A morte de Jason Arday e o frágil lugar de pessoas negras em espaços de poder acadêmicos 

Agos 22, 2026 - 20:00
 0
A morte de Jason Arday e o frágil lugar de pessoas negras em espaços de poder acadêmicos 

Um dos lugares mais solitários do mundo para uma pessoa negra é a docência acadêmica. Melhor: um dos lugares mais solitários do mundo para uma mulher negra é a docência acadêmica. Eu poderia refinar ainda mais esses dados – trazer para eles pessoas indígenas, transgêneras etc – e vocês sabem onde eu iria chegar.

Antes que a tropa de choque da relativização, da meritocracia ou do “é tudo vitimização/mimimi” se levante, ofereço alguns números divulgados em pesquisas variadas. A primeira é o Censo da Educação Superior, realizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, o Inep. A última edição mostra que 60,9% dos docentes em exercício na educação superior brasileira se declararam brancos, enquanto 19,6% disseram ser pardos e apenas 3,2%, pretos. Amarelos são 1,1%, enquanto indígenas representam apenas 0,4%. Outros 14,8% não declararam cor/raça. Os dados (gráficos 33, 34 e 35) divulgados este ano foram coletados em 2024.

Quando vamos especificamente para a pós-graduação, área de maior prestígio e com mais acesso a recursos e fomentos, a disparidade é ainda mais intensa. Uma pesquisa divulgada em 2023, realizada pelo Instituto Serrapilheira em parceria com o Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa, o Gemaa, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, a UERJ, mostra o tamanho da desigualdade. Os dados são especificamente das áreas de ciências exatas, da terra e biológicas, onde a presença de docentes brancos é 12 vezes maior que a de pretos, pardos e indígenas. Eles representam 90,1% dos professores dessas áreas. Pretos, pardos e indígenas somam 7,4%; amarelos, 2,5%. O contraste fica mais evidente quando se olha para a composição da população brasileira: segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, pretos e pardos são 55,5% dos brasileiros, e indígenas, 0,6%.

Quando cruzamos as variáveis de gênero e raça na pós-graduação, o cubo branco que a tudo rodeia se torna tanto mais amplo quanto sufocante. A Gênero e Número, com base em dados do Inep, mostrou em 2018 que menos de 3% das docentes na pós-graduação no país eram mulheres negras doutoras. Entre as professoras brancas com a mesma escolaridade, pouco mais de 10 mil estão na docência da pós-graduação – são 19% dos 53.995 professores de cursos de doutorado, mestrado e especialização. Se formos ao corpo discente, a desigualdade é igualmente intensa: pessoas negras representaram menos de 5% dos alunos e alunas de pós-graduação que concluíram mestrado e doutorado entre 1996 e 2021.

Há certamente a necessidade de atualizar parte desses dados. A boa notícia é que, finalmente, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, a Capes, está realizando o primeiro Censo da Pós-Graduação stricto sensu, que coleta dados demográficos, socioeconômicos, culturais, étnico-raciais e de gênero de um universo de 504 mil participantes, que inclui docentes e discentes de todas as áreas. A divulgação dos resultados está prevista para novembro de 2026.

Precisar provar e-x-p-l-i-c-a-d-i-n-h-o aquilo que é evidente é uma constante em minha experiência não só como docente e pesquisadora. Precisar reiterar constantemente as coisas, sublinhar, colocar em letras garrafais, em neon, em bold, dizer de novo e de novo e de novo são estratégias para que minha voz, minhas ideias e minha capacidade sejam levadas a sério. Essas ações são fundamentais e necessárias quando qualquer pessoa negra, especialmente mulheres, chega aos espaços de maior poder – eu, por exemplo, faço parte desses quase 3% de doutoras que ensinam em uma pós-graduação no país. Um cargo, diga-se de passagem, que oferece bastante trabalho e responsabilidade, mas nenhum recurso salarial extra. 

É um dos lugares mais solitários do mundo, repito. As reuniões, os congressos, as revistas acadêmicas, os seminários, os debates, as publicações: solidão. As tentativas de demonstrar que é preciso muitas vezes um enfrentamento para além do que está escrito no papel: solidão. Ela acontece, reparem, ao mesmo tempo em que tentam transformar a nossa presença como uma prova cabal de que a “representatividade” está acontecendo. Tudo com muito sorriso e “afeto”.

Mas como bem me disse o genial José Eduardo Ferreira Santos, um dos criadores do Acervo da Laje, na periferia de Salvador, representação sem presença é miragem.

(Não pensem que não estejamos atentos e atentas a tudo isso).

Mas casos recentes mostram que nem mesmo provando competência em diferentes instâncias uma pessoa negra consegue entrar – e permanecer – na docência do ensino superior. Um professor negro e duas professoras negras, aprovado e aprovadas em concursos federais pela reserva de vagas, viram suas nomeações desmoronarem quando candidatas da ampla concorrência foram à Justiça.

Allison Ruan, engenheiro químico paraibano, lecionou o primeiro semestre inteiro de 2026 na Universidade Federal de Pernambuco, a UFPE, e soube, no meio do expediente, que sua posse havia sido anulada; a vaga passou à candidata Brígida Villar da Gama (aqui, o que diz sua defesa), que entrou com o processo. Semanas antes, no mesmo edital 08/2025 da UFPE, Rafaela Niels da Silva, aprovada para Saúde da Mulher, trabalhou menos de uma semana antes de ter a nomeação suspensa após ação de Belisa Duarte de Oliveira. E, em 2024, Lorena Pinheiro Figueiredo, otorrinolaringologista, foi barrada por liminar de assumir a cadeira que a tornaria a primeira professora cotista negra da história da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia, a UFBA, perdendo a vaga para Carolina Cincurá Barreto. 

LEIA TAMBÉM:

A questão jurídica no centro dos três casos é a mesma: como se calcula a reserva racial em concursos com muitas áreas. A regra – tanto a antiga lei nº 12.990/2014 quanto a atual lei nº 15.142/2025, que substituiu a primeira em junho de 2025 – manda calcular o percentual sobre o total de vagas do edital, não por departamento. É importante notar que os concursos correm sob leis distintas: o da UFBA (edital 01/2023) aconteceu sob a lei antiga, que reservava 20% e se aplicava a partir de três vagas; o da UFPE (edital 08/2025) já sob a nova lei, que reserva 30% (25% negros, 3% indígenas, 2% quilombolas) e incide a partir de duas vagas. Em ambos os regimes, porém, as ações judiciais sustentam o oposto: como cada especialidade oferecia uma única vaga, ela não poderia ser destinada para cotistas.

Mas, fatiando o concurso área por área, a reserva encolhe ou desaparece. No caso de Allison Ruan, a defesa ainda invocou o acórdão 1.278/2026 do Tribunal de Contas da União, o TCU, que identificou recentemente falhas graves justamente no ingresso de cotistas nos concursos federais. No de Lorena Pinheiro Figueiredo, uma juíza acatou o argumento em liminar de urgência, sem ouvir a UFBA, contrariando o entendimento do Supremo Tribunal Federal, o STF, que validou as cotas. Figueiredo acabou empossada meses depois por nova decisão; Ruan e Rafaela Niels da Silva seguem fora, com os processos em curso. O padrão é evidente: a lei protege os cotistas, mas a judicialização do fatiamento vem servindo para reverter, um a um, os poucos que chegam. A UFPE informou que as decisões não foram administrativas, mas cumpridas após determinação judicial. 

Perguntei a Allison se ele acha que há um movimento anticotas na Justiça e ele respondeu que não. “Mas acredito que talvez percepções pessoais, vieses políticos e sociais influenciem na tomada de decisões, visto que a legislação atual que trata sobre o caso é clara, precisa; no texto não cabe interpretação. O texto diz exatamente o que a universidade seguiu. A nova lei está sendo posta à prova. Essas sentenças criam jurisprudência. O que ocorre é que a lei de cotas vai perdendo a finalidade. Ela vai existir no papel, mas não vai servir”, disse.

Escrevo tudo isso (e me entristeço profundamente) logo depois da morte do professor Jason Arday, que havia recentemente deixado o cargo de docente na Universidade de Cambridge, na Inglaterra. O sociólogo foi muito celebrado pela conquista: aos 37 anos, era o professor negro mais jovem ingressando no professorado da instituição (nas universidades do Reino Unido, apenas cerca de 1% dos/das professores/as são negros/as). Aos 41 anos, depois de uma intensa campanha contra sua reputação, foi encontrado morto em casa. Inicialmente, Arday foi questionado pelo filósofo e professor Nathan Cofnas, cujo perfil no X ainda mostrava, no domingo, dia 16 de agosto, um post fixado em julho trazendo denúncias de fraude contra Arday (print abaixo).

Post fixado no X de Nathan Cofnas. Imagem: Reprodução/Redes sociais

Por conta da acusação de plágio, uma investigação foi aberta na Liverpool John Moores, onde Arday realizou o doutorado – a universidade manteve a decisão de conceder-lhe o título de doutor. Depois, a Universidade de Cambridge também checou o histórico acadêmico do sociólogo e decidiu mantê-lo no corpo docente. No dia 5 de agosto, após a instituição informar que abriria outra investigação por conta de novas denúncias, Arday pediu desligamento. A imprensa britânica – conhecida tanto por sua qualidade quanto pelo gosto de sangue e escândalos – publicou 188 matérias em somente nove dias após a saída de Arday. Em 22 dias, foram 249 textos. A organização News Cord realizou um necessário ranking mostrando que articulistas mais se debruçaram sobre o caso. Um deles, Albert Tait, do The Telegraph, escreveu 14 textos sobre Arday. Um escrutínio que poucas pessoas aguentariam – e Arday não aguentou

Primeiro, transformaram o professor em uma estrela. Depois, investiram em uma campanha para apagá-lo. O “estrelato” tinha relação com a entrada do professor negro na universidade de elite, mas não só. A biografia de Arday, que se tornou a diversão de parte dos ingleses nas últimas semanas, era repleta de detalhes espetaculares. Ele contou que aprendeu a falar somente aos 11 anos e a ler aos 18, graças, entre outras pessoas, à sua mãe, Gifty, enfermeira de saúde mental e ativista antirracista. Arday, filho de pais ganeses, foi diagnosticado com autismo aos 3 anos e cresceu em um conjunto habitacional popular de Clapham, no sul de Londres. 

Texto do The Guardian, julho de 2023: Arday enquanto “extraordinário”

Além disso, Arday falou sobre ter corrido milhares de quilômetros em maratonas realizadas quase sequencialmente, além de ter levantado milhões de libras para fundos de caridade. Tudo isso – questões que soam fabulosas demais, mas não deveriam estar conectadas ao Jason Arday professor – está no texto de Cofnas. 

Esta matéria do jornal The Observer, assinada por Lily Isaacs, recupera a trajetória desse último acadêmico, um homem branco. Há nela um dado importante: Cofnas foi demitido pelo Emmanuel College, de Cambridge, em 2024, após suas manifestações sobre raça serem consideradas incompatíveis com os valores da instituição. Autodeclarado race realist, ele defende a existência de diferenças raciais biologicamente determinadas, inclusive em inteligência. Em textos publicados no Substack, atacou políticas de diversidade e chegou a falar em uma “revolução” contra políticas de inclusão. As posições provocaram reação dentro de Cambridge: uma petição pela sua demissão reuniu mais de 1.200 assinaturas, além de protestos no Emmanuel College.

Eu passei a semana lendo matérias sobre Arday antes de sua morte e não vi os jornais britânicos jogando luz nesse ponto, mas sim e intensamente nas questões biográficas de Arday. Esse escrutínio midiático não deve ser visto como algo pontual, e sim como mais uma camada do racismo que embasa a trajetória de pessoas negras nos espaços de poder. 

A sensacional jornalista Mona Chalabi, especializada em dados, fez um mais que didático post sobre o caso, mostrando acadêmicos/as brancos/as que foram acusados/as de plágio mas mantiveram seus empregos – o mesmo não aconteceu com as pessoas negras. Além de Arday, Chalabi evidencia a professora Claudine Gay, que ocupou a presidência da tradicional Universidade de Harvard por apenas seis meses. Também sofreu intensa campanha crítica midiática e renunciou ao cargo em janeiro de 2024. Também foi acusada de plágio. Continua a lecionar na instituição. O atual presidente é Alan M. Garber, um homem branco. Agora, a paz reina no local e todos os corações estão pacificados.

Antes de ir, quero lembrar de duas coisas. A primeira: a imprensa que adora promover verdadeiras caçadas contra plágios vai escrutinar as big techs que estão roubando nossas conversas, nossa intelectualidade, nossa vida, nossa emoção, para transformar tudo em dado, escrita e imagem para alimentar a inteligência artificial? Nvidia, Microsoft, OpenAI, Google (DeepMind), Anthropic, Amazon e Meta estão plagiando e escaneando a nós, agora, neste momento. Os big plagiadores têm nome, endereço?

A segunda é sobre um manifesto escrito por acadêmicos e publicado há alguns meses, que não comentei publicamente porque tinha coisas bem melhores a fazer, como lavar meu cabelo. Mas faz sentido trazê-lo aqui e agora. O tal manifesto pela pluralidade foi debatido, ora vejam só, no Centro Universitário Maria Antônia da Universidade de São Paulo, a USP. Segundo consta em um artigo, a intenção foi “discutir o ambiente de exigência de conformidade ideológica, autocensura e intolerância ao dissenso que prevalece hoje nas instituições públicas de ensino superior no Brasil”. A fumaça que envolve tudo aqui é a questão do identitarismo, o espantalho que transformou a vida de uma série de acadêmicos do país em uma quase cruzada contra os “excessos” localizados nas discussões sobre raça, gênero etc. 

Eu estou há dez anos em sala de aula e frequentando congressos, debates e, de fato, já vi falas e textos serem distorcidos ou interditados sem uma reflexão mais cuidadosa. Eu mesma já fui alvo. Com o espraiamento das redes sociais, esses atos (que não são novidade na vida acadêmica, mas agora não têm somente gente branca brigando nos congressos) reverberam ainda mais. 

Mas, atenção aqui: não é formidável que um grupo de pessoas imersas nesse ambiente acadêmico tão desigual – principalmente no quesito das pós-graduações – não tenha expressado desconforto justamente pela falta de pluralidade de raça ou gênero? O excelente projeto Alteridades na Pós-Graduação (um livro será lançado em breve) mostrou, por exemplo, que em alguns estados do Norte do país, não há nenhuma – eu disse nenhuma – pessoa indígena em uma pós. E o Norte é a região que mais concentra indígenas no país: são 753.357 indivíduos, 44,48% do total da população nacional (1.693.535 pessoas indígenas). Que pluralidade, afinal, está sendo discutida? Como não pensar que as desigualdades arraigadas e naturalizadas ao longo da nossa história não tenham produzido efeitos nocivos que também (mas não só) conseguem interditar debates? Por qual razão estes números nunca provocaram em vocês o desejo de se manifestarem de maneira organizada e pública? Que tal discutir essas questões em uma pós no Macapá ou em Teresina, e não na Maria Antônia? 

O que significa pluralidade para as menos de 3% de docentes negras nas pós-graduações do país? Que pluralidade mesmo vocês perderam? Qual o CEP de vocês aí na Dinamarca?

Que vergonha.

O post A morte de Jason Arday e o frágil lugar de pessoas negras em espaços de poder acadêmicos  apareceu primeiro em Intercept Brasil.

Qual é a sua reação?

Como Como 0
Não gosto Não gosto 0
Amor Amor 0
Engraçado Engraçado 0
Nervoso Nervoso 0
Triste Triste 0
Uau Uau 0