Como a religião dividiu o voto no Brasil e por que a esquerda perde espaço entre evangélicos

Nas últimas décadas, a religião se consolidou como um tema obrigatório na agenda política. Seja pelo apoio público de lideranças religiosas ou pelo aceno aos segmentos cristãos em programas de governo, atualmente nenhum candidato à Presidência ignora o voto religioso.
Essa dinâmica ganhou força na disputa eleitoral de 2010. Na ocasião, José Serra, do PSDB, disputou o pleito contra a candidata Dilma Rousseff, do PT. Diante da dificuldade de combater a popularidade do governo Lula, que deixava o cargo com recordes de aprovação, o tucano usou a fé como estratégia de diferenciação.

Embora o uso do tema tenha gerado efeito adverso após polêmicas da própria campanha — incluindo a distribuição de santinhos pela campanha de Serra com a frase “Jesus é a verdade e a Justiça” e acusações sobre o tema do aborto —, aquele pleito inaugurou a presença maciça da fé no debate presidencial. Desde então, a pauta religiosa se repete, com maior ou menor intensidade, a cada ciclo eleitoral.
O voto por religião: católicos à esquerda, evangélicos à direita
Os dados das eleições das últimas duas décadas indicam a consolidação de um realinhamento eleitoral: católicos tendem a votar majoritariamente à esquerda, enquanto evangélicos migram de forma consistente para a direita.
De acordo com o Datafolha, a distância entre os dois grupos era pequena nos anos 2000. Em 2006, 62% dos evangélicos votaram em Lula no segundo turno. Contudo, a partir de 2010, o eleitorado evangélico se alinhou de forma majoritária à direita.
Em 2022, a diferença de preferência política entre católicos e evangélicos atingiu 26 pontos percentuais, demonstrando que a religião se tornou um dos fatores centrais para explicar a escolha do eleitorado nas urnas.
Essa constatação pode parecer óbvia diante das várias notícias que associam o bolsonarismo aos evangélicos. Contudo, a questão é mais complexa.
PT perde apoio da base
A mudança no comportamento do eleitorado evangélico impactou diretamente a base histórica do PT, composta por eleitores de menor renda e escolaridade:
- Em 2006: O PT obteve 75% dos votos no segundo turno entre quem ganhava até dois salários mínimos.
- Em 2010: O apoio nessa faixa de renda caiu para 56%.
- Em 2018: Chegou ao patamar de 41%.
- Em 2022: Registrou recuperação, alcançando 55%.
A análise por segmento religioso revela que a perda de votos do partido entre os mais pobres ocorre principalmente no eleitorado evangélico. Entre os católicos de baixa renda, o PT manteve a vantagem, que se ampliou a cada eleição, inclusive durante o pleito de 2018. Em 2022, a vantagem petista entre católicos de baixa renda foi 32 pontos percentuais superior à registrada entre evangélicos da mesma faixa econômica.
Três fatores que explicam a consolidação da direita entre evangélicos
Três elementos principais podem ajudar a compreender a preferência do eleitorado evangélico por candidaturas de direita:
- Rejeição histórica e pauta de costumes: Há décadas, setores evangélicos conservadores associam a esquerda a ameaças à moralidade familiar e à liberdade religiosa. A circulação de informações falsas em redes sociais reforça esses temas em períodos de campanha.
- Organização política estruturada: Desde a Assembleia Constituinte de 1988, lideranças evangélicas organizam candidaturas estratégicas, articulam bancadas no Congresso e fundam legendas partidárias para amplificar a representatividade política do segmento.
- Crescimento demográfico: O aumento no número de fiéis e igrejas evangélicas no país amplia a escala de mobilização eleitoral promovida por essas redes.
Em contrapartida, no meio católico, a atuação direta do clero nas campanhas é mais contida. A partir de orientações recentes da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, busca-se evitar o alinhamento partidário direto de religiosos. A memória das políticas sociais dos governos petistas ainda mantém maior apelo entre a população católica de baixa renda.
Programas sociais e a Teologia da Prosperidade
No segmento evangélico de menor renda, o alcance de programas sociais não garantiu a adesão política às pautas de esquerda. Entre 2006 e 2022, o PT perdeu 33 pontos percentuais de votos entre evangélicos que recebem até dois salários mínimos.
A influência da teologia da prosperidade ajuda a explicar esse cenário. Ao associar a ascensão social, a conquista da casa própria ou a entrada no ensino superior ao esforço individual e à bênção divina, o eleitor tende a desvincular essas conquistas de ações governamentais ou políticas públicas.
Pesquisas do Datafolha apontam que os evangélicos recebem mais pedidos de mudança de candidato dentro das igrejas e cedem às orientações dos líderes.
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Diante do crescimento da população evangélica no Brasil, a comunicação com esse eleitorado representa um dos principais desafios estratégicos para o campo da esquerda nas próximas eleições. As iniciativas de criação de células nas legendas para se aproximar dos fiéis evangélicos tem se limitado à divulgação de cartas abertas e ações pouco efetivas.
É preciso compreender que as igrejas têm oferecido a esse público algo que os partidos políticos – em suas rígidas estruturas, pouco convidativas à participação – ainda não alcançaram: o sentimento de pertencimento. Somente quando se perceberem integrados e acolhidos em suas demandas, os evangélicos estarão dispostos a ouvirem e, quem sabe, escolherem os políticos da esquerda.
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