Bolsonarismo engoliu o centro e a saída é à esquerda

Até a última eleição, o bolsonarismo tinha muitos votos, mas não havia construído um partido tradicional nem dominado uma legenda com força nacional. Este caminho lhe dava vantagens, como a flexibilidade na construção de alianças, mas trazia problemas que iam dos excessivos confrontos internos à dificuldade de construir um plano de conquista do poder.
Após a prisão de Jair Bolsonaro, o bolsonarismo parecia enfrentar dificuldades para se manter como coalizão líder da ultradireita construída ao longo da última década. O resultado do primeiro turno das eleições de 2026 não apenas aponta em outra direção, como sugere que talvez a exceção ao movimento dos últimos anos não seja a vitória de 2018, mas a derrota de 2022.
Os resultados eleitorais de 2026 expõem um novo cenário. O bolsonarismo tem agora um partido nacional, o Partido Liberal, que alcançou os melhores resultados de uma legenda na Nova República, com a eleição do maior número de deputados desde 1986, o domínio do Senado e a provável eleição de sete governadores após o segundo turno.
A ultradireita no Brasil se consagrou como campo, que articula novos atores de extrema direita, conectados a repertórios internacionais, com lideranças tradicionais que abandonaram qualquer compromisso com a democracia brasileira. Nada mais sintomático desse movimento do que a aliança entre a família Bolsonaro e Valdemar Costa Neto.

Do centrão à extrema direita: o que une o PL a Bolsonaro
Com o PL, o bolsonarismo se rotiniza. Ele continua a apostar em personagens do mundo virtual, mas passa a ter por eixo um partido tradicional. Apesar da manutenção do predomínio familiar – o que é reforçado pela aposta contraintuitiva no nome de Flávio Bolsonaro –, a coalizão passa a ter duas cabeças: uma dos Bolsonaro e outra de Valdemar.
Os milhões do fundo eleitoral, os governadores e a enorme bancada no Congresso tanto fortalecem o bolsonarismo quanto o inserem em uma instituição, cenário que dificulta várias das suas práticas caóticas. Por outro lado, o desempenho ruim do partido Missão, que tentou disputar a liderança da ultradireita, fortalece o lugar hegemônico da família.
Cultivadas no puro suco do centrão, algumas lideranças do PL manterão as feições locais da ultradireita, que deve guardar velhos hábitos e discursos, mas a votação consagra um novo lugar para o Brasil no mundo, com consequências muito profundas para o país.
Hoje não é possível olhar para o bolsonarismo sem atentar para seus vínculos internacionais, que vão além da dimensão mais superficial de 2018 ou mesmo de 2022. Eduardo e Flávio Bolsonaro se comprometeram a incluir o Brasil no projeto de domínio continental de Donald Trump, o que pressupõe uma ruptura com o nacionalismo de direita, de forte tradição militar, que marcou o primeiro governo Bolsonaro.
Se Flávio for eleito, a tendência é perdermos parte da soberania que nos resta. Neste sentido, um futuro governo Bolsonaro estaria afinado com a maioria da América Latina, que viu a extrema direita expandir seu poder pelo continente.
A eleição também consolida o papel das redes sociais na formação de novas lideranças. Neste caso, o destaque vai não apenas para a extrema direita, com as votações impressionantes de Nikolas Ferreira e Lucas Pavanatto — ambos do PL —, como para a esquerda, com os desempenhos expressivos de Erika Hilton e Jones Manoel, os dois do Psol.
É possível certamente apontar erros do campo democrático e acertos dos seus adversários, mas o fenômeno não se restringe a estratégias. Há, por um lado, o impacto da arquitetura das redes, amplamente favorável a discursos e performances de determinado tipo. Sem contar o papel dos CEOs das big techs, com sua grande capacidade de pautar as interações virtuais a partir de ajustes nos seus algoritmos, o que distancia as redes de qualquer coisa parecida com um terreno minimamente neutro.
Redes sociais, igrejas e a maquiagem da velha política
O bolsonarismo ainda mantém sua capacidade de mobilização rápida dos eleitores. O fenômeno aponta tanto para as movimentações nas redes sociais quanto sugere um papel de instituições como as igrejas, que são capazes de falar em pouco tempo para milhares de pessoas.
O Rio de Janeiro é um exemplo eloquente. Depois de liderar todas as pesquisas, o ex-prefeito do Rio, Eduardo Paes, do PSD, quase perdeu no primeiro turno para Douglas Ruas, do PL, até há pouco desconhecido da grande parte do eleitorado. Ele fez parte do governo de Cláudio Castro, do PL, que está inelegível.
Há algo semelhante ao movimento que elegeu Wilson Witzel em 2018, mas convém termos um pouco de cautela. O ex-secretário de Cláudio Castro não se apoia apenas no bolsonarismo, mas em redes de longa história na política fluminense, com influência no interior e participação de elites políticas estabelecidas, algumas delas com reiteradas acusações de envolvimento com o crime organizado. É o caso, por exemplo, de seu pai, o prefeito de São Gonçalo Nelson Ruas.
O Rio demonstra bem como o bolsonarismo não se ampara apenas na novidade, mas é bem-sucedido justamente por articular um movimento global a velhas práticas e elites locais.
Derrota no radar: a esquerda precisa arriscar
O resultado da eleição presidencial é a soma de todas essas movimentações, muitas delas iniciadas há mais de uma década. Como demonstra o resultado da eleição para o Senado, os bolsonaristas foram muito eficientes em utilizar o tradicional repertório anticorrupção, uma das principais bases do antipetismo.
O destaque que o Supremo Tribunal Federal ganhou nas manchetes não apenas impediu o debate mais aprofundado de propostas, como criou um clima amplamente favorável aos bolsonaristas. Nada pior para qualquer governo do que a sensação de caos generalizado.
Flávio Bolsonaro é hoje franco favorito, não somente pela vantagem de 2,2 milhões de votos, mas também pelo perfil à direita dos candidatos derrotados Augusto Cury, Ronaldo Caiado e Renan Santos — o que sugere uma provável migração dos votos desses nomes para o candidato do PL.
As chances de Lula estão na capacidade de pautar o debate a partir de alguns fatos novos, parecidos com a proibição das bets. Caso siga a mesma toada do primeiro turno e tema as previsíveis acusações da imprensa de movimentos “eleitoreiros”, a derrota é quase dada.
Depois de um governo no qual a frente ampla limitou seus movimentos, o atual presidente se viu abandonado por boa parte dos seus aliados de 2022. Parte das elites e da mídia preferiu apostar no potencial democrático do jovem Bolsonaro, ou na conversão dos golpistas de ontem.
A esquerda hegemônica continua, por sua vez, a vestir o figurino de defensora do sistema e da ordem. Não se trata de uma simples escolha. Se Lula tivesse adotado uma perspectiva mais à esquerda, é bem provável que não terminasse o mandato. O enredo do segundo governo de Dilma Rousseff já estava pronto para ser reencenado.
Hoje, porém, o cenário é diferente. Já à beira do precipício e sem maiores custos, ele tem a oportunidade para um movimento mais enfático à esquerda, com propostas que beneficiem claramente os mais pobres, com destaque para os trabalhadores precarizados de aplicativos. O risco é sua única chance. Não há fórmula pronta para a vitória, mas o caminho atual quase certamente levará à derrota.
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