Sabrina Fernandes: ‘Flávio Bolsonaro é Jair Bolsonaro’

A situação brasileira hoje é muito similar ao que aconteceu nos Estados Unidos dois anos atrás, argumenta a socióloga e economista Sabrina Fernandes. Na terra do Tio Sam, Donald Trump tentou um golpe de estado e não teve sucesso, mas voltou fortalecido e saiu empoderado da última eleição para fazer um segundo mandato muito mais radical.
Aqui no Brasil, o ex-presidente que tentou um golpe, Jair Messias Bolsonaro, foi condenado. Isso não impediu seu filho, Flávio Bolsonaro, de concorrer como representante do bolsonarismo e sair em primeiro lugar no primeiro turno das eleições.
Com um Congresso a seu favor e a capacidade para abrir processos de impeachment contra ministros do Supremo Tribunal Federal, o STF, no Senado, Flávio Bolsonaro vai poder fazer um governo Jair Bolsonaro 2.0, turbinado.
O risco para a democracia é real. Sejam as promessas de mudança na Constituição ou a defesa de anistia para todos que tentaram um golpe contra o estado democrático de direito entre 2022 e 2023, os sinais de um segundo mandato bolsonarista mais autoritário estão aí.
Na reta final das eleições, o Intercept Brasil organizou uma edição especial da coluna No Fim do Túnel, da socióloga e economista Sabrina Fernandes. No lugar dos textos de análises, fizemos uma conversa sobre eleições.
Você pode assistir e ouvir a conversa na íntegra no YouTube do Intercept Brasil, ou ler uma versão transcrita e editada abaixo.
Intercept Brasil — Estamos chegando na reta final de um segundo turno marcado por censura e interferência de big techs. Tentar explicar racionalmente pontos de campanha e de projeto de governo é cada vez mais difícil. Sabrina, sobre o que a gente ainda pode conversar nessa reta final? Quais alguns temas centrais que a esquerda pode abordar?
Sabrina Fernandes — Houve uma expectativa talvez um pouco otimista por parte do campo democrático [que falar de corrupção funcionaria contra Flávio Bolsonaro]. E é bom que você colocou como campo democrático, porque não é só a esquerda e o campo progressista, são pessoas que têm preocupação com autoritarismo e o fechamento do regime que pode vir com Flávio Bolsonaro presidente e um Congresso muito dominado por seus aliados, principalmente pelo PL.
Saiu a pesquisa recente do Datafolha agora, mostrando que as pessoas estão preocupadas com segurança pública, questões de economia e questões de saúde.
Um ponto fácil para falar de segurança pública é a questão do armamento. A gente sabe que a maioria esmagadora dos brasileiros não quer a flexibilização completa de armas. O governo Jair Bolsonaro fez justamente isso: facilitou que armas fossem parar nas casas de famílias e que crianças tivessem acesso por conta de um descuido. Você ser CAC [Caçador, Atirador e Colecionador] nem significa que você sabe manusear uma arma. Virou uma bagunça.
Há uma preocupação muito grande com essa violência cotidiana, especialmente das mulheres. Quando a gente fala do aumento de feminicídio no Brasil, é importante [ressaltar que] esses dados surgiram durante o governo Lula, quando isso não foi empurrado para debaixo do tapete, quando trouxeram políticas públicas relacionadas a isso.
A gente precisa falar por que as mulheres estão morrendo. Elas estão morrendo porque tem conservadorismo, tem homens que são muito machistas e que estão se sentindo cada vez mais em posse das mulheres – que às vezes nem se relacionam com esses homens, mas talvez disseram “não” uma vez ou outra. Há espaços para entrar nesse assunto.
[No caso da] economia, eu voltei em um vídeo meu de 2022, quando eu ainda tinha canal no YouTube, em que eu citava algumas promessas de campanha que o Lula estava fazendo. Ele cumpriu todas em relação à economia, tratando de endividamento da população e de cuidado com as pessoas em relação a uma tentativa de promover justiça tributária no Brasil. Nós temos ângulos. A gente precisa bater nessas teclas.

Estamos num ano em que todos os indicadores tradicionais da economia, como inflação e desemprego, estão bons. Falar desses números parece não ter tanto efeito. O assunto que tem dominado o bate-papo econômico nos últimos tempos é um tema espinhoso e complicado: a dívida pública. A grande mídia está muito preocupada e até pessoas normais estão falando de dívida pública. Por que isso está mexendo tanto com as pessoas?
A palavra dívida é uma palavra ruim, negativa. As pessoas já colocam isso na cabeça e falam: “Meu Deus, o país tá endividado”. Então, por mais que [o Brasil] esteja melhor em termos de emprego, de valorização do salário mínimo, com programas para lidar com as dívidas pessoais e com dívidas de pequenos empreendedores, a ideia de uma dívida pública dá a noção geral na cabeça da pessoa de que o estado está desgovernado.
O que eu tenho resolvido conversar com as pessoas é: você sabia que a dívida pública dos Estados Unidos é muito maior do que o seu PIB? Lá o comprometimento com a dívida pública tá passando de 100%, chegando a 120% do PIB. É um PIB muito maior e tem, sim, muito gasto desenfreado.
O estado dos Estados Unidos não é enxuto, ele é completamente enviesado. É só olhar para o poder militar dos Estados Unidos. Vai gastar muito ali, mas dando isenção fiscal, cortando impostos dos mais ricos. Aqui a gente entra no ponto sobre o Brasil.
Nós temos planos e trabalhamos nos últimos anos para poder taxar os mais ricos. Isso incomodou esse empresariado, e é por isso que eles estão fazendo campanha ativa contra a reeleição de Lula e a favor de Flávio Bolsonaro, dizendo “tá vendo, as contas não estão em dia”.
A gente quer colocar as contas em dia. A gente precisa investir mais em saúde, educação e segurança pública, a gente quer colocar o estado a favor das pessoas, mas para isso a gente precisa de recursos. Não vamos tirar esses recursos dos mais necessitados.
É claro que o número [de comprometimento do PIB pela dívida pública] não é o que está pegando a pessoa. O que está pegando é pensar: “Nossa, o Brasil tá endividado, ele está desgovernado”. Então a gente tem que explicar que isso é um mecanismo muito normal de atuação do estado, existe no mundo inteiro. Os Estados Unidos têm uma dívida pública maior do que a do Brasil.
Quando o estado se endivida, ele faz isso para investir em você, investir na população, ou ele está fazendo isso para poder ajudar os mais ricos, que no final das contas vão querer cortar esses serviços assim que possível? É o que eles esperam com o governo do Flávio Bolsonaro.
O Flávio dá muitos sinais diferentes. Para o mercado [financeiro], ele fala que vai cortar tudo. Obviamente, na campanha ele fala que não vai cortar nada, que o salário mínimo vai continuar tendo valorização real. É viável esse plano do Flávio? Quando ele fala de [se inspirar no plano econômico de Javier] Milei, é motivo para se preocupar?
Se a gente estivesse falando de qualquer outro candidato do PL com outro nome, outro sobrenome, outra família, pareceria esquisito. Mas Flávio Bolsonaro é Jair Bolsonaro. Quando a gente fala do legado de um, é o governo do outro que está sendo proposto. Não tem divisão aqui.
Jair Bolsonaro promoveu isso. Flávio Bolsonaro quer continuar nessa linha. Ele não precisa falar literalmente que vai cortar dinheiro das universidades públicas. Seria uma péssima campanha fazer isso. Ele está fazendo campanha, então ele não vai dizer literalmente que vai tirar dinheiro da Farmácia Popular. Mas o pai dele tirou.
Quando você reduz o orçamento dessa forma, falando dessa cifra de R$ 200 bilhões, vai sair de onde? “Vamos tirar um ministério ou outro”. Não tem nenhum ministériozinho que você arranca, ele é completamente desnecessário e o gasto some.
Algo que já vem do legado de Jair Bolsonaro é tirar de um lugar, como Farmácia Popular, e facilitar as emendas parlamentares. Então você perde completamente a noção, a ordem e a estratégia das contas do governo e entrega para indivíduos que estão ali para se reeleger e favorecer seus aliados locais.
O que a gente vê é que Flávio Bolsonaro vai desmontar uma lógica de investimento do estado brasileiro, e quem sofre primeiro são aqueles mais dependentes dos serviços públicos imediatos.
Todo brasileiro usa o SUS, mesmo aquele que não vai no postinho de saúde, que paga um plano de saúde ou faz atendimento particular, porque o sistema de saúde está basicamente no ar. Se as pessoas não são vacinadas ao seu redor, isso também te afeta. A gente está falando de algo que é sistêmico e, se você corta por aqui, todo mundo acaba sendo afetado.
A gente viu o efeito disso com as mortes em excesso na pandemia. O Brasil teve mortes acima do que seria a média esperada para a nossa população. Eu sempre pergunto para as pessoas: Se a gente tiver uma outra pandemia — e as estatísticas estão aí, o planeta vai passar por novos riscos de epidemia e de pandemia, porque é assim que a mudança climática e a exploração animal industrial funcionam —, quem está preparado para lidar com isso? Alguém que quer investir na população ou alguém que vai fazer cortes transversais para todo lado, dizendo que está enxugando o estado?
No caso das universidades públicas, os estudantes brasileiros estão corretíssimos em se mobilizar desde agora. Já está havendo perseguição do Flávio Bolsonaro até para cima da presidência da UNE [União Nacional dos Estudantes]. Cadê o aspecto democrático de poder liderar, de poder protestar? Ele já está começando isso agora. Imagina se esse cara é eleito.
Os estudantes estão corretíssimos, os professores têm que se juntar nessa pauta. Porque se você está flertando com a ideia de pegar os institutos federais e as universidades federais e colocar no bolo do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação, que tem orçamento e infraestrutura muito menores, isso é um desmonte.
Sabrina, você fez uma relação, que até o próprio Flávio faz, entre ele e o pai dele. Esse é um governo de continuação, mas muita gente não vê assim.
Ele realmente é esse Bolsonaro que não vai brigar com a imprensa e vai ser moderado? Por que essa impressão pega tão forte para as pessoas?
Eu acho que a impressão pega forte porque Jair Bolsonaro é completamente esdrúxulo. Qualquer pessoa com um pouquinho mais de palavra polida, um pouquinho mais de calma parece ser uma pessoa extremamente educada, intelectual e preparada ao lado de Jair Bolsonaro. Mas quando a gente pensa o que é ser preparado nesse caso, Flávio Bolsonaro acaba sendo mais perigoso.
A gente tem que olhar muito essa situação do governo Trump. Então, quando você tenta um golpe de estado e, mesmo que no caso de Jair Bolsonaro ele esteja condenado, mas daí você [ou seu grupo político, com Flávio] ainda volta com força, você fica em primeiro lugar no primeiro turno, você está muito empoderado.
A impressão que Flávio Bolsonaro, o PL e seu campo tem é que eles podem fazer qualquer coisa que eles ganham a eleição. Flávio Bolsonaro é Jair Bolsonaro 2.0, e Jair Bolsonaro 2.0 é muito perigoso.
Está tudo muito mais articulado. Há um governo Trump ocorrendo no exato momento e uma onda de autoritarismo na América Latina está realmente se espalhando pela região. [Trump] tem mais aliados, a essa articulação, inclusive [o estrategista digital ligado a Trump, Milei e Eduardo Bolsonaro, Fernando] Cerimedo, para eleger Flávio Bolsonaro também parte desses setores.
Desse ponto de vista, ele é muito mais perigoso, porque chega mais empoderado, com mais aliados e com essa impressão de “eu falo um pouquinho menos pior do que o meu pai, eu não sou tão esdrúxulo, eu sou inteligente”.
Isso pega na cabeça das pessoas que já são antipetistas, que foram moldadas ao longo de muitos anos para odiar o PT, para odiar o Lula. Embora, se você for vasculhar ali, conversando com a pessoa, ela apoia muitas pautas que são de esquerda. Mas ela está presa nesse sistema de despolitização.
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Quando a gente fala de campanha de qual Brasil a gente quer, estamos falando de desejo, de vontade, de um sonho para um futuro. Quais são os principais desejos que estão sendo mobilizados nessa eleição? O que mexe com uma pessoa a ponto de fazer ela sair de casa para votar, já que estamos falando de 33 milhões de abstenções pelo país?
Eu gosto de mencionar a campanha do Zohran Mamdani lá em Nova York. É claro que a gente está falando do âmbito municipal, então a escala é muito diferente, os poderes são muito diferentes e é um outro país. Mas eu vi muita gente, erroneamente e superficialmente, atribuindo o sucesso da campanha do Mamdani simplesmente à sua tática de comunicação, com uma equipe incrível e excelente uso de redes sociais. Aí ficam dizendo: “Tá vendo? O Lula tem que fazer igualzinho”.
Primeiro que copiar o outro não soa autêntico, então você não vai ter o impacto que imagina que vai ter. Essa questão de fórmula secreta das redes sociais é muito preocupante, na minha opinião.
Mas o Zohran não somente conseguiu mobilizar um discurso e um debate em redes sociais, ele também colocou voluntários na rua, gente que saía dizendo: “Eu acredito nesse projeto de governo para Nova York e eu quero conversar com gente em cada esquina dessa cidade para poder eleger esse cara”. O desejo estava presente. Não foi no último minuto que ele fez isso, foi desde as primárias que ele estava plantando esse desejo nas pessoas.
Para fazer um bom debate, a gente tem que trabalhar com a ideia de futuro e de qualidade de vida. Quando a gente fala em qualidade de vida, fala de várias coisas, como sistema público, o que esse ministério faz, coisas muito distantes, mas qualidade de vida é você poder andar na rua de noite em segurança. É você, como mulher, pensar: “Olha, eu posso andar quatro quarteirões tranquila em vez de ter que pagar um Uber só para andar quatro quarteirões”.
Qualidade de vida são ganhos muito simples na vida da pessoa. O nosso grande porém é que ela precisa associar essa política do cotidiano com esse projeto de nação. Então, a gente ainda tem uma grande lacuna. Mesmo quando você tem um governo progressista no poder e ele faz coisas boas para as pessoas, aquele impacto que diminui a sua conta do supermercado não está sendo associado diretamente com essas políticas que foram colocadas em práticas nos últimos anos, muitas a grande custo porque estamos lidando com um Congresso de direita.
O que eu passei o último período escrevendo na coluna foi trazendo também as falhas do governo Lula, falhas de articulação e de não ousar o suficiente. Nesse momento do segundo turno, a gente está vendo, finalmente, algumas políticas que a gente estava pedindo há dois ou três anos. Vamos ousar desde o começo, para dar tempo para as pessoas absorverem, entenderem e associarem. Se você está trazendo as políticas meio encavaladas, logo no final, não necessariamente elas vão associar com o seu projeto político. Talvez elas possam entender simplesmente como desespero eleitoral.
Por isso que a gente sempre pede: o governo tem que chegar com pé na porta. Caso o Lula seja reeleito, agora não tem mais desculpa. Tem que ser com o pé na porta mesmo. Tem que ouvir a população e ousar ser muito radical. Porque não tenham dúvidas: se Flávio Bolsonaro for eleito, ele vai chegar com o pé na porta. Ele vai ter um Congresso a seu favor e prontinho para colocar um STF a seu favor, também.
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