos. Portanto, dessa casa poderia sair um grande plano de transformação ecológica do Brasil, de modo a influenciar onde Lula tem falhado e até restringir Flávio caso fosse ele o presidente.

O voto do povo brasileiro para parlamentares estaduais e federais em 2026 pode fazer a diferença entre vivermos em calamidade ecológica ou usufruirmos de uma sociedade mais sustentável, mais saudável e com mais qualidade de vida.

Para aqueles que estão preocupados apenas com a escolha do presidente, lembrem-se de que a política institucional está dividida em poderes, e é preciso votar melhor para deputados e senadores, se quisermos que o parlamento realmente honre seu nome como “casa do povo”. 

O post Renovar o Congresso, inimigo do meio ambiente, é essencial para vencer a crise climática apareceu primeiro em Intercept Brasil.

Qual é a sua reação?

Como Como 0
Não gosto Não gosto 0
Amor Amor 0
Engraçado Engraçado 0
Nervoso Nervoso 0
Triste Triste 0
Uau Uau 0