Aquilo que os vasos guardam: memória, identidade e imaginação na pintura de Nanja Brasileiro
Vivemos numa época curiosa. Nunca produzimos tantos registros
e, paradoxalmente, nunca esquecemos tão depressa. Fotografamos tudo, arquivamos
tudo, compartilhamos tudo. Ainda assim, algo essencial parece escapar. Como se
a abundância de imagens tivesse produzido uma nova forma de ausência. Nesse
contexto, a pintura de Nanja Brasileiro surge como um gesto de resistência. Não
contra a modernidade, mas contra o esquecimento.
Ao observar suas telas, tenho a impressão de estar diante de
objetos que guardam algo. Não apenas formas ou cores, mas vestígios. Memórias.
Presenças. As figuras que habitam sua obra parecem carregar uma biografia
silenciosa, uma história que não se deixa traduzir integralmente em palavras.
O símbolo que melhor sintetiza esse universo é o vaso. O vaso
aparece explicitamente em algumas obras; em outras, manifesta-se de maneira
indireta, sugerido por formas ovais, recipientes imaginários, estruturas de
acolhimento ou campos visuais que parecem destinados a conter algo precioso.
Trata-se de uma imagem antiga. Talvez uma das mais antigas da experiência
humana. Antes de ser objeto artístico, o vaso foi instrumento de sobrevivência.
Guardou água, sementes, alimentos, remédios, cinzas e relíquias. Guardou a
vida.
Não surpreende que tenha se tornado um poderoso símbolo
cultural. Em muitas tradições, o recipiente representa a memória coletiva. É o
lugar onde uma comunidade deposita aquilo que não deseja perder. Ao recuperar
essa imagem em sua pintura, Nanja Brasileiro parece formular uma pergunta
discretamente filosófica: o que ainda merece ser preservado?
Essa questão atravessa toda a sua produção. Os rostos que
surgem em suas telas não são retratos no sentido convencional. Não procuram
reproduzir uma fisionomia específica nem registrar uma identidade individual.
São rostos que lembram máscaras rituais, fragmentos de cerâmicas ancestrais ou
personagens emergidos de uma memória coletiva. Possuem algo de familiar e, ao
mesmo tempo, de enigmático.
Talvez porque pertençam menos ao domínio da representação e
mais ao da evocação. Ao contemplá-los, recordo uma observação de Paul Ricoeur:
a memória nunca é uma reprodução fiel do passado; é sempre uma reconstrução. Os
rostos de Nanja parecem nascer exatamente nesse espaço intermediário onde
lembrança e imaginação se encontram. Eles não mostram quem fomos. Mostram
aquilo que permanece de nós depois que o tempo fez seu trabalho de erosão.
Há também uma presença constante do feminino. Mas seria um equívoco
reduzir essa presença a uma temática de gênero. O feminino, em sua obra,
aparece sobretudo como princípio criador. Está nas flores que brotam, nos
recipientes que acolhem, nas formas curvas que organizam a composição. Está na
lógica da fecundidade que atravessa as telas.
As flores merecem atenção especial. Não são elementos
decorativos. Funcionam como sinais de continuidade. Enquanto os rostos evocam a
memória, as flores sugerem renovação. Elas estabelecem uma ponte entre aquilo
que foi preservado e aquilo que ainda está por nascer.
Memória e futuro. Raiz e florescimento. Talvez seja por isso
que suas composições transmitam uma sensação tão peculiar de serenidade. Não há
nelas a angústia característica de grande parte da arte contemporânea,
frequentemente marcada pela fragmentação, pela ruptura e pelo colapso dos
sentidos. Isso não significa ingenuidade estética. Significa outra escolha.
Nanja Brasileiro parece interessar-se menos pela destruição
das formas do que pela investigação dos vínculos que ainda nos sustentam.Seu
trabalho não ignora a fragmentação do mundo moderno; apenas se recusa a
transformá-la em destino. Essa postura torna-se ainda mais evidente na
utilização da cor. Azuis profundos, vermelhos intensos, amarelos luminosos e
verdes delicados não obedecem a critérios naturalistas. As cores não descrevem
o mundo. Criam atmosferas emocionais. São estados de espírito convertidos em
matéria visual.
Existe algo de musical em suas telas. Como acontece na
música, a compreensão não depende exclusivamente do significado racional. Antes
de entender, sentimos. Antes de interpretar, somos afetados. É nesse ponto que
a pintura de Nanja Brasileiro alcança sua dimensão mais interessante. Ela nos
recorda que a arte não existe apenas para representar a realidade. Existe
também para conservar aquilo que a realidade ameaça apagar.
Seus vasos guardam mais do que flores. Guardam memórias e
Guardam ancestralidades. Guardam afetos. Guardam identidades em permanente
transformação. Num tempo em que tudo parece destinado à velocidade do consumo e
ao desaparecimento imediato, sua pintura realiza um gesto raro: cria lugares de
permanência. Talvez seja essa a sensação que acompanha o observador ao final de
cada tela. A impressão de ter encontrado um pequeno abrigo contra o
esquecimento.
E, em tempos como os nossos, não há gesto artístico mais
necessário....
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